Religião x Meteorologia: Pastor atribui a pecado falta de chuva no sul do país

Quando escrevi esse post, falei um pouco sobre o método científico e expliquei algo que julgo muito importante: ciência é uma coisa, crença é outra.  Em ciência, qualquer pessoa pode questionar os resultados, refazer os experimentos, propor novas técnicas e novas maneiras de observar e resolver um mesmo problema. Nas crenças, existem os dogmas: não há como provar, deve-se apenas crer. Volto a falar sobre esse assunto depois que li essa notícia em um portal religioso. Um pastor chamado Joel Engel, de Porto Alegre-RS,  afirmou que os pecados da população são a causa da falta de chuva em algumas cidades do Rio Grande do Sul. Agora imagine as pessoas com pouco grau de instrução formal ou desesperadas para acreditar em algo, fragilizadas pela fé. Essas pessoas acreditam cegamente no pastor e certamente sentem-se culpadas, pensando no que teriam feito errado para merecer a falta de chuva. Muitas cidades dependem da chuva para que os cultivos agrícolas se desenvolvam adequadamente. Fico pensando como pessoas muito simples e com boas intenções podem sentir-se culpadas e isso me decepciona. Eu realmente acredito que se existissem boas escolas, incentivo a leitura, centros culturais e esportivos e bibliotecas para todos, o pensamento do Pastor Joel Engel não ganharia destaque ou crédito. Sobre este assunto, lembro muito de um trecho de Dragões do Eden, de Carl Sagan. No Capítulo IX, Sagan escreve:

No último capítulo de A Escalada do Homem, (Jacob) Bronowski confessou-se entristecido “por me ver subitamente cercado, no Ocidente, por um sentimento de terrível perda de vigor, um distanciamento do conhecimento”. Na minha opinião, ele se referia parcialmente á muito limitada compreensão e apreciação da ciência e da tecnologia – que moldaram nossas vidas e nossas civilizações – nas comunidades públicas e políticas, mas também â crescente popularidade de diversas formas de ciência marginal, popular ou pseudociência, misticismo e magia. Observamos hoje no Ocidente (mas não no Oriente) o ressurgimento do interesse por doutrinas vagas, anedóticas e muitas vezes experimentalmente errôneas que, se verdadeiras, anunciariam pelo menos um universo mais interessante, mas também que, se falsas, implicam um descuido intelectual, uma ausência do espírito de luta e um desvio de energias não muito promissor para nossa sobrevivência. Entre essas doutrinas acham-se a astrologia (a opinião de que as estrelas a centenas de trilhões de quilômetros, que estavam subindo no momento em que eu nascia em um edifício fechado, influenciam profundamente meu destino), o “mistério” do Triângulo das Bermudas (que comporta muitas versões de que um objeto voador não-identificado atua nas imediações das ilhas Bermudas e faz desaparecer navios e aviões), os relatos a respeito de discos voadores em geral, a crença em astronautas vindos à Terra no passado, a fotografia de fantasmas, a piramidologia (inclusive a opinião de que minha lâmina de barbear fica mais afiada dentro de urna pirâmide de cartolina do que dentro de um cubo do mesmo material), a cientologia, auras e fotografias Kirlian, a vida emocional e as preferencias musicais dos gerânios,a cirurgia psíquica, a terra plana e oca,a profecia moderna,o entortamento de talheres a distância, as projeções astrais, o catastrofismo velikovswiano, a Atlântida e o Mu, o espiritualismo, e a doutrina da criação especial da natureza por Deus ou por deuses, apesar de nossa pio funda correlação, tanto do ponto de vista bioquímico quanto da fisiologia cerebral, com os outros animais.Pode ser que haja uma ponta de verdade em algumas dessas doutrinas, mas sua aceitação disseminada demonstra uma falta de rigor intelectual, uma ausência de ceticismo, uma necessidade de substituir as experiências pelos desejos.

Gosto muito deste trecho de Sagan e ele descreve perfeitamente o que está acontecendo. Não é só o Pastor Joel Engel. São vários pastores. São várias religiões. E não são apenas revelações divinas sobre meteorologia. São revelações divinas sobre medicina, direito, políticas públicas, etc. Devemos defender nosso estado laico, um Brasil realmente para todos, principalmente com educação e conhecimento para todos. Quero ressaltar aqui que não sou contra nenhuma religião ou crença. Eu sou contra excessos. Sou contra a falta de pensamento crítico. Na minha opinião, a religião é um amparo psicológico. Sendo assim, deve somente responder questões relacionadas a vida particular de cada um e deve servir como amparo em momentos difíceis. Não acho que o pensamento religioso deva interferir no pensamento científico e é justamente o que este pastor propôs. Agora vamos a explicação científica do que está acontecendo no Rio Grande do Sul. Algumas cidades gaúchas estão enfrentando falta de chuva. Ocorre que o escoamento da atmosfera está favorecendo a formação de chuvas em grande parte de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. As áreas de instabilidade provocada pelas frentes frias estão sendo favorecidas pela umidade que vem da Amazônia e esses estados que citei estão recebendo mais chuvas do que o Rio Grande do Sul. Esse tipo de situação é relativamente comum nesta época do ano, já que boa porção do território do Rio Grande do Sul tem o clima mais próximo do que chamamos de temperado ou subtropical (chuvas mais bem distribuídas ao longo do ano e estação fria e quente bem marcadas), enquanto a Região Sudeste, possui um clima mais tropical (com estação chuvosa e seca bem definidas). Além disso, temos a atuação da La Niña. Em anos de El Niño, as chuvas são mais abundantes na Região Sul do país. Em anos de La Niña ou anos neutros (sem atuação de El Niño ou La Niña), as chuvas ficam concentradas na Região Sudeste. Também sabemos que muitos fatores favorecem a formação de nuvens: topografia, quantidade de umidade, proximidade da costa, etc. Cada cidade apresenta uma geografia diferente e é claro que a formação de nuvens e a quantidade de chuvas também serão diferentes. Com esses três últimos parágrafos, quero mostrar que a ciência pode explicar qualquer fenômeno natural. A ciência se modifica. Como um grande quebra cabeça, novas peças vão sendo adicionadas, com as novas descobertas feitas diariamente. Lendo os cadernos de ciência e tecnologia de jornais de grande circulação, é possível ter uma dimensão da quantidade de descobertas feitas. No meio do caminho, claro que os cientistas se enganam. Mas a ciência, diferentemente da fé, sempre pode ser questionada. Um outro pesquisador sempre pode refazer os experimentos, questionar os resultados e divulgar um novo trabalho. E isso pode se repetir muitas vezes. O fato é que em ciência não existe uma verdade absoluta, mas sim uma constante busca por respostas. Termino o texto de forma muito simples, já que acho que disse quase tudo que penso sobre o assunto. Ressalto a todos sobre a importância de questionar. Nunca aceitem ‘verdades’ ditas a você!