Guestpost: Minha jornada para a Meteorologia, por Isaque Saes Lanfredi

Pessoal, estou com guestposts fantásticos para publicar. Vou publicá-los aos poucos, para que todos possam ler com calma. O guestpost de hoje é de um aluno do segundo ano do curso de bacharelado em meteorologia da Universidade de São Paulo. Apresento a vocês, Isaque Saes Lanfredi. Conheci o Isaque há pouco tempo em meu trabalho, um colega de profissão educadíssimo e muito dedicado. Ele me impressionou com sua paixão antiga pela meteorologia. Isaque faz observações meteorológicas desde  criança. Aos 8 anos, observava as nuvens e dava nomes para elas, de acordo com uma classificação criada por ele mesmo. Isaque me mostrou algumas de suas observações antigas do início de sua adolescência (ele as tem arquivadas) e me mostrou observações mais recentes, de pouco antes de entrar na faculdade. É impressionante como ele tornou-se autodidata em meteorologia, pois as observações foram ficando cada vez mais profissionais. Certamente ele já sabe de antemão parte do conteúdo de algumas disciplinas que terá nos próximos anos da faculdade. Confira as palavras de Isaque abaixo:

O fascínio pela área de Ciências Atmosféricas é tão extensivo que constitui um dos pilares da minha vida. O estudo dos elementos da Meteorologia vem desde quando era muito pequeno e permanece até os dias de hoje.

O início da jornada é concomitante com a aparição das primeiras memórias. As lembranças começam assim que eu aprendo a falar, aos 4 anos de idade.

A comunicação inicial era muito alicerçada na área não verbal e me interessava pelas manifestações visuais da natureza. As transformações eram de grande interesse e podem ser perfeitamente observadas ao longo da troposfera.

Naquela época eu morava na cidade de Leme, no interior de São Paulo, próximo de Araras e Pirassununga.

Numa oportunidade,lembro-me que estava num clube e fazia um lindo dia de sol. Na volta, fui surpreendido por uma terrível tempestade. Gostei muito do clube e, por engano, associei a Mancine (empresa que fabrica árvores de Natal) com o clube. Meu pai trabalhava lá e eu chorava (não sabia falar) para que pudesse entrar lá dentro.

As primeiras palavras surgiram aos 4 anos e meio de idade, em 1995. As últimas palavras eu aprendi a falar em 1996. Dentre elas: “chefão”, “explosão”. Por força de hábito em olhar para o céu, meus familiares me ensinaram a pronunciar “meteorologia”. Lembro-me de meu primo tentando fazer eu falar a palavra corretamente, porque enrolava a língua, dizendo: “meteorolorologia”.

Aos 6 anos de idade eu me mudei para São Bernardo do Campo. Normalmente é mais quente no interior do que na Região Metropolitana de São Paulo. Estranhei a excessiva quantidade de nuvens cinzentas que pairava o céu – principalmente nos dias frios de inverno. Fiquei triste com a diminuição dos dias com céu azul e achei que estava acontecendo algum tipo de mudança climática. Meu pai um dia me disse que esse tempo era provocado pelo vento úmido que vem do mar. Dentre os 7 e 8 anos de idade, aprendi a identificar a chegada desse vento, através do cheiro do ar. Quando o vento passa a soprar de sul, o ar fica mais úmido e cheira diferente. Além disso, a chegada desse vento pode ser vista, com horas de antecedência, em dias quentes e termodinâmicos, através de nuvens baixas que aparecem agregando-se a nuvem Cumulus (que aspecto de couve-flor).

Ainda aos 7 anos de idade, cheguei à conclusão de que iria ser Meteorologista quando crescesse. Quando entrei no ensino fundamental, meu pai disse que se eu queria ser alguma coisa na vida, eu deveria estudar. Assim, eu fui muito estudioso e fui considerado o melhor aluno da classe na segunda metade do ensino fundamental e em todo o ensino médio.

Entre os 8 e os 11 anos de idade, eu comecei a inventar nome para as nuvens. Chamava de “armadilha” as nuvens médias de altas, porque estas inibiam o desenvolvimento das nuvens Cumulus (couve-flor), quando em excessiva quantidade. Ás vezes o vento úmido do mar provoca a expulsão das Cumulus, gerando uma zona de céu limpo ao sul, antes duma camada de Stratus (nuvem baixa) na Serra do Mar. A este fenômeno eu chamava de “saída”, porquanto representa a expulsão das Cumulus ou nuvens de chuva, em formação, para o interior.

Quando tinha 11 anos de idade, descobri que a direção dos ventos era diferente em diferentes níveis da troposfera. Isso aconteceu quando vi o topo duma Cumulos congestus (“Cumulus potentes” – mais evoluída) fazer uma trajetória diferente da do corpo inferior da nuvem. Tal suspeita foi persistindo até aos 15 anos de idade. Mais tarde descobri que as nuvens altas (Cirrus) normalmente tinha deslocamento diferente das nuvens baixas (Cumulus). A confirmação da teoria da existência de ventos dominantes em diferentes níveis da troposfera veio com a verificação das primeiras cartas sinóticas.

Aos 12 anos, quando descobri que as nuvens realmente tinham nomes, fiquei impressionado. Naquele ano, ganhei um computador e passei a acompanhar a previsão do tempo pelo antigo 132, além da TV.

Em 2004, quando fiz 13 anos, fiquei fascinado pelos noticiários que falavam sobre o Catarina – primeiro furacão brasileiro. Naquele mesmo ano decidi fazer um monitoramento do que acontecia no céu. Acontece que muitas coisas interessantes aconteciam e logo se apagavam na memória. Havia a necessidade dum registro diário para guardar os fenômenos interessantes. Foi então que fundei, em (01/05/2004), o “Calendário do Tempo” – um diário que conta, diariamente, os principais fenômenos da atmosfera em formato de texto. Com ele estão marcadas as características observacionais qualitativas dos fenômenos atmosféricos e o número de dias com chuva, desde sua fundação, até hoje. Mais tarde, o Calendário do Tempo se transformou num importante arquivo de dados científicos, com informações diárias de temperatura, umidade, precipitação, sistemas sinóticos e acontecimentos de interesse público.

Naquele mesmo ano iniciei meu acesso à internet. Com ela, obtive a liberdade de explorar o que a ciência tinha do melhor. Comecei explorando assuntos de Meteorologia no Google. Mais tarde, descobri o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), subordinado ao Intituto Nacional de Meteorologia (INPE). Depois descobri a Climatempo, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o Centro Nacional de Furacões (NHC), o Centro de Gerenciamento de Emergência (CGE), o Sistema de Alertas e Inundações do Estado de São Paulo (SAISP), a Somar, dentre outros sites afins, além de blogs como a “Metsul” e o “De olho no Tempo”. Também passei a interessar por sites de divulgação científica, como o Apolo11.

Aos 14 anos, meu pai me deu, no Natal de 2005, uma câmera digital, para fotografar as condições do tempo. Com ela tirei mais de 1000 fotos de nuvens e fiz algumas filmagens de descargas elétricas.

Aos 15 anos, tentei entender como o tempo funciona. Apelei para a busca de uma explicação para qualquer fenômeno. Isso me levou ao aprendizado individual de Meteorologia Sinótica. Passei a observar na prática e por meio de pesquisas o que era um sistema convectivo, um cavado, um cavado frontal, um anticiclone, o anticiclone polar, o anticiclone subtropical do Atlântico e do Pacífico sul, uma crista, a Alta da Bolívia, a Zona de Convergência do Atlântico Sul, a Zona de Convergência Intertropical e outros fenômenos então falados pela meteorologia. Decifrei que ciclone tropical, tufão e furacão era a mesma coisa. O tempo foi passando e aprendi a interpretar a carta sinótica de 200hpa, 500hpa, 850hpa e superfície independentemente de ler qualquer coisa que se referia a essas cartas.

Aprofundei minhas ideias e decidi participar do canal interativo do Climatempo – lugar onde se podem compartilhar textos e imagens das condições do tempo descritas por diferentes usuários. A primeira imagem que mandei tinha o título “Tornado em São Bernardo?”. Esta foto eu tirei quando estava soltando pipa e observei repentinamente uma nuvem funil, formada pelo choque do ar quente e úmido com o vento marítimo. Duas fotos eu mandei de diferentes dias do mês de fevereiro de 2006. Estas foram as únicas deste que observei até o dia de hoje e pude fotografar.O trabalho com as fotografias continua até hoje e venho colecionando as imagens incríveis.

Em 2007 comecei a dar valor para a análise quantitativa das condições do tempo. Esforcei-me para registrar, no lugar onde morava, a temperatura mínima e máxima. Era necessário que a temperatura informada pelo meu instrumento se aproximasse da temperatura anunciada na TV. O local mais ideal da casa era na lavanderia – um lugar exposto às condições externas, mas com sombra, ou seja, um abrigo meteorológico.

Em dezembro daquele ano, meus registros ficaram ainda mais detalhados com a aquisição do pluviômetro no Natal. Foi então que comecei a marcar os valores diários de precipitação. Porém me mudei em fevereiro de 2008 para um sobrado sem espaço aberto. Os registros de chuva foram interrompidos temporariamente e os de temperatura eram pegos com a média dos dados das estações próximas. Em Janeiro de 2009 os registros de chuva reiniciaram, com a instalação do pluviômetro na extremidade do sobrado. Em fevereiro de 2009, passei a registrar as mínimas, que possuíam valores próximos do real, com a obtenção do termômetro de janela.

Depois de todas essas coisas, ainda sobrava um desafio maior – entrar na Universidade de São Paulo (USP), para fazer o Bacharelado de Meteorologia no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG). Enfrentei a primeira prova da FUVEST em 22/11/2009, juntamente com 128.155 pessoas, dos quais, aproximadamente, 37.978 (29%) foram para a segunda fase. Fui o único aluno da minha escola pública a passar para a segunda fase, porque outros tentaram, mas falharam. Não tinha certeza de que iria passar na FUVEST 2010, mas havia uma convicção profunda de que um dia iria passar. Em janeiro de 2010 faço a prova da segunda fase, mas tiro 2,6 na nota final e sou reprovado.

Não desisto. Decido fazer cursinho extensivo pré-vestibular no Objetivo de Ferrazópolis, em São Bernardo do Campo. De lá adquiro os conhecimentos faltantes, selando as dívidas do ensino médio. Em 28/11/2010, tento pela segunda vez a FUVEST. Acerto 54 das 89 questões. Com bônus do INCLUSP, fico com 60 das 89, só não passando para segunda fase, caso prestasse Medicina, Ciências médicas e Engenharia Aeronáutica. Faço a segunda fase nos dias 09, 10 e 11 de janeiro desse ano. Sou aprovado e tiro nota final 4,5. Minha classificação fica em 216 entre 1527 concorrentes, ou seja, fico entre os 14% primeiros colocados.

Na segunda metade de fevereiro de 2011 eu me torno aluno da USP e finalmente começo a estudar meteorologia. Faço muitos amigos e me identifico com muitas áreas de estudo do curso, a ponto de confirmar a certeza de que realmente entrei no lugar certo. Sou intimidado pelas disciplinas de exatas, mas o sonho, acima de tudo, falou e fala mais alto. Com grande motivação passo forte em todas as disciplinas, obtenho média 6,9 nas disciplinas do primeiro semestre e média 8,0 nas disciplinas do segundo semestre.

Em janeiro de 2012 iniciei um estágio complementar da disciplina de Instrumentos Meteorológicos, onde pude rever e adicionar, em meus conhecimentos, muitos detalhes da meteorologia observacional. E a jornada pra o aprendizado continua nestes longos próximos 8 semestres do curso e, com ela, o desejo de sempre continuar aprendendo mais e mais, para conquistar o meu sonho e fazer aquilo que gosto.

Depois de toda a experiência que tive, entendi que o processo de aquisição de conhecimentos e habilidades é infindável e que para conquistar os sonhos é necessário romper os problemas e dificuldades, que fazem parte da vida, pois quanto maior o sonho, maior a barreira e, quanto maior a barreira, maior é a vitória.

O histórico descrito acima pode coincidir com o histórico de muitas pessoas, que possuem sonhos de realização pessoal, de acordo com a área de interesse de cada um. Se alguém estiver passando por uma situação similar, deixo a seguinte mensagem:

“Desconfie do destino, nunca digam ‘não’ as suas metas. É você que constrói o caminho e comporá a futura sociedade. Você tem a capacidade de transformar o mundo em sua volta, são fortes, e tem grande parte da vida a ser percorrida para frente.Descubra o valor que está contido em ti. O simples fato de sonhar já é uma vitória. Assim que você crer, e se esforçar em relação àquilo que parece inatingível, certamente alcançará, pois tudo irá contribuir a seu favor. Bem diz Roberto Carlos ‘é preciso saber viver’. O produto do futuro é aquilo que você decidiu na adolescência. O que você é foi consequência do passado. Portanto, cada decisão sua é importante, por menor que ela seja”.

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Tenho certeza que o depoimento de Isaque vai incentivar e inspirar muitos jovens que desejam seguir uma carreira, seja de meteorologista ou não. A lição que fica é que vale muito a pena lutar pelos seus sonhos e fazer aquilo que se gosta. Muito obrigada pela sua generosidade em dividir estas palavras, Isaque.  E desejo a você cada vez mais sucesso na nossa profissão. 🙂