"Meteorópole: meteorologia, ciências da terra, viagens, lifestyle, etc"

Seja bem-vindo!

Resenha de “Do Androids Dream of Eletric Sheep?”, de Philip K. Dick.

Posted by on 22-jul-2014 in Blog, Ficção Científica, Filmes, Livros | 0 comments

Antes de muitas das minhas resenhas, conto uma história. E esse é o caso.

Em meados dos anos 90 comecei a ter um contato maior com ficção científica. Lá na minha casa algumas séries já eram queridinhas quando eu era criança: Star Trek (TOS), Elo Perdido, Perdidos no Espaço…etc. Mas nos anos 90 meu gosto por ficção científica ficou ainda mais aprofundado. Eu chegava ao ponto de assistir apenas o USA Channel (tinha o tal do Sábado Sci-fi) no final dos anos 90. Nem existe mais esse canal, acho que foi substituído pelo canal Universal Studios (completamente por fora, já que não tenho TV a cabo).

Bom, no final dos anos 90 comecei a ler alguns livros de fantasia e ficção científica (há muitas situações em que esses gêneros se misturam) na biblioteca da minha escola. Quando comecei a estudar inglês, a escola de idiomas também contava com uma pequena biblioteca. Percebi que eu aprendia inglês mais facilmente se lesse livros de ficção científica (rsrs). E um dos livros que li nessa época foi Do Androids Dream of Eletric Sheep?, de Philip K. Dick (PKD). O livro me foi indicado por um colega mais velho, que me contou que foi o livro que inspirou Blade Runner. Por conta desse colega, assisti Blade Runner e li o livro :). Só que acho que o livro era uma versão reduzida para quem está aprendendo inglês. E só fui saber disso mais de 10 anos depois, quando ganhei uma versão em português do livro. Fui ler o livro novamente e fiquei encantada com a quantidade de detalhes que eu não tinha percebido antes (minha memória é muito boa para coisas que li). Então acho que:

a) O livro que li 10 anos antes era uma adaptação para quem está aprendendo inglês;

b) Depois de 10 anos, adquiri mais repertório e consigo notar detalhes da escrita que não percebia antes.

Acho que a a) pode estar correta. E a b) com certeza está correta.

A versão que ganhei de presente é essa:

37019846

[Adquira aqui na Livraria Cultura - rola uma comissãozinha pra mim ;)]

E o que essa versão tem de bom? No final do livro, há alguns extras bem bacanas, como por exemplo:

- uma carta de PKD, onde ele se mostra bem empolgado com a estréia de Blade Runner;

- A última entrevista de PKD, em que ele fala sobre as dificuldades que enfrentou na carreira de escritor. Fala também de sua indecisão com relação a Blade Runner. Ele tinha achado o primeiro roteiro ruim, achou que iria odiar o filme. Depois leu o segundo roteiro e ficou extramente empolgado.

- Um excelente texto de Ronaldo Bressane, fazendo uma análise muito interessante da obra.

Inclusive há um site, onde alguns desses extras estão disponíveis para leitura. E há também um áudio da entrevista que mencionei acima ;). Então se você já tem o livro e quer ver esses extras, acesse o site.

Sendo assim, se você nunca leu o livro e pretende comprar uma tradução bem feita e com extras bacanas no final, aconselho a edição que menciono. Ela pode ser adquirida na Livraria Cultura.

Agora minha resenha: bom, em primeiro lugar, acho que quase todo mundo da minha geração viu o filme primeiro e depois leu o livro. Raros os casos de que o contrário ocorreu. Hipsters dirão que leram o livro primeiro. Os mais hipsters dirão que o livro é ruim. Enfim, eis minha avaliação sincera: os dois se completam!

BladeRunner-Pôster

A adaptação de Ridley Scott é bastante diferente do livro. Quem lê o livro pensando em encontrar tudo igualzinho, vai se frustrar. Muitos aspectos do livro não foram deixados de lado no filme. Isso é absolutamente usual em qualquer tradução, já que tem coisas que funcionam no texto mas não funcionam nas telas (e vice-versa). No filme, o foco principal é Rick Deckard, o caçador de androides. Sua profissão é colocada em primeiro plano e ele é retratado nas telas como um justiceiro/policial, um simples caçador de recompensas.  Para não ficar confuso, tudo que vou discutir a partir de agora trata-se do livro e não do filme.

No livro, outros aspectos da sociedade em que Rick vive são discutidos. Após uma terrível guerra mundial (Guerra Mundial Terminus) que pelo que entendi aconteceu no final do século XX, de acordo com a cronologia do livro. Após essa guerra, uma nuvem radioativa tomou conta de todo o planeta. A maioria das pessoas migraram para Marte. Os que restaram, ficaram confinados em prédios de centros urbanos abandonados. Muitos dos que restaram foram afetados pela radiação e não podem reproduzir ou migrar. São os “cabeças de galinha”, que foram classificados assim porque a poluição fez com que seu QI ficasse reduzido (é o que dizem…).

Esse negócio da Guerra Mundial Terminus certamente tem relação com a época em que o livro foi escrito. PKD concluiu o livro no final da década de 60. Por muitos anos, durante a Guerra Fria, as pessoas temiam uma guerra mundial, em que as armas nucleares seriam as responsáveis por destruir o planeta inteiro. Seria uma ‘Terceira Guerra Mundial’, de proporções e alcance muito maiores que as outras guerras mundiais. Ela traria o apocalipse. Tanto que Do Android Dream of Eletric Sheep? não é um livro otimista, no sentido de considera um futuro feliz para a humanidade, uma utopia, como por exemplo é a ideia da franquia Star Trek. Romances do gênero de Do Android Dream of Eletric Sheep?  são chamados de distopias. A distopia é muito bem retratada na adaptação para o cinema, com um planeta totalmente decadente.

Sobre os tais ‘cabeça de galinha’: nem todos os que ficaram na Terra são cabeças de galinha. Muitos trabalham para manter a falida infraestrutura do planeta. Rick Deckard é um deles. Deckard é um caçador de recompensas da Polícia de São Francisco. Ele captura androides fujões. Esses androides foram inicialmente desenvolvidos para ajudar os humanos nas novas colônias extra-terrenas. No entanto, alguns tem o ímpeto de fugir para a Terra, onde não são bem vindos.

Deckard aplica um sofisticado teste de perguntas e respostas, que testa a reação do androide. Como a maneira de reagir e o tempo de reação dos androides para algumas perguntas é bem diferente do que se espera para um humano, o teste permite identificá-los. O teste é bem questionável, mas é a ferramenta que Deckard tem para desenvolver seu trabalho.

A história desenrola-se ao longo de um único dia na vída de Rick. Um dia em que são apresentados os anseios consumistas de Rick (ele quer um animal de estimação, um animal grande, um animal verdadeiro) e sua relação com o Mercerismo, um misto de filosofia e religião.

Sobre os animais de estimação: na história, eles representam status.  Como hoje: muita gente tem cães ‘de raça’ porque eles representam “algum status”. É como se:

Cães de raça = animais verdadeiros

Vira-latas = animais falsos.

E o que são os animais falsos ou animais elétricos? São cópias muito fiéis dos animais verdadeiros, orgânicos. O próprio Deckard tinha uma ovelha de estimação, uma ovelha verdadeira. A ovelha morreu e foi substituída por uma ovelha elétrica. Seria melhor se ele tivesse um animal verdadeiro, isso garantiria mais status. Seu vizinho tem uma égua verdadeira, que inclusive está prenha.  Em um mundo em que quase toda a vida foi destruída pela contaminação, qualquer forma de vida é valorizada. Animais grandes (como ovelhas ou éguas) são muito valorizados e são muito caros.

Deckard sonha com um animal de verdade. E daí vem o título do livro: Do Androids Dream of Eletric Sheep? (Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?). Bom, se humanos sonham com ovelhas de verdade, logo androides sonhariam com ovelhas elétricas.

Fazendo essa rápida sinopse, em primeiro momento pode parecer uma obra de ficção científica sem muita profundidade. Mas há muitos aspectos do livro que fazem o leitor refletir. Em um momento, Isidore, um “cabeça de galinha” começa a falar do Mercerismo. Ele é um praticante devoto dessa religião, um fanático religioso. Isidore começa a falar da bagulhificação. Que bagulho se reproduz, que os locais abandonados ficam cada vez mais entulhado de coisa. Que o bagulho só não “vence” em um local habitado, porque as pessoas limpam o local, removem o bagulho. Essa reflexão dele faz todo sentido, rsrs. Fiquei pensando naquelas histórias bem tristes de acumuladores.

A Terra, um planeta que foi parcialmente abandonado, está cheia de bagulho. Coisas que as pessoas que migraram deixaram para trás. Alguns androides ‘fora da lei’ saem das colônias onde devem permanecer e vem para a Terra. Como se eles fossem  “bagulhos”. E “bagulho chama bagulho”. Enfim, essa questão tem muitas interpretações. PKD deixou a questão bem aberta, para que o leitor pudesse tirar suas próprias conclusões.

Um dos tabus da sociedade de Deckard é o sexo entre humanos e androides. E isso também é discutido na obra. Além disso, muitos androides tem características humanas (como o talento da cantora Luba Luft), enquanto alguns humanos tem características androides (como um outro caçador de recompensas que cruza o caminho de Deckard, que é bastante frio e cruel). Deckard mostra esse conflito ao longo da trama, essa dúvida. Ele está questionando a definição de vida, questionando se está certo ao matar androides.

Nas 24h da vida de Deckard narradas no livro, ele precisa aposentar alguns androides. Cada um deles tem uma característica particular: um é cruel, a outra é talentosa, a outra está apenas assustada, etc. Isidore, o tal cabeça de galinha, eventualmente envolve-se nessa caçada. Uma curiosidade sobre Isidore: há momentos em que o narrador onisciente entra na mente dele. E então ficamos na dúvida: ele tem o QI baixo porque foi exposto a radiação ou porque foi isolado e é tratado como inferior?

E ainda sobre o Mercerismo: nessa crença, há todos os elementos de muitas religiões que conhecemos. Há a figura messiânica e o martírio. As pessoas comunicam-se com essa divindade a partir de caixas e empatia, gadget que permite sentir tudo aquilo que os outros sentem. Até as dores físicas de Mercer são sentidas.  A obra de PKD é recheada de elementos metafísicos. Outro exemplo: Minority Report. O filme foi baseado em um conto do mesmo escritor, abordando a premonição como arma para a prevenção de crimes.

Uma revelação, dada por um âncora da TV/rádio, faz a sociedade da época questionar o Mercerismo.  E Deckard tem uma experiência mística que faz com que ele questione seu trabalho.

Buster Gente Fina

Buster Gente Fina (ou talvez seja o João Kleber).

Para não correr o risco de revelar demais o enredo, paro por aqui. Recomendo muito este livro de PKD que tornou-se conhecido graças ao sucesso de Blade Runner. É uma das obras básicas para quem quer se aventurar pelo mundo da ficção científica.

Read More

Guestpost: Por que escolhi a Geografia?, por Sybylla

Posted by on 21-jul-2014 in Blog, Geografia, Guestpost, Profissão | 3 comments

SamanthaPedi para a Sybylla escrever um guestpost sobre sua jornada para a Geografia. A história dela certamente vai ajudar na escolha profissional de muitos leitores que vão prestar vestibular, como quando pedi ao Isaque que escrevesse um post contando porque ele escolheu meteorologia.

Além disso, sempre é bom ler histórias inspiradoras, que nos motivam a seguir em frente mesmo diante dos problemas e a trajetória da Sybylla tem essa característica. E como outro propósito, espero que esse texto inspire moças de todo o Brasil. Precisamos de mais mulheres cientistas. Sonho com o dia em que as meninas sejam livres, possam sonhar com qualquer carreira sem a desculpa de que “isso é coisa de menino”. 

No texto abaixo, a Sybylla conta como se interessou por Geografia e como venceu circunstâncias difíceis. 

ID-100204452

Por que escolhi a Geografia?

A Sam me convidou para este guest post e narrar minha aventura na Geografia. O mais engraçado é que eu escolhi este curso, justamente, por um fator geográfico!

Voltando no túnel do tempo, minha vida escolar foi bastante estável e num ótimo colégio até 1997. Minha mãe perdeu o emprego, tive que sair do colégio e fui para a suplência terminar o ensino médio. Como meus dois últimos anos do ensino médio foram muito ruins, eu nem pensei em prestar vestibular, pois sabia que não tinha condições de passar numa universidade pública e por isso adiei os planos de cursar o nível superior, o que me deixava muito pra baixo.

Quando foi em 2004, eu tinha sido mandada embora da loja em que trabalhava e minha mãe assistia TV quando viu um comercial da Universidade Cruzeiro do Sul, anunciando seus curso gratuitos da época: Economia, Geografia e História. E ela falou pra mim “Filha, presta. Tenho certeza que você passa”.

Fiz a inscrição numa lan house e meu alvo era o curso de História. Só que História, na época, ficava no campus de São Miguel Paulista, zona leste e muito longe da minha casa. Economia era no campus Liberdade, mas este curso eu não queria. Logo, peguei Geografia, porque ficava mais perto e tinha acesso mais fácil de ônibus e metrô.

Eu quase não consegui fazer a matrícula, pois mesmo sendo gratuito, eu tinha que pagar uma mensalidade para me matricular. Eu tinha só a metade, um amigo meu me deu o restante sem nem pestanejar. Foi uma época muito difícil, pois um pouco antes de começar a cursar, minha mãe e eu fomos despejadas de casa e fomos morar em uma casa abandonada, onde a vizinha emprestava luz por meio de uma extensão que passava pelo muro do quintal. O dinheiro da condução eu conseguia emprestado com amigos. Até minha carteirinha de estudante para pagar meia no ônibus foi um amigo que pagou.

No final de 2004 entrei como temporária de Natal na FNAC, onde trabalhei por 2 anos. O trabalho era muito puxado e eu quase larguei, se não fossem meus professores, que me impediram. No meio de 2005, fomos todos convocados a prestar o ENADE – já que éramos uma turma pequena de 27 alunos.

Quando o resultado saiu no ano seguinte, fomos o melhor curso de Geografia do país, desbancando universidades federais e estaduais no processo. Como prêmio para todos os estudantes que fizeram a prova, nós ganhamos o curso completo, com bacharelado, de graça. Inicialmente, somente a licenciatura era gratuita.

Eu já saí da Geografia empregada. Em 2008 eu ingressei na rede estadual de ensino de SP, enquanto ainda cursava o 4º ano de faculdade. Estudava de manhã e saía correndo da faculdade pra entrar na escola à tarde. Era muito cansativo e desgastante, mas eu não reclamava. Eu sabia que minha chance de mudar de vida era com aquele curso e com meu emprego e não me arrependo. Tive bons amigos que me ajudaram muito e, claro, minha mãe foi meu braço direito durante este tempo. Sempre do meu lado, me ajudando no que podia, me amparando em todos os momentos.

Lembro que, no começo, fiquei com muito medo de não gostar do curso. Acho que é um medo comum em todo mundo que entra em um curso, o de não gostar dele. Mas antes do final do primeiro ano, eu já sabia que estava no lugar certo. Me mantive nas geociências ao entrar no mestrado em paleontologia e estou muito feliz por ter escolhido o curso que era, geograficamente, mais acessível!

*****

Muito Obrigada, Sybylla. Ah sim, ela escreve no Momentum Saga, mas disso vocês todos já sabem :P. No blog, ela fala sobre ciência, ficção científica sob o ponto de vista feminista e outros assuntos relacionados. Ela faz ótimas resenhas de livros e filmes, discute clichês da ficção científica e faz um diálogo ótimo entre ciência e ficção científica. Precisa de mais razões para dizer que o blog dela é um de meus favoritos?

Read More

Dúvida do leitor: meteorologistas de antigamente

Posted by on 21-jul-2014 in Blog, Dúvida do Leitor, Estação Meteorológica, Profissão | 0 comments

ID-100122735

A Cecília mandou uma dúvida bem interessante:

Como esse profissional (meteorologista) trabalhava antigamente?

Bom, o termo antigamente abre margem para muitas interpretações. Há quanto tempo? Há 50 anos atrás? Há 100 anos atrás? Antes disso?

Acho que antes de mais nada é bom ler um post muito bom que o Vinícius escreveu, de tópicos da História da Meteorologia. Até a primeira metade do século XX, não havia radares e satélites sendo utilizados para fins científicos. O previsor do tempo trabalhava apenas com observações de superfície ou de altitude, com balões e aviões, mas de um modo bem geral o trabalho era feito através de observações em superfície mesmo.

As Estações Meteorológicas de Superfície eram mais do que fundamentais antes do satélite e do radar. Ainda hoje são muito importantes, já que as informações observadas auxiliam na calibração desses instrumentos mais novos. Há alguns meses escrevi um post falando que nada substituiu os pluviômetros (leia aqui).

E mesmo sem o uso dos instrumentos meteorológicas, a própria observação visual era importante. Observar os tipos e a quantidade de nuvens era uma tarefa rotineira. Ainda hoje muitas observações meteorológicas fazem isso. O tipo de nuvem pode indicar o tipo de tempo das próximas horas ou dos próximos dias.

Para saber se uma frente fria está se aproximando, por exemplo, além de observar o tipo de nuvem no céu também era importante ter contatos com outros observadores que estão localizados mais ao sul (como o caso aqui da América do Sul). Uma vez li que o Narciso Vernizzi  tinha contatos na Argentina, que conversavam com ele por telefone. Esses observadores passavam informações sobre as condições do tempo na Argentina. Ele sabia que se estava frio por lá, era provável que uma frente fria poderia chegar até a Região Sul e Sudeste nos dias seguintes.

A comunicação, claro, era de outra forma. Hoje estamos habituados a procurar informações na Internet. E grandes centros de meteorologia divulgam seus dados pela internet, facilitando o trabalho do previsor. Antes da Internet, o telefone e mais anteriormente ainda, o telégrafo, eram essenciais no escritório de um meteorologista. Cartas sinóticas eram feitas a partir de informações obtidas dessas maneiras.

Como em praticamente todas as profissões, a experiência do meteorologista também conta muito. Além da experiência, ajuda muito se o meteorologista que trabalha com previsão tiver familiaridade com aquela região. Pessoas que trabalham no campo, por exemplo, sabem que quando o vento vem de um determinado local o tempo está para mudar. Meteorologistas que moram no mesmo local há muito tempo e observam o céu com frequência também usufruem dessa experiência em seu trabalho.

Acredito que de forma geral é isso. Se alguém tiver alguma dúvida específica sobre o assunto (ou sobre qualquer tema relacionado à meteorologia), basta mandar através do formulário da página.

 

 

Read More

Dúvida do leitor: Lisboa x Nova York

Posted by on 18-jul-2014 in Blog, Clima, Dúvida do Leitor, Vento | 1 comment

A Eliana Macedo me mandou um e-mail com uma dúvida bem interessante:

Lisboa tem as mesmas temperaturas que Nova York? Porque tem tanto vento em Lisboa?

Esse negócio de comparar Lisboa e Nova York é um negócio que faço muito com os alunos que atendo, que faço muito nas conversas de bar (sempre falo de ciência nas conversas do buteco, é conciliador, nunca fale em religião, política ou futebol rs) e que faço muito nos textos que escrevo. Acho que ouvi um professor falar isso durante a graduação e agora fico repetindo como louca. Mas o motivo é muito simples: as duas cidades estão quase que  na mesma latitude e são ambas cidades litorâneas.

Ano passado escrevi esse post, por exemplo, onde uso o exemplo das duas cidades. No post em questão, apresentei a seguinte figura:

Untitled 2

Figura 1: Mapa mundi que indica as correntes marítimas e os climas. Fonte: GROASIS

Usei o mapa para destacar principalmente a Corrente do Golfo,  uma corrente quente que leva águas mais quentes do Golfo do México para a costa da Península Ibérica  e para a costa atlântica da Europa. E também destaquei o clima de Nova York e o clima de Lisboa. Nova York possui o clima indicado como “Marine” (marinho), enquanto Lisboa é o que chamam de “Clima Mediterrâneo”. Eu pessoalmente não conheço muito essas classificações. Não sei qual o sistema de classificação de climas é usado no mapa acima. Acreditem, nós da Meteorologia vemos isso bem pouco. Os colegas da geografia tem mais contato com esse tipo de classificação. Resgatando aqui na minha memória de uns 10 anos, sei que prendemos o Sistema de Köppen (ou Köppen-Geiger) no curso.

Estas classificações não são vistas tão aprofundadamente no curso de Meteorologia  porque nosso curso é mais quantitativo que o curso de Geografia (de um modo geral, claro que cada disciplina de sua particularidade): aprendemos a calcular, observar, prever, etc.

E falando na mencionada classificação de Köppen-Geiger, temos abaixo um mapa feito pela Universidade de Melbourne:

1024px-World_Koppen_Map

Figura 2: Climas mundiais de acordo com a classificação Köppen-Geiger. Fonte: Universidade de Melbourne e Wikimedia Commons

Obtive o mapa nesse verbete da Wikipedia, sobre o sistema de classificação climática mencionado.  Esse mapa está mais claro que o outro mencionado anteriormente, talvez porque esteja com uma resolução melhor e possua apenas as informações relacionadas ao tipo de clima.

Pelo sistema Köppen-Geiger, a cidade de Nova York é Dfa e a cidade de Lisboa é Csa. O que essas siglas significam?

A sigla Dfa é um dos Climas Continentais Úmidos (Dfa, Dfb, Dfc e Dfd fazem parte desse grupo de Continental Úmido).  E Csa é referente a Climas Mediterrâneos (Csa e Csb são climas mediterrâneos, mesmo que não tratem-se de cidades localizadas em torno do Mar Mediterrâneo, mas possuem climas que se assemelham ao encontrado nesse local).

Como disse anteriormente, não tenho familiaridade com esse tipo de classificação. Para falar um pouco mais sobre as temperaturas, vou construir gráficos de temperatura e precipitação para cada uma das cidades e assim poderemos discuti-los.

Primeiro vamos comparar os dados de chuva.  Separei as médias de precipitação mensal das duas cidades.

Figura 3:

Figura 3: Médias mensais de precipitação para a cidade de Nova York. Fonte: NOAA (precipitações normais e temperaturas (1981-2010).

Figura 4:

Figura 4: Médias mensais de precipitação para a cidade de Lisboa. Fonte: Instituto de Meteorologia e Hong Kong Observatory.

Para os dados de Nova York,  a fonte é: NOAA (precipitações normais e temperaturas (1981-2010).

E para os dados de Lisboa, as fontes são: Instituto de Meteorologia e Hong Kong Observatory.

Observando o gráfico de chuva de Nova York (Figura 3), nota-se que não há uma estação chuvosa definida. Chove um pouco menos no mês de fevereiro, final do inverno, mas nada significativo se a gente comparar com os outros meses do ano.

No entanto, se notarmos o gráfico de chuva de Lisboa (Figura 4), é possível notar uma estação seca/chuvosa definida. A estação seca ocorre durante os meses de verão. O clima de Lisboa é aquele que os turistas mais gostam: verão sem chuvas, ideal para atividades ao ar livre e ir à praia.

Observe que os dois gráficos estão com a mesma escala. Isso é importante quando a gente pretende comparar dois gráficos. Ah sim, o período das médias e a metodologia de cálculo é diferente para cada um dos casos. O ideal seria que nos dois casos fossem médias do mesmo período (por exemplo, de 1960-1990), com dados de pelo menos 30 anos (já que estamos falando em médias climatológicas). Mas tudo bem, para a comparação meramente expositiva que quero fazer no post está bom :). Para um trabalho científico rigoroso (uma publicação, por exemplo), eu teria que tomar muito cuidado com essas questões.

No WeatherSpark encontrei dois mapas bem interessantes, falando da distribuição média do tipo de precipitação:

types_of_precipitation_throughout_the_year_percent_pct_NY

Figura 5 : Distribuição do tipo de precipitação para Nova York. Fonte: WeatherSpark, usando dados do Aeroporto JFK

Figura

Figura 6: Distribuição do tipo de precipitação para Lisboa. Fonte: WeatherSpark

Percebam que nenhum tipo de precipitação relacionada a neve aparece na Figura 6, que é referente a Lisboa. Em Nova York, 17% das precipitações envolvem neve (pouca ou muita neve), conforme vemos na Figura 5.

Agora vamos observar os dados de temperatura.

temp_ny

Figura 7: Temperatura máxima, mínima, média máxima e média mínima para a cidade de Nova York. Fonte: NOAA (precipitações normais e temperaturas (1981-2010).

Figura 5: Temperatura máxima, mínima, média máxima e média mínima para a cidade de Lisboa. Fonte: Instituto de Meteorologia e Hong Kong Observatory.

Figura 8: Temperatura máxima, mínima, média máxima e média mínima para a cidade de Lisboa. Fonte: Instituto de Meteorologia e Hong Kong Observatory.

 

Observe que nas Figuras 7 e 8 apresento 4 linhas em cada um dos gráficos:

- Temperatura Máxima Registrada: recordes absolutos de temperatura máxima em um determinado intervalo de tempo (no caso da NOAA, é no período de 1981-2010).

- Temperatura Máxima Média: média de todas as temperaturas máximas diárias em um período

- Temperatura Mínima Registrada: recordes absolutos de temperatura mínima  em um determinado intervalo de tempo (no caso da NOAA, é no período de 1981-2010).

- Temperatura Mínima Média: média de todas as temperaturas mínimas diárias em um período

Essa quantidade de informações, que pode parecer grande inicialmente, mostra até onde os extremos de temperatura já chegaram (Temperatura Máxima Registrada e Temperatura Mínima Registrada) e até onde costumam chegar (Temperatura Máxima Média e Temperatura Mínima Média).

As fontes dessas informações são dos mesmos locais das de precipitação. Os dados de temperatura das duas cidades são muito interessantes de se comparar. Observe que para facilitar, os dois gráficos estão na mesma escala.

Uma coisa que é fato: quando as temperaturas médias (ou média máxima, média mínima,  máxima ou mínima) mensais  formarem um “sino”, mais bem marcada são as estações do ano em termos de temperatura (a velha divisão primavera, verão, outono, inverno). Observe que as linhas dos gráficos para Nova York (Figura 7)  formam um sino mais bonitinho.

E observe também os extremos mínimos  de Nova York e Lisboa. Reparou que em Nova York (Figura 7) é mais frio que Lisboa (Figura 8)? Em NY, é mais comum o registro de temperaturas abaixo de zero durante o inverno. E a ocorrência de nevascas também é muito mais comum. Na verdade, neve é um acontecimento bem raro em Lisboa. Já perguntei sobre isso para vários portugueses e também vi aqui.

Com relação as temperaturas máximas durante o verão, fica muito claro que as duas cidades são bem quentes, com máximas que chegam na casa dos 40°C.

O que quero mostrar é que a variação anual de temperatura em Lisboa é menor do que em Nova York, e em Lisboa também faz menos frio no inverno. Por isso é popular dizer que o clima em Lisboa é mais ameno.

As duas cidades estão aproximadamente no nível do mar, estão relativamente próximas do oceano e estão na mesma latitude. O que explica essa variação toda? É a Corrente do Golfo. Ela leva calor da região tropical em direção ao litoral português. Se a gente pegar um gráfico de temperatura média da superfície do mar:

Figura 7: Temperatura média da superfície do mar, considerando o ano todo. Fonte: GISS-NASA

Figura 9: Temperatura média da superfície do mar, considerando o ano todo. Fonte: GISS-NASA

A Figura 7 foi obtida no site do GISS-Nasa (veja aqui). No link há diversas informações sobre as características dos oceanos. Veja que a Figura 9 mostra uma média anual. Se considerássemos médias mensais de temperatura da superfície do mar, teríamos variações sazonais normais.

Vamos ver que em média a temperatura da costa portuguesa é maior, em média, que a temperatura da costa nova-iorquina (Figura 9 ). O oceano é um importante motor do clima: ele redistribui o calor ao longo do globo e influencia os climas em cada uma das regiões. O caso das duas cidades que discutimos nesse post, ilustra isso muito bem.

Com relação aos ventos que a Eliana observou, bom, já digo que registrar o vento é a maior complicação. O vento em si já e uma variável complicada, é um vetor, e as operações de soma, média, etc  são bem diferentes.

O vento sofre influências locais muito fortes. Nova York tem muitos prédios, prédios muito altos, o que altera a percepção que temos do vento. Os prédios podem funcionar como “canalizadores” de vento ou como barreiras.

Os anemômetros normalmente são instalados em pontos elevados. Como exemplo, o anemômetro da Estação Meteorológica do IAG-USP está instalado a 10m de altura. Se quisermos saber o vento próximo a superfície, digamos, 2m de altura, há equações que fazem essa aproximação, já que a intensidade do vento é reduzida logaritmicamente da altura de 10m até 2m (na equação, é levado em conta também a rugosidade do solo).

O vento a 2m de altura é mais próximo daquilo que uma pessoa sente. Ok, eu não tenho nem 1,60m de altura, mas vamos dizer 2m rs.

Fui pesquisar essa questão do vento. Antes da gente falar da questão local, separei um mapa que mostra a direção e a intensidade média anual do vento em todo o globo:

Figura 8 : vento médio global para o mês de Janeiro. Fonte: NCEP/NOAA

Figura 10 : vento médio global em em 1000hPa para o mês de Janeiro. Fonte: NCEP/NOAA

Figura 9:

Figura 11: vento médio global em 1000hPa  para o mês de Janeiro. Fonte: NCEP/NOAA

 

Sobre os gráficos de vento: tratam-se das Reanálises do NCEP. O site pode ser um pouco complicado de navegar, sobretudo para quem tem pressa e precisa de uma informação rápida. Para quem tem interesse em ver mais mapas de médias globais ou regionais, recomendo o site Climate-Charts.

As Figuras 10 e 11 mostram apenas o vento global, em dois meses do ano (Janeiro e Julho, pois são bem distintos, estações do ano totalmente opostas). Como disse anteriormente, o vento tem muita influência local: construções, vegetação, topografia, orientação da costa, etc. O que gosto de mostrar no vento global (e por essa razão postei aqui) é que há alguma correspondência com as correntes marítimas (veja a Figura 1).

Outra questão a se levar em consideração é a época do ano. Fui pesquisar e descobri que em NY os ventos são mais intensos no início da primavera (Figura 12), enquanto em Lisboa os ventos são mais intensos no verão (Figura 13). E se a gente levar em consideração o valor máximo, o vento é mais intenso em NY!

Figura 12:

Figura 12: Velocidade média do vento em mph (milhas por hora) para a cidade de Nova York. 1mph = 1,61 km/h (aproximadamente). Fonte: WeatherSpark

Figura 13:

Figura 13: Velocidade média do vento em mph (milhas por hora) para a cidade de Lisboa. 1mph = 1,61 km/h (aproximadamente). Fonte: WeatherSpark

Bom, os dados foram obtidos do WeatherSpark. Como eu disse, vento é uma grandeza que sofre a influência local. Estou supondo que os anemômetros responsáveis pelas médias das Figuras 12 e 13 estavam bem instalados, distantes de grandes obstáculos (árvores ou prédios). Sendo assim, se uma pessoa visitou Nova York e Lisboa em julho, ela terá notado que venta mais em Lisboa, mas essa observação não é totalmente correta, já que a intensidade do vento depende da época do ano.

Eu aproveitei a dúvida da Eliana para fazer um post mais completo. Espero que vocês tenham gostado. Eu tenho recebido muitas perguntas pelo formulário. E se algum leitor tiver alguma, pode mandar =). Vou tentar responder ou procurar saber se alguém pode me ajudar.

Read More

Dúvida do leitor: significado de Meteorologia

Posted by on 16-jul-2014 in Blog, Dúvida do Leitor | 0 comments

A Jullia me mandou uma mensagem pelo formulário da página:

Qual o significado de Meteorologia?

E eu achei que tinha escrito um post sobre isso e ia mandar o link para ela. Mas fiz uma busca e reparei que nunca escrevi um texto exatamente sobre o assunto. Já mencionei aqui, quando falo sobre quando escrevem errado (você já deve ter lido ou ouvido a ‘palavra’ METEREOLOGIA ou METERIOLOGIA).

Meteorologia significa estudo dos meteoros. A palavra “meteorologia” vem do grego μετέωρος metéōros “elevado; alto (no céu)” (de μετα- meta- “acima” e ἀείρω aeiro “eu levanto”) e -λογία -logia “estudo, palavra”.

Agora precisamos entender a definição da palavra meteoro. Quando falamos sobre a notícia de um “meteoro” que caiu na Rússia, escrevi a definição. Compensa repeti-la para deixar bem claro:

Na verdade, a palavra meteoro significa qualquer fenômeno que ocorra na atmosfera terrestre. Uma nuvem, um raio, um rastro luminoso deixado por um meteorito… todos são meteoros! E os meteorologistas estudam esses fenômenos que acontecem na atmosfera da Terra. Estudam porque e como eles se formam, para poder estudar o tempo e o clima do passado, do presente e do futuro (através de observações meteorológicas sistemáticas e previsão do tempo e do clima).

A confusão vem do fato que muitos associam meteoro a uma “rocha que cai do céu” ou a popular “estrela cadente”. Ano passado encontrei uma imagem bem legal mas não a traduzi. Então vamos a cada um dos termos:

Cometa: Um pedação de gelo e rocha que vem de fora do Sistema Solar, normalmente acompanhado por uma cauda.

Asteroide: Um pedação de rocha (podem ser bem grandes mesmo, facilmente maiores que um estádio de futebol) que normalmente orbita entre Marte e Júpiter, onde há um Cinturão de Asteroides (há conjecturas de que esse cinturão de asteroides são os fragmentos de um planeta que existiu entre Marte e Júpiter). Asteroides as vezes podem passar bem pertinho da Terra. Esses asteroides que passam pertinho da Terra são monitorados e estudados. Há uma página da NASA com as descrições desses danadinhos que chegam perto da nossa casa.

Meteoroide: Uma rocha espacial que é menor que um asteroide. Pode ser inclusive o fragmento de um asteroide. Se essa rocha atingir a Terra, temos então um meteorito.

Meteoro:  Nome dado a qualquer fenômeno que ocorre na atmosfera da Terra, mas também é o nome dado a luz que podemos ver quando um meteoroide entra na atmosfera da Terra e começa a queimar. Essa luz é resultado do atrito entre o meteoroide e os gases presentes na atmosfera da Terra. Um outro nome dado a esse fenômeno é estrela cadente, como já disse acima.

Meteorito: Um meteoroide, quando entra na atmosfera da Terra, normalmente é totalmente queimado e não oferece risco. Inclusive apresentei para vocês uma interessante experiência, em que é possível coletar a poeira do meteoroide (veja aqui). Essa poeirinha inofensiva é também chamada de micrometeorito. Mas há casos em que o meteorito tem um tamanho maior que o de uma simples poeira, como o caso da Rússia, no ano passado. Nesse verbete, há exemplos de alguns desses meteoritos “grandinhos” . Inclusive eles podem atingir pessoas e até representar algum risco de vida, mas o risco é bem pequeno e até hoje não há um caso confirmado de alguém que foi atingido e morreu. Em junho de 2009 um jovem alemão de 14 anos foi atingido por um meteorito do tamanho de uma ervilha, na cidade de Essen, que caiu na Terra a mais de 40 mil quilômetros por hora. Ele teve a mão ferida, mas sobreviveu (e vai ter história para contar pro resto da vida).

meteoro_asteroide

Essas explicações foram necessárias para que se compreenda o significado da palavra meteorologia. E sobre mais detalhes do que a Meteorologia estuda, bom, há diversos posts aqui no Meteorópole, só como exemplo =).

Nota sobre a imagem acima:O artista responsável por esta belezinha gráfica e didática é Tim Lillis e você pode ver mais trabalhos dele em seu Flickre em seu site. Eu tinha publicado essa imagem nessa postagem, em que falo sobre meteoroides que caíram na Rússia.

Ah sim, e também há dois FAQ’s muito úteis para quem está pesquisando sobre a Meteorologia:

- O que é Meteorologia?

- O que faz um meteorologista?

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger... Read More