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Guestpost: Por que Geografia?, de Humberto Júnior (Beto)

Posted by on 29-ago-2014 in Blog, Educação, Geografia, Guestpost, Profissão | 0 comments

SamanthaO Humberto Júnior, conhecido também como Beto,  é um querido leitor e amigo aqui do Meteorópole. Ele escreve no ótimo Habeas Mentem. Ele é geógrafo e nesse guestpost ele conta para os leitores porque decidiu cursar geografia. Fala também do trabalho como professor  e da pós-graduação que está realizando no momento. Beto conta as barreiras que encontrou ao longo da graduação, da dificuldade de conciliar trabalho e cursos da faculdade.

Como no relato da Sybylla, encontro um ponto em comum muito importante: a prensença do apoio da família e/ou de amigos. A mãe da Sybylla e a mãe do Beto foram pessoas que apoiaram seus filhos em suas trajetórias, mostrando a importância do educação. E o mesmo elemento também está presente em minha história pessoal: meus pais sempre me incentivaram e mostraram que aprender era importante e que me traria frutos no futuro.

Observando os jovens que atendo em meu trabalho, percebo que aqueles que recebem o apoio da família são os mais empenhados em aprender. Há pais que por uma série de razões não conseguem transmirir para os filhos a importância da educação. 

Deixo vocês com as palavras do Beto =). E muito obrigada por compartilhar a sua história e permitir que eu a publicasse no meu querido bloguinho.

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Ao ser convidado pela Samantha para escrever esse guestpost (meu primeiro, aliás) me senti honrado. Afinal o Meteorópole é um dos meus blogs preferidos e sempre estou por aqui, lendo, aprendendo e de vez em quando comentando.

Assim como a colega Sybylla, que escreveu um relato maravilhoso há algum tempo, também sou Professor de Geografia, embora afastado das salas de aulas – pelo menos por enquanto.

Em meu blog, eu já escrevi contando o que eu queria ser quando crescesse. Finalizei dizendo que optei pelo curso de Geografia, mas não dei detalhes sobre como foi essa escolha. Aproveito o convite da Samantha para fazê-lo agora.

Embora tenha estudado em escolas particulares por determinados períodos, a maior parte de minha vida estudantil foi em escolas públicas. Era bom aluno, mas confesso que aprendi muito pouco na escola. Boa parte do conhecimento que adquiri nesse período se deu pelo meu amor à leitura. Era lendo que eu aprendia sobre aquilo que deveria aprender na escola.

Ao prestar vestibular pela primeira vez, mesmo indo muito bem nas demais disciplinas, fui muito mal na de língua estrangeira o que acabou por me eliminar. Queria cursar jornalismo na Universidade Federal de Sergipe (minha única opção, já que eu não tinha condições de pagar uma particular), mas esse fracasso me desanimou bastante. Minha mãe ainda pensou em pagar um cursinho de inglês para mim, mas eu não queria onerar ainda mais as despesas de casa. Separada do meu pai, era minha mãe quem bancava as contas da casa com seu salário de Encarregada de uma rede de supermercados daqui de Sergipe. Meu pai contribuía com uma pequena quantia que era destinada quase toda pra as despesas com educação minha e de meu irmão. Nessa época eu queria mesmo era contribuir com a renda e não ser motivo para mais uma despesa. Decidi que era melhor fazer outro curso onde língua estrangeira não tivesse tanto peso quanto no de Jornalismo e fui atrás de um emprego para ajudar em casa.

Deu para perceber que minha mãe ficou consternada com minha decisão, mas ela soube fingir bem que não. E o mais importante: me apoiou. Aliás, bem mais do que isso, pois partiu dela a sugestão mais acertada que já fiz na minha vida. Enquanto eu pensava em prestar um novo vestibular para História, disciplina que eu me dava muito bem na escola, minha mãe apareceu com a ideia de tentar para Geografia. Eu até que me dava bem em Geografia na escola, mas não era essa necessariamente a minha disciplina preferida. Pra ser sincero eu achava essa uma disciplina chata demais. Era muita decoreba, um monte de nomes e descrições sem nenhuma finalidade ou objetivos óbvios. Minhas boas notas em Geografia se davam exclusivamente pelo meu gosto por mapas e por minha boa memória. No que dependesse de mim eu jamais teria escolhido esse curso. Mas minha mãe tinha um colega de trabalho formando nessa área, e encheu a bola do curso, tecendo elogios rasgados de como ele era maravilhoso, esplêndido, verdadeira última Coca-Cola do deserto! Convenceu minha mãe pelo entusiasmo e ela me convenceu com seu jeitinho de mãe. E lá fui eu prestar vestibular para Licenciatura em Geografia. Passei e, para minha surpresa, com uma ótima pontuação. Isso foi em 2003.

Humberto e sua mãe durante a formatura no curso de Geografia. Foto: Acervo Pessoal

Humberto e sua mãe durante a formatura do curso de Geografia. Acervo Pessoal

Eu ainda não sabia, mas essa acabou sendo uma das melhores coisas que já me aconteceram. Se antes eu não via a menor graça na tal da Geografia, logo no primeiro semestre de curso, em meio a disciplinas com nomes que me davam frio na espinha, (Climatologia Sistemática, Geologia I ou ainda Introdução ao Pensamento Geográfico foram as que mais me amedrontavam), tive o privilégio e a honra de conhecer um Professor que era uma verdadeira lenda no curso: Professor Edvaldo Teles. Esse verdadeiro Mestre foi o responsável por me ensinar (e a muitos) uma Geografia bem diferente daquela decoreba que (não) aprendi na escola. Uma Geografia rica, vibrante e muito mais interessante! Foi graças ao Professor Edvaldo que conheci e aprendi a amar a Geografia!

Uns cinco meses antes eu tinha conseguido meu primeiro emprego na mesma rede de supermercado na qual minha mãe trabalhava, mas numa loja diferente. Trabalhava como empacotador das 13hr15m às 22hr15m. Só quem já trabalhou em supermercado sabe o quanto é duro e exaustivo. Eu chegava em casa literalmente moído. Não eram raros os dias em que chegava mais de meia noite, morto de fome e cansaço. Isso tudo ganhando um salário mínimo. Quando passei no vestibular minha jornada diária ficou ainda mais puxada. Acordava às cinco da manhã, para estar pontualmente as sete na universidade, depois de pegar dois ônibus. Lá pelas onze e meia o professor liberava e eu corria pra pegar mais dois ônibus para o trabalho. Lembro com um misto de terror e saudade as aulas da querida Professora Acácia, famosa por falar muito e por ser extremamente pontual. Ou seja, ela só nos liberava meio dia em ponto depois de muito falar.

Essa jornada louca durou por toda minha graduação e cobrou um preço alto, pois muitas vezes eu simplesmente não conseguia acordar cedo, devido ao cansaço do trabalho. E assim acabei reprovando em algumas matérias por faltas, já que estas começavam às sete horas. Isso me complicou bastante, pois eram disciplinas obrigatórias para se cursar outras tantas mais a frente. Em miúdos: formatura em quatro anos? Não mais, amigão! Na realidade levei sete anos e meio para me formar por causa disso.

Nesse longo período enfrentei vários problemas tanto na universidade, como no trabalho. De professores desestimulados a chefes intransigentes. De um curso e universidades sucateados a desemprego. Mas também obtive muitas felicidades. Tive mestres maravilhosos, ensinamentos valiosos. Também cultivei amizades duradouras que me ajudaram no meu momento mais difícil e souberam me manter focado e estimulado quando eu já tinha desistido da luta e do curso. Junto a esses amigos ajudamos a tirar o curso da estagnação em que se encontrava, apoiando professores comprometidos e dispostos. Parando de apenas apontar os problemas que todos já sabiam quais eram, botamos a mão na massa e passamos a fazer parte da solução. Ajudamos a montar laboratórios, organizamos e participamos ativamente de eventos além de uma série de outras atividades que nos brindaram com a nota máxima na avaliação feita pelo MEC.

E, talvez, o mais importante de tudo: descobri na licenciatura uma vocação.

Ainda durante a graduação comecei a lecionar numa escola particular no bairro onde morava e me identifiquei de uma maneira que jamais acharia possível. Se com o saudoso Professor Edvaldo aprendi a amar a Geografia, foi em sala de aula que aprendi a amar o ofício da licenciatura. Ensinar tornou-se o mais grato e feliz presente que ganhei em minha jornada na Geografia. E foi com muita dor que precisei trocar a licenciatura por outro emprego. Infelizmente o Brasil ainda é um país que paga muito mal seus professores e quando uma oportunidade de emprego melhor remunerada surgiu, fui prático e não perdi a oportunidade.

Mas não abandonei totalmente as salas de aula. Faço atualmente uma pós-graduação em Docência e Licenciatura no Ensino Superior e pretendo sim voltar a ensinar. Ensinar Geografia, a ciência que, embora não tenha sido meu sonho de criança, aprendi a amar como se fosse!

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A Meteorologia de: Vulcano

Posted by on 28-ago-2014 in A Meteorologia de:, Blog, Ficção Científica | 0 comments

Na série “Meteorologia de: _______”, já falei de um outro mundo de Star Trek: Qon’os, mundo-capital dos Klingons. E usei um .gif bem bacana que vi aqui para ilustrar Qo’nos. Só que não vi o mesmo gif para Vulcano =(

Não tem problema, vou ilustrar com imagens que encontrei na internet. Muitas delas, vi no Memory Alpha. Ah sim, é importante dizer que estou seguindo a linha do tempo tradicional. Quem viu o filme de 2009 sabe do que estou falando =P

O planeta Vulcano tem uma atmosfera mais rarefeita que a nossa (me refiro aqui ao nível do mar, na Terra). A aceleração da gravidade no planeta também é maior do que na Terra. O que é bom, porque isso deve ajudar a manter os gases na atmosfera. Provavelmente se aceleração da gravidade em Vulcano fosse igual a da Terra, a atmosfera seria mais rarefeita ainda e talvez nem teríamos um planeta Classe M (planeta habitável).

Vulcano é um planeta com poucos oceanos. O que sugere evidentemente que haja poucas fontes de umidade. A maior parte do território de Vulcano consiste em áreas de desertos e montanhas. Nessa imagem de uma cidade de Vulcano (a imagem é de um episódio da série Star Trek: Enterprise), correspondente ao ano de 2154, é possível observar um céu avermelhado. É o por-do-Sol, mas ainda assim, o céu é bem mais avermelhado do que no pôr-do-Sol da Terra. Isso sugere que as partículas em suspensão na atmosfera Vulcana sejam em média  maiores que as partículas em suspensão na nossa atmosfera.

A panoramic view of the Vulcan capital city in 2154. (ENT: "Kir'Shara"). Fonte: Memory Alpha

A panoramic view of the Vulcan capital city in 2154. (ENT: “Kir’Shara”). Fonte: Memory Alpha

Nosso céu é azul devido ao Espalhamento Rayleigh. As moléculas dos gases que compõe nossa atmosfera são relativamente pequenas e favorecem o espalhamento de comprimentos de onda pequenos (azul, roxo). No poente, a luz solar atravessa uma camada maior de atmosfera e acaba favorecendo o espalhamento dos comprimento de onda maiores (azul, laranja). Esse último chama-se Espalhamento Mie.

O por-do-Sol em Vulcano me lembra muito o pôr-do-Sol em Marte:

Imagem feita de Marte em sua baixa órbita. É possível ver a tênue atmosfera com coloração avermelhada. Fonte: Wikimedia Commons. Imagem obtida através da Sonda Viking.

Imagem feita de Marte em sua baixa órbita. É possível ver a tênue atmosfera com coloração avermelhada. Fonte: Wikimedia Commons. Imagem obtida através de uma das Sondas Viking.

 

Inclusive alguns de meus leitores vão lembrar dessas imagens de Juiz de Fora, mandadas pelo queridíssimo leitor e amigo Renan Tristão, rs. Ele mesmo brincou que Juiz de Fora estava parecendo Marte.

A propósito, meus amigos mais próximos sabem que eu “xingo muito” o seriado Star Trek: Enterprise. Mas nesse post vou usar muitas imagens deste seriado. A explicação é simples: provavelmente devido ao sucesso eyecandystico da T’pol, o planeta foi bem explorado na série. Além disso, na cronologia Star Trek, a série é a temporalmente mais próxima do primeiro contato. Ah sim, para quem não está familiarizado com a franquia, os vulcanos foram os primeiros humanoides aliens a entrarem em contato oficial (as aventuras da jovem Guinan na Terra não contam rs) com os terráqueos, o que ocorreu em meados do século XXI (tá chegando rs).

Uma outra imagem de Vulcano (também da série Star Trek: Enterprise ), mostra uma coloração mais “amarelada”, mais “apagada”. Ou seja, também bem parecido com Marte:

The Vulcan capital city in 2154, as seen from T'Les's house. (ENT: "Home")

The Vulcan capital city in 2154, as seen from T’Les’s house. (ENT: “Home”). Fonte: Memory Alpha

 

Panorama da Cratera Gusev, em Marte. Imagem obtida pela Spirit (rover), um robozinho simpático que passeou por Marte e nos deixou com inveeeja rsrs. Fonte: Wikimedia Commons

Panorama da Cratera Gusev, em Marte. Imagem obtida pela Spirit (rover), um robozinho simpático que passeou por Marte e nos deixou com inveeeja rsrs. Fonte: Wikimedia Commons

A propósito, Spirit e Oppy (os robozinhos mais invejados do Sistema Solar) tem perfil no Twitter.

Estou para dizer que se Marte fosse um pouco maior, tivesse aceleração da gravidade maior, talvez tivesse uma atmosfera menos rarefeita e talvez com gás oxigênio. Se tivesse mais água em Marte (alguns pequenos oceanos, por exemplo), talvez teríamos Vulcano bem ao nosso lado.

A inspiração em Marte é muito clara até em imagens da série clássica.

The USS Enterprise enters orbit around Vulcan in 2267. (TOS: "Amok Time"). Fonte: Memory Alpha

The USS Enterprise enters orbit around Vulcan in 2267. (TOS: “Amok Time”). Fonte: Memory Alpha

 

Ou seja, a imagem é completamente vermelha, lembrando bastante nosso vizinho. Agora olhem só que legal: quando remasterizaram a série, a imagem acima ficou:

The USS Enterprise enters orbit around Vulcan in 2267. (TOS: "Amok Time" remastered). Fonte: Memory Alpha

The USS Enterprise enters orbit around Vulcan in 2267. (TOS: “Amok Time” remastered). Fonte: Memory Alpha

Calotas polares! Isso mesmo. É muito evidente que se inspiraram em uma imagem do nosso querido vizinho Marte. Vulcano possui montanhas elevadas (destacando-se o Monte Seleya), vulcões ativos e áreas com lava. Exatamente como Marte pode ter sido.

Ainda falando na presença de pouca água em Vulcano, o único “corpo d’água” mencionado em todas as séries é o Lago Yuron, que aparece no holodeck de um episódio de Star Trek: Voyager.

As condições climáticas de Vulcano são tão adversas que a expressão “Hot as Vulcan” é parte do ‘dicionário’ na série, sendo dita quando está realmente muito calor. Há um episódio da série clássica (não lembro qual) em que fica frio na nave, algo assim. Mas os humanos conseguem suportar bem. Para Spock, no entanto, é bastante difícil. Os nativos do planeta estão adaptados as condições adversas. Há inclusive modificações nas pálpebras para que entre menos areia nos olhos dos vulcanos, pois lembro de um episódio (acredito que foi do Star Trek: Enterprise) em que essa questão é mencionada e um humano tem dificuldades em Vulcano.

Sobre o calor intenso, confesso que não compro essa ideia muito bem. Em locais desérticos, é realmente muito quente durante o dia. Já de noite, o frio é bastante intenso. A ausência de nuvens faz com que toda a radiação infravermelha (calor) seja perdida para o espaço. Então eu continuo achando coerente que Vulcanos deveriam ser resistentes a variações de temperatura, ou seja, eles deveriam suportar temperaturas em uma grande amplitude térmica.

Por falar em humanos, a mãe de Spock, Amanda Grayson é uma vencedora rs. Lendo relatos de brasileiros que vão morar no Oriente Médio e reclamam do calor escaldante, do tempo seco e das tempestades de areia, imagino que Dona Amanda tenha enfrentado os mesmos problemas. E como Vulcanos não admitem mimimi, ela nem tinha com quem reclamar, coitada.

Um fato curioso sobre o ‘processo criativo’ em cima da invenção do planeta Vulcano é que primeiro existiu Spock e depois Vulcano. Isso mesmo! Para explicar a força e a audição sobre-humanas de Spock, os criadores da série decidiram que Vulcano teria a atmosfera mais rarefeita e teria condições mais adversas. Vivendo entre humanos (e nas condições atmosféricas ideais para os humanos), Spock teria as vantagens mencionadas.

A ideia também é representar um planeta mais “velho” que a Terra. Um planeta de paisagens muuuito velhas e que pouco variam com o tempo, já que a erosão é mínima em uma atmosfera tão rarefeita.

Eu não tenho muito mais para falar de Vulcano. Vocês devem ter notado que é um post bem menos apaixonado que o de Qon’os, mas é assim mesmo. Muitos fãs da franquia acabam se identificando mais com uma espécie de humanoide. No meu caso, os Klingons.

Outros posts da série “A Meteorologia de: _______”:

- Mundos da ficção:  Qon’os

- Mundos-reais: Júpiter (parte I e parte II).

Bibliografia

- Leia mais sobre Espalhamento Rayleigh e Espalhamento Mie nesse e nesse post.

- Verbete sobre Vulcan, na Memory Alpha.

 

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Dúvida do leitor: Meteorologistas e o ciclo d’água

Posted by on 28-ago-2014 in A Atmosfera, Água, Chuva, Dúvida do Leitor, Nuvens, Profissão | 0 comments

WaterCycleKids-Portuguese

Há algumas semanas, atendi alguns alunos muito especiais, pois são alunos de minha prima e amiga Aline. Na escola em que ela trabalha, estão estudando o ciclo d’água de maneira multidisciplinar.

Um dos alunos, Glauco, foi bastante direto e essa semana me mandou um e-mail perguntando:

Qual a relação entre a meteorologia com o ciclo da água?

E para responder a dúvida dele, mostrei a imagem acima. Traduzi essa imagem no começo do ano passado (contei toda a história aqui). Conversei com o Howard Perlman, da USGS, um dos criadores da imagem, perguntando se havia versão em português da imagem. Ele disse que não e perguntou se eu gostaria de traduzir. Aceitei o desafio e fiz a tradução.

Quando vi a versão em inglês me apaixonei e logo sonhei com uma versão em portugês. Fiquei feliz em ver esse sonho realizado a partir de minhas mãos :)

Pois então, por que mostrei essa figura ao Glauco? Porque eu quis responder a pergunta dele de maneira retórica.

Observando o ciclo d’água na figura acima, onde você acha que o trabalho do Meteorologista se encaixa? Em que parte do estudo ciclo d’água o Meteorologista pode contribuir?

A chuva é uma importante parte do ciclo d’água. E quem estuda a chuva? O Meteorologista! Para conhecer outras atribuições do Meteorologista, veja aqui.

Estudamos desde os processos de formação de nuvens e os principais tipos de chuva. Dessa maneira, conhecendo a nuvem fisicamente, é possível pensar em estratégias para entender como prever a sua formação.

Os Meteorologistas também estudam o Vento e a Radiação Solar. Esses elementos também estão relacionados com o ciclo d’água. Só lembrar que a evaporação pode ser facilitada se o dia estiver ensolarado e/ou com vento mais forte.

Há um post bem completo em que abordo os principais pontos do ciclo d’água. Veja aqui.

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Resenha de “O Sonho da Sultana”, de Roquia Sakhawat Hussein

Posted by on 27-ago-2014 in Blog, Feminismo, Nuvens, Resenhas | 2 comments

Antes de fazer a resenha deste conto, vou falar duas coisas:

- Quem foi Roquia Sakhawat Hussein?

- Por que você deve ler? [Sim, vou falar isso antes de fazer a resenha rsrs não há regras]

Quem foi Roquia Sakhawat Hussein?

Roquia Sakhawat Hussein nasceu em 1880, em um vilarejo localizado em Bengala. A região é conhecida por ter um golfo com o mesmo nome,  Golfo de Bengala, que é o maior do mundo. Atualmente, a região de Bengala foi dividida: há o estado indiano de Bengala e o país Bangladesh. São regiões muito chuvosas, inclusive alguns recordes de precipitação mundial pertencem a esta região:

- Maior quantidade de chuva acumulada em um ano:  26470mm em Cherrapunji, Índia (1860-1861)

- Maior média anual total: 11872mm em Mawsynram, Índia.

Veja abaixo essas localidades na Índia. Elas são muito próximas, por isso aumente o zoom do mapa para conhecê-las.

É possível notar que os dois locais mencionados (marcados com balõezinhos no mapa acima) ficam na região de Bengala, onde nasceu Roquia (falei de outros recordes de precipitação nesse post). Vocês devem estar se perguntando o que isso tem a ver com a biografia de Roquia, bom, na verdade tem muito a ver com o conto que vou resenhar, então guardem essa informação rs

A autora era de uma influente e abastada família muçulmana. Aprendeu diversos idiomas, incluindo o bengali, que era um “idioma das massas”, já que a elite muçulmana preferia usar o persa ou o árabe. Ela preferiu usar esse idioma para que sua obra tivesse maior alcance. Como muitas moças muçulmanas daquele tempo (e até dos dias de hoje), Roquia casou-se muito cedo. Aos 16 anos, era casada com um magistrado que felizmente a apoiou em continuar seus estudos e a apoiou em sua carreira literária. Em 1902, Roquia lança seu primeiro trabalho: Pipasha, um ensaio escrito no idioma Bengali (o título significa sede neste idioma).

Depois que ficou viúva, Roquia fundou uma das primeiras escolas voltadas para a educação formal de garotas muçulmanas: Sakhawat Memorial Girl’s High School. A escola começou apenas com 5 alunas, mas logo tornou-se um sucesso. É uma das mais importantes escolas femininas e está em funcionamento até hoje na cidade de Calcutá.

Uma das coisas que Roquia defendia e deixava muito claro em seu trabalho é que as meninas merecem educação formal assim como os meninos. Isso é uma questão não resolvida até hoje em muitos países muçulmanos. Quando escrevi a resenha do excelente Cabul no Inverno, falei um pouco sobre esse tema. Ou seja, no início do século passado Roquia tratou de questões que ainda são discutidas até hoje. Falou de pontos que infelizmente estão longe de serem completamente resolvidos. Isso que torna a obra de Roquia tão importante e tão única. Uma das pioneiras e uma das expoentes do feminismo no mundo muçulmano.

Por que você deve ler?

Vou separar meus argumentos em tópicos principais:

- Porque é Ficção Científica Feminista: esse trabalho foi um dos pioneiros em colocar a mulher como protagonista, como tomadora de decisões, na ficção científica. Há trabalhos mais recentes (do tal “moderno Ocidente”), que colocam as mulheres como a namoradinha do herói, a bonitona (eye candy), a sexy burra, dentre outros estereótipos.

- Porque é Ficção Científica “antiga”: adoro ver o que as pessoas pensavam em termos de “modernidade” e como elas imaginavam as tecnologias avançadas que ainda não dispunham. Fico surpresa como algumas “profecias” se cumpriram, enquanto outras ficaram bonitas e interessantes somente no papel.

- Porque é um trabalho de uma cultura diferente da nossa: isso é muito importante! Sair um pouquinho do universo dos escritores ocidentais nos ajuda a expandir nossos horizontes e a aprender mais sobre outras culturas, tentando ver os mesmos assuntos que lidamos diariamente sob outra pespectiva

Onde consigo pra ler?

A Sybylla e a Aline Valek fizeram uma edição gratuita em português. A Sybylla fez a tradução e a Aline Valek fez a edição, a revisão e a capa. E olhem que capa mais linda (a imagem segue na sequência)!

Há uma ilustração muito graciosa também no interior do livro, pouco antes da breve biografia de Roquia. A propósito, a maioria das informações na breve biografia que escrevi foi obtida no livro.

Ah sim, já contei que é gratuito?  Está sob uma licença Creative Commons, pode ser livremente distribuída e compartilhada desde que a autoria da tradução seja mencionada, o conteúdo não seja modificado e não haja nenhum uso comercial. Para baixar o conto de Roquia e conhecer também a obra de Ficção Científica brasileira Universo Desconstruído (prometo uma resenha, que está mais do que atrasada), clique aqui.

Finalmente, a resenha:

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Capa da edição brasileira, com ilustração maravilhosa da Aline Valek

A Sultana está descansando em uma poltrona, refletindo sobre a condição da mulher indiana. Ela deve estar pensando na desigualdade entre os gêneros e no fato de as mulheres terem que ficar sob a purdah. Quando uma mulher que ela não conhece surge e passa a conversar com ela. Ela logo fica amiga dessa mulher a passa a chamá-la de Irmã Sara. A Sultana então nota que não está em sua cidade, mas sim em um lugar estranho que num primeiro momento passa medo e estranheza. Nesse novo mundo, bastante avançado tecnologicamente, as pessoas vivem em paz e as mulheres estão no poder.

O enredo é basicamente este e é incrível como em poucas páginas tantos temas são abordados. E mais incrível ainda é que o livro foi escrito no início do século XX e ainda assim é bastante atual.

As relações da mulher com o trabalho são mencionadas. A autora deixa claro sua opinião sobre a eficiência feminina. De acordo com a obra, os homens passavam 7h trabalhando, mas passam a maior parte do tempo fumando ou conversando. Eles não são eficientes. Já as mulheres trabalham apenas 2h por dia (a Irmã Sara trabalha em um laboratório, por exemplo) e usam o restante do dia para cozinhar e embelezar o mundo com arte e jardinagem. Sim, para a autora, cozinhar é uma delícia. Confesso que concordo muito com essa parte :)

Temos que ressaltar também que a obra descreve uma utopia: um mundo belo, com flores e artes. Casas confortáveis e aconchegantes, além de belos jardins em todos os lugares. A ciência serve as pessoas: faz com que elas tenham uma vida melhor. O mundo da Irmã Sara também é um mundo mais limpo, sem lama e aparentemente sem poluição!

A Mulher e a Academia é um outro tema abordado no conto. Uma das revoluções no mundo da Irmã Sara foi através da educação formal para mulheres. Havia uma ‘competição’ (no sentido positivo da palavra) entre universidades, em que as pesquisadoras competiam pela melhor invenção. Inclusive uma das invenções ajuda na vitória de uma batalha, que foi motivada pelo fato de a Rainha ter permitido que refugiados de outro país mais cruel vivessem livremente em seu país. Ou seja, até a guerra parece ter um motivo lógico.

Sobre a vitória nesse armistício, a luz solar foi usada como arma. Bom, percebi que a autora (que era poliglota e falava também inglês), provavelmente tinha referências greco-romanas. Quando Perseu degolou Medusa, para evitar que eles cruzassem o olhar, ele poliu seu escudo para que a luz solar cegasse Medusa e ela virasse a cabeça para o lado. Há também a lenda de que Arquimedes teria orientado os soldados romanos a polirem seus escudos a ponto de transformarem-nos em espelhos côncavos. Dessa forma, quando os navios do inimigo estavam chegando no porto, os soldados se organizavam em um semi-círculo e direcionavam seus espelhos para refletirem raios solares nos navios dos inimigos de maneira focalizada. Reza a lenda que dessa forma os navios inimigos pegaram fogo. Bom, há esse texto muito bom que discute essa lenda.

Mas também né, provavelmente a cultura greco-romana sofreu influências de outros povos. Sendo assim, pode ser que exista uma lenda persa, árabe ou indiana semelhante à de Perseu ou semelhante à história de Arquimedes. Nunca se sabe.

Ao falar dessa possível inspiração, não quero de forma alguma desmerecer o trabalho de Roquia. Pelo contrário: ela era uma mulher inteligente, bem educada, que certamente leu todo tipo de material que era disponibilizado a ela. Acredito que ela seja uma inspiração :).

E por falar ainda em luz solar, no mundo da Irmã Sara há uma tecnologia que permite “armazenar” a luz solar, para que assim o calor possa ser usado para cozinhar. Achei tão fantástico! No início do século, a maioria das casas de diversas regiões do planeta usavam fogão a lenha ou fogareiros. Minha mãe, quando era criança na década de 1960 e morava em uma cidade do interior da Bahia, conta que cozinhava com fogão a lenha também. Ainda hoje muitas pessoas utilizam esses tipos de fogões e sonham com eletrodomésticos que facilitem o trabalho diário. Por outro lado, há pessoas que conservam o fogão a lenha por nostalgia ou apenas para aquecer a comida.

A Energia Solar é bastante promissora. Regiões como o Sertão Nordestino, em que há poucos dias nublados por ano, seriam muito beneficiadas com a implantação desta fonte de energia, que é limpa. A grade sacada de Roquia foi ter percebido o caráter limpo desse tipo de energia e foi ter imaginado que em uma civilização mais avançada tecnologicamente a Energia Solar seria uma importante matriz energética.

Outro tema abordado na obra é a obtenção de água das nuvens. A propósito, se vocês observarem bem a linda capa da edição brasileira, vão notar um encanamento de água que desce das nuvens. Segundo o conto, canalizar a água das nuvens faz com que não ocorram tempestades e possibilita que a água seja usada na irrigação, por exemplo. Se a gente pensar bem por alto, isso até que seria possível. Mas como manter os encanamentos estáveis e como fazer com que eles saiam de onde as nuvens se formam?

No entanto, a água que vem das nuvens é aproveitada em algumas regiões do planeta. O catanieblas ou aparanieblas é uma espécie de rede usada em algumas regiões do Deserto do Atacama (falamos desse assunto aqui). Essa rede capta as gotinhas das nuvens, que escorrem por um encanamento. A água é usada principalmente para irrigação dos cultivos da região.

As nuvens do nevoeiro passam por redes como esta.As gotículas das nuvens ficam ‘presas’ nas redes e escorrem para um reservatório. Essa água então é usada para o consumo e para a irrigação.

Acredito que Roquia pensou nisso em O Sonho da Sultana justamente por vivem em uma área onde o regime de monções traz chuvas tão intensas todos os anos. Talvez observando aquela chuva toda, gerando inconvenientes e tragédias, ela pensou em aproveitar aquela água de outra forma.

Algumas pessoas podem discordar, mas vejo na ficção científica esse caráter “previsor”. A nossa imaginação cria soluções para nossos problemas. Como os autores de ficção científica normalmente tem um interece por ciência e sempre estão de olho nas novidades e nas descobertas, acredito que essas tais “previsões” saiam de maneira bastante natural. Roquia, na minha opinião, previu a importância da Energia Solar como fonte de energia limpa e previu também a captação da água das nuvens. No então, esses não são os méritos principais da obra de Roquia como um todo (não apenas do conto “O Sonho da Sultana”). Roquia imaginou um mundo com maior igualdade entre os gêneros, principalmente dentro do universo que ela vivia (ela era uma muçulmana indiana). Sua imaginação, na verdade, é o sonho de todas as mulheres de todo o mundo.

É importante avisar aos “desavisados apressados” que o objetivo das feministas não é oprimir os homens. O objetivo é a luta por nossos direitos. Pode até existir alguma ou outra mulher que se diz feminista e pretende que os homens sejam oprimidos, mas nem preciso dizer que esse pensamento é totalmente equivocado. O “Sonho de Sultana” deve ser enxergado como uma obra de questionamento: e se os homens fossem submissos? e se eles ocupassem a posição de oprimidos? Acredito que o principal objetivo de trabalhos que colocam mulheres em posições de opressoras seja exatamente este. É um equívoco e uma enorme desonestidade intelectual pensar o oposto (e há quem o faça pelos confins da internet).

Se eu recomendo o conto? Mas é claro que sim =). Leiam! Ele é curtinho, a tradução da Sybylla está muito boa. Há inclusive boas notas, explicando termos da religião muçulmana e referentes a época em que viveu Roquia.

P.S.: Apenas para deixar bem claro, a tecnlogia do mundo da Irmã Sara propõe que a água seja canalizada a partir de nuvens de tempestade, os Cb’s (ou antes de se tornarem Cb’s, quando aunda são Cu’s). Os Cumulonimbus e os Cumulus são nuvens de desenvolvimento vertical e normalmente possuem bases mais altas que as nuvens baixas (Stratus – St), que formam os nevoeiros. A base das nuvens Cu ou Cb fica numa altura em torno de 1,5km-2,0km. Já os nevoeiros podem inclusive se formar bem perto da superfície, por isso é mais fácil alcançar nuvens St do que nuvens Cu ou Cb. A tecnologia dos catanieblas recolhe a água de nuvens de nevoeiro (St).

Nuvens em diferentes alturas. Adaptado de Ahrens, D. Meteorology Today.

Nuvens em diferentes alturas. Adaptado de Ahrens, D. Meteorology Today.

Para mais informações sobre tipos de nuvens, seus nomes e suas alturas típicas, veja esse post.

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Está tão seco na Califórnia que até as montanhas cresceram

Posted by on 26-ago-2014 in Blog, Calor, Geografia, Seca | 0 comments

Meu marido me mandou essa notícia do Gizmodo e eu fiquei impressionada! Que a água é ‘pesada’ todo mundo sabe. Que desce rapidamente em uma psicina mais funda já notou os efeitos da pressão da água nos ouvidos. Outro dia, numa dessas agradáveis “conversas de bar”, alguém comentou comigo sobre um prédio em que havia pequenas piscinas nas sacadas de cada um dos apartamentos. Infelizmente as piscinas não podiam ser utilizadas porque o peso da água não foi levado em consideração no projeto do prédio. [risos, sr. engenheiro]

Bom, o fato é que a água “pesa” e empurra o solo “para baixo”. Estou falando isso porque estações de GPS usadas para monitorar pequenos tremores pela Califórnia detectaram que as montanhas da Califórnia subiram cerca de 15mm nos últimos 18 meses!

Sem querer a gente acaba pensando que o solo abaixo dos nossos pés é rígido, mas não pe bem assim. O Professor de Geofísica Duncan Agnew explicou para a Popular Science que a Terra funciona como se fosse uma bola de borracha gigante: conforme a gente pressiona, ela cede um pouco. No caso, a água “empurra” a Terra. Como a água evaporou muito nos últimos meses lá na Califórnia (possivelmente é o ano mais seco dos últimos 100 anos), a pressão contra essa bola de borracha diminuiu. De acordo com um paper publicado essa semana na Science, há um déficit de 240 GT (gigatoneladas). Ou seja, são 240.000.000.000.000 kg de água que estão forçando “menos” a nossa querida bola de borracha.

Depois dessa explicação do Prof. Agnew, nunca mais verei uma bola-perereca (daquelas que a gente compra por R$0,50 nas máquinas) da mesma forma rs. Ótimo paralelo, muito boa explicação.

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Secas prolongadas nunca são uma boa notícia, mas há uma “pequena boa notícia” nisso tudo: pode ser que a região afetada fique menos sujeita a tremores. De acordo com o Professor Agnew, o peso menor vai mudar o esforço nas placas, mas a contribuição é relativamente pequena.

Fonte: Gizmodo

Imagem do ano passado e deste ano tiradas do mesmo reservatório na Califórnia mostram a extensão da seca Fonte: Gizmodo

Fonte: Gizmodo

A pergunta que faço é: será que com toda essa seca em São Paulo, o Pico do Jaraguá e outras pequenas montanhas na Região Metropolitana de São Paulo não aumentaram um pouquinho também? É bem possível…

Apesar da previsão de chuva para os próximos dias em São Paulo, não podemos dizer que já é o início da Estação Chuvosa. Essa deve dar as caras só no final de Setembro ou início de Outubro aqui em São Paulo-SP.

No momento, estamos vivendo um veranico aqui na Região Sudeste. E a melhor definição para este termo encontra-se no glossário do INPE:

Veranico: período maior do que cinco dias com ausência de chuva, baixa umidade relativa do ar e temperaturas máximas elevadas, ocorre durante o inverno devido ao predomínio de uma massa de ar seco.

Pode ocorrer no outono e na primavera também :).

 

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