Todo ano, a gente ouve falar que “choveu acima da média” ou “choveu abaixo da média. Como essa medida é feita?

Esse post foi escrito originalmente em um antigo blog meu, que já está desativado. Agora, chovendo quase que diariamente na maior parte do país, achei que valia a pena reescrevê-lo. 🙂

Ah, este post responde a dúvida de uma querida colega que conheci pelo Twitter, a Fernanda (@ferabreu). Se você tiver dúvidas, pode fazer sua pergunta no menu acima.

O twitter do site é: @meteoropole. 🙂

 

Recebi uma pergunta via twitter. Esta aqui:


Na verdade eu li uma dúvida semelhante no twitter do meu trabalho. Como vi que duas pessoas tem uma dúvida parecida, provavelmente outras devem ter e achei a hashtag da @ferabreu bem convidativa. Em primeiro lugar, vamos entender como é medida a quantidade de chuva.
Na maior parte das Estações Meteorológicas, há um instrumento bem simples e eficaz chamado pluviômetro. O Pluviômetro mede a quantidade de chuva. É um recipiente padronizado que armazena a chuva. Sim, uma garrafa com um funil, só que um pouco mais sofisticado.

{x} Ele é esse instrumento em primeiro plano: comprido e com uma abertura mais larga no topo.

A água coletada pelo pluviômetro fica armazenada. O instrumento possui uma torneirinha, e com uma proveta graduada é possível fazer a leitura da quantidade de chuva (dada em mm). Toda Estação Meteorológica possui padronizações e rotinas, repetidas diariamente. Onde eu trabalho, por exemplo, efetuamos a coleta dessa água 3x por dia, em horários distintos (pela manhã, pela tarde e de noite). Sim, mesmo que não haja chuva, um técnico vai até o instrumento, abre a torneirinha e anota isso no relatório. Tudo padronizado, tudo repetido diariamente.

Pluviômetro com o detalhe da torneirinha na base (à esquerda), que não foi possível ver na primeira foto. À direita, a proveta graduada para coletar a água de chuva e medir a quantidade. {x}

Assim, ao final de um dia, após todas as coletas de chuva, somamos o total. Desse modo, temos o total de chuvas naquele dia. E repetindo o procedimento diariamente, temos o total de um determinado mês, de um determinado ano…

Repetindo essas medições ao longo de vários anos, passamos a compreender o regime de precipitações do ponto onde o pluviômetro está instalando. Constatamos que um ano sempre é diferente do outro no tocante a quantidades de chuvas (dificilmente choveria a mesma quantidade de chuva num determinado dia ou num determinado mês). Apesar dessas diferenças, notamos padrões. Aqui em São Paulo, podemos ver que chove bastante nos meses de Dezembro a Março, enquanto os meses de Junho a Setembro são bastante secos, por exemplo. Essa conclusão foi obtida com a observação sistemática da natureza, repetindo todos os dias os procedimentos que descrevi.

Agora vamos pensar em todo esse processo a longo prazo. Vamos imaginar um local em que o pluviômetro esteja instalado desde o ano de 1933. Mas ele não quebra? Sim, mas os técnicos ao longo dos anos foram constatando as avarias: peças foram substituídas e outros pluviômetros foram instalados por precaução.

Com informações desde 1933, conseguimos traçar uma média. Já sabemos em média, o quanto chove em cada um dos meses do ano. Para saber isso, basta somar a quantidade de chuva de todos os meses de Janeiro (por exemplo) e dividir pela quantidade de anos (77 anos, no caso). Com esse cálculo simples, conseguimos saber a média para todos os meses do ano e para todo o ano.

No mês de janeiro/2010, uma determinada Estação Meteorológica (a EM-IAG-USP) mediu 653,2mm de chuva. Fazendo a média de janeiro/1933 até janeiro/2009, chego ao valor de 222,3mm. Assim, o mês de janeiro/2010 teve chuvas bastante acima da média, foi um mês muito chuvoso (e bota chuvoso nisso, pois choveu quase o triplo da média).

Agora vamos avaliar o mês de janeiro/2011, recém terminado. Nesse mês, choveu 463,3mm de chuva. A média dessa vez é calculada de janeiro/1933 até janeiro/2010 (ou seja, aquele valor monstruoso de 653,2mm vai entrar na média dessa vez): 222,4mm. Perceberam que a média subiu apenas 0,1mm? Apesar do enorme valor acrescentado na média, ele foi naturalmente diluido ao calcular a média.

Para vocês terem uma idéia, em 1960, a média para o mês de janeiro na mesma estação meteorológica era de 198,5mm. A média aumentou mais de 20mm, se compararmos aos atuais 222,4mm. Isso nos leva a conclusão intuitiva de que nos últimos anos tem chovido mais no local onde está instalada essa estação meteorológica. O que pode ter ocasionado isso?

Certamente, o crescimento da cidade é uma das explicações. A cidade de São Paulo (onde essa estação meteorológica está localizada) cresceu muito desde 1933. É muito asfalto e concreto, formando a chamada ilha de calor urbana. Há hipóteses seriamente estudadas por pesquisadores em universidades que a ilha de calor pode ter alterado a quantidade e a distribuição espacial das chuvas na cidade de São Paulo, e estas são as hipóteses mais aceitas e divulgadas na comunidade cientifica atualmente. Vejam, estou falando em mudanças climáticas locais. 🙂

P.S.: Sinto que estou devendo um texto falando sobre aquecimento global/mudanças climáticas. É que estou terminando de ler um livro que aborda o assunto (Gaia: Alerta Final, de James Lovelock). Ele vai me ajudar a escrever um post mais interessante sobre o tema :).

P.S.: Não @ferabreu, sua pergunta não foi idiota! Aprendi com o Beakman que não existe pergunta idiota. Todas as perguntas devem ser feitas e a gente tem que aprender sempre e sempre.