El Niño e La Niña: um pouco sobre estes fenômenos

Ultimamente muito se tem falado sobre o fenômeno La Niña. Recebi um email da Jaqueline (a talentosa ilustradora responsável pelo visual da Meteoropole), sugerindo um post sobre o assunto. No e-mail, a Jaqueline fazia uma pergunta sobre a La Niña e sugeria uma excelente idéia para o post!

Porém na minha opinião, para entender a La Niña, precisamos entender o El Niño. E esse não vai ser um assunto para apenas um post. Falaremos mais e mais sobre La Niña e El Niño.

El Niño é um fenômeno que não tem uma ocorrência cíclica muito bem definida. Quero dizer, ele pode ocorrer a cada 2 anos. Ou a cada 3 anos. Normalmente esse valor varia de 2 a 6 anos. Durante o El Niño, as distribuição das temperaturas de superfície nas águas do Oceano Pacífico ficam diferentes do valor médio normal, o que causa profundos efeitos no clima.

Mas, qual seria a distribuição normal de temperatura no Oceano Pacífico?

 

Figura 1: condições normais, sem El Niño. Fonte: UEMA/NOAA.

Em condições normais, o Oceano Pacífico próximo a costa da América do Sul possui águas superficiais frias. Já próximo a costa da Indonésia e da Oceania, o Oceano Pacífico possui águas superficiais mais quentes. O que acaba acontecendo? Nessa região, próxima a Indonésia, as águas mais quentes favorecem a convecção (formação de nuvens) sobre essa região. E as águas mais frias próximas a costa da América do Sul inibem a formação de nuvens sobre esta região. Os alísios (ventos que sopram de leste para oeste nas proximidades do Equador da Terra), sopram normalmente.

As águas mais frias na costa da América do Sul são ricas em nutrientes, fazendo com que a vida marinha seja riquíssima. Países como Peru e Chile possuem uma indústria pesqueira bastante importante, consequência dessa característica normal desta região.

Figura 2: Condições de El Niño.Fonte: UEMA/NOAA.

Em condições de El Niño, os ventos alísios ficam mais fracos ou mudam de direção (passam a soprar de oeste para leste). Com esta mudança, as águas do Oceano Pacífico na costa do Peru ficam menos frias e as águas do Oceano Pacífico na costa da Indonésia e da Oceania ficam menos quentes. Sendo assim, a convecção na costa da Indonésia e Oceania fica prejudicada, fazendo com que chova muito menos nessa região. Em períodos de El Niño, a Austrália sofre com secas intensas, trazendo enormes prejuízos para a economia deste país. A pesca no Peru também fica muito prejudicada, já que as águas mais frias possuem mais nutrientes. Como uma boa quantidade dos peixes pescados no Peru são usados na produção de ração para gado bovino e essa ração é exportada para diversos países, a economia desses países também é prejudicada. Sendo assim,é um efeito em cadeia para a economia do mundo.

Com menos peixes nas águas do litoral do Peru e do Chile, outros animais que alimentam-se destes peixes também são prejudicados. Leões marinhos e baleias são exemplos de animais que visitam regularmente a costa desses países em busca de comida.

Figura 3: animais buscam alimento e descansam na costa do Chile. Foto: Silvio Martins

E não é apenas a economia que sofre. O clima também apresenta modificações. Como já foi dito, ocorrem secas mais intensas na Austrália.Comparando as figuras 1 e 2, verifica-se que a área de ocorrência de convecção modifica-se: as chuvas deslocam-se, ficando escassas na costa da Oceania e da Indonésia e mais abudantes nas proximidades da costa do Peru e do Chile. No Peru, além do dano econômico pela falta de peixes, ocorrem enchentes devido ao aumento das chuvas, aumentando ainda mais os prejuízos.

O El Niño é um fenômeno que perdura por alguns meses. Assim, as alterações dele são sentidas ao longo de vários meses. Por isso, costuma-se falar em anos de El Niño. Na literatura, quando essa expressão é utlizada, refere-se a um determinado ano que sofreu a influência deste fenômeno. El Niño mais intenso que se tem notícia, ou seja, com mais consequências, ocorreu entre os anos de 1997 e 1998.

No Brasil, o El Niño pode trazer consquências ao longo de todo o ano em que ele ocorre. Nos meses de junho, julho e agosto, durante anos de El Niño, verifica-se:

– Menos chuvas e mais calor no extremo norte da Região Norte do Brasil;

– Mais chuvas na região Sul do Brasil

– Maiores temperaturas na Região Sudeste, Centro-Oeste e boa parte da Região Nordeste;

E nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, durante anos de El Niño, verifica-se:

– Chuvas mais intensificadas na Região Sul do Brasil;

– Maiores temperaturas na Região Sudeste, Centro-Oeste e boa parte da Região Nordeste;

– Seca intensificada na Região Nordeste do Brasil.

O nome El Niño apareceu pela primeira vez por volta do século XIX. Os pescadores peruanos notaram que em alguns anos, nos meses de novembro e dezembro, a quantidade de peixes pescados diminuia drasticamente. Como em dezembro comemora-se o Natal, atribuia-se essa redução na quantidade de peixes ao menino Jesus. Por isso o nome El Niño, que quer dizer ‘o menino’, em espanhol.

Até agora falei do El Niño… mas, e a La Niña? A La Niña ocorre quando as condições normais (veja a figura 1) ficam intensificadas (veja figura 4). Ocorre então que as águas do Oceano Pacífico na costa na América do Sul ficam mais frias que o normal e as águas na costa da Indonésia e da Oceania ficam mais quentes que o normal.  Durante anos de La Niña, ocorrem chuvas muito intensas na Austrália e na Indonésia, com muitos registros de enchentes nestas regiões.

Figura 4: Condições de La Niña.Fonte: UEMA/NOAA.

No Brasil, a La Niña acaba menos danos que o El Niño. O que normalmente mais se nota em anos de La Niña, é o aumento na quantidade de chuvas sobre a Região Nordeste, principalmente sertão e o litoral baiano e alagoano. O aumento das chuvas no semi-árido é bem vindo, mas pode causar muitos prejuízos a agricultura,além de enchentes com danos materiais e pessoais. A La Niña não é responsável pelo aumento de temperatura na Região Sudeste (como o El Niño). Em anos de La Ninã, a temperatura fica bem próxima da média.

Espero que tenham aprendido um pouco mais sobre El Niño e La Niña. Para saber um pouco mais sobre o assunto, visite os links e livros recomendados abaixo. Em caso de dúvidas, perguntem nos comentários. Um ótimo fim de semana para todos.

Bibliografia:

El Ninõ e La Niña, no site do Laboratório de Meteorologia da UEMA.

El Niño, Southern Oscilation. Wikipedia, the Free Encyclopedia.

Lutgens, F.K e Tarbuck, E.J:  The Atmosphere: An Introduction to Meteorology

Children’s Weather Encyclopedia, Louise Spilsbury. Parragon