Guestpost: Os efeitos da pouca radiação solar no inverno da Alemanha, por Jaqueline Girardi-Pauly



Olá pessoal,

Muito se fala sobre o uso do protetor solar e o cuidado diário que precisamos ter, principalmente no verão. Eu me refiro ao uso do protetor solar sempre que se expor ao sol e aos horários em que a exposição deve ser evitada (entre as 10h e as 16h). Entretanto, nosso organismo precisa de radiação solar. Sem a radiação solar, nosso organismo não consegue ‘fabricar’ vitamina D. Essa vitamina é importante para ajudar a fixar o cálcio. Sem vitamina D, estamos sujeitos a fraqueza nos ossos e até a osteoporose, nas pessoas de mais idade. A falta de vitamina D também está relacionada a queda de cabelo e fadiga.

A maior parte do território brasileiro está localizado em área tropical. Mesmo a Região Sul e o sul de São Paulo e Mato Grosso do Sul (que estão localizados abaixo do Trópico de Capricórnio), não estão em latitudes tão altas assim. Isso significa que não temos frio extremo no inverno e nem uma diferença tão significativa entre a quantidade de luz solar no período do inverno e no período do verão.

Porém, em países localizados em latitudes mais altas (ou seja, quanto mais próximos aos pólos, seja Pólo Sul ou Pólo Norte), a diferença na quantidade de radiação solar incidente no verão e no inverno é bastante significativa. Quanto mais próxima do pólo for a localidade, mais dramática é essa diferença entre verão e inverno.

Um exemplo que gosto muito de usar é o do Sol da Meia Noite. No verão das proximidades dos pólos, durante o verão, o Sol se põe mas logo volta a nascer. Não fica escuro de verdade: há um rápido crepúsculo e logo o Sol volta a nascer. Esse fato foi retratado em um filme muito interessante, chamado Insônia (com Robin Willians e Al Pacino). Por outro lado, no inverno das proximidades dos pólos, o Sol mal nasce e logo se põe e o máximo de claridade que há é um rápido crepúsculo.

As duas situações (dias de verão e inverno nas proximidades dos pólos) são igualmente prejudiciais para as pessoas que vivem em regiões próximas aos pólos. No filme Insônia, que se passa no Alasca (muito próximo ao Círculo Polar Ártico), o investigador tem muita dificuldade para dormir. Há cenas do filme em que são 23h e ainda está bastante claro. Já no inverno, os moradores dessas regiões tendem a ficar mais deprimidos e até com deficiências de vitaminas.

Eu usei as regiões bem próximas aos pólos como exemplos de situações extremas.  Nas latitudes altas tanto do Hemisfério Norte quanto do Hemisfério Sul, por exemplo em países do norte da Europa, no Estado Americano do Alasca (como no filme citado), no Canadá, na Rússia, no norte da China, no Japão e no sul da Argentina e do Chile o efeito de maior duração do dia claro no verão e maior duração do período de escuridão no inverno já é percebida e os efeitos negativos já são presentes.

Essa introdução toda é para falar de um testemunho pessoal, dado pela Jaqueline. A Jaque é a criadora do layout e de toda a arte do Meteorópole. Uma pessoa muito simpática, profissional e querida. A Jaque é brasileira e mora na Alemanha e no primeiro inverno que ela passou por lá logo após a mudança, sentiu os efeitos das baixas temperaturas e da pouca radiação solar. Ela ficou doente e com deficiência de vitaminas. Leiam o depoimento dela logo abaixo. E leia o post sobre Meteorologia e bem estar, que está diretamente relacionado com esse assunto.

Conversando com a Samantha, ela me pediu para que eu escrevesse um post sobre o inverno europeu e os efeitos dele.

Eu me mudei para a Alemanha no final de Setembro de 2007, ou seja, já estávamos entrando no Outono e já estava bem frio para mim, que sempre fui uma pessoa “friorenta” (do tipo que ficava de jaqueta no trabalho só porque o ar condicionado estava ligado).

Com o tempo, além de esfriar mais, os dias foram ficando cada vez mais curtos. No auge do inverno temos luz solar apenas das 8 às 16:30 hrs. Sabe aquela sensação de “fim do dia”, quando vai escurecendo e você já vai sentindo que o dia está acabando? Eu comecei a ter essa sensação por volta das 3 da tarde, todos os dias. Junte a isso dias e dias sem muito sol e com frio intercalados com dias cinzas, muitas vezes com uma neblina que só ia embora por volta do meio-dia.

O resultado disso foi o que chamam de “depressão de inverno”. Eu me sentia cansada, mesmo após ter dormido 12 ou 14 horas seguidas. Era como se meu corpo “não pegasse”. Faltava motivação para tudo e essa falta de motivação e o frio me fazia ficar cada vez mais em casa, só saindo para fazer o que fosse absolutamente necessário.

Ao final do inverno eu estava doente (deprimida e com dores no corpo que não tinham uma causa muito clara) e resolvi procurar ajuda. Após várias tentativas, encontrei um médico ortomolecular com experiência em “doenças tropicais” e ele me surpreendeu dizendo que era comum pessoas que vêm de países quentes desenvolverem um problema no balanço químico do corpo, afetando a produção de hormônios e também a produção de vitaminas, sendo as mais prejudicadas as vitaminas D e A. Comecei um tratamento nessa época, que durou alguns meses, mas que teve resultados fantásticos.

Desde então, para evitar a tal “depressão de inverno”, eu faço terapia de luz (tenho em casa lâmpadas fortes que imitam a luz solar e me submeto a elas duas vezes por dia por meia hora), tomo suplementos de vitamina B, D e A (com controle, claro) e me obrigo a sair para caminhar mesmo quando está -17 graus lá fora e tudo coberto de neve. Caminhar pela manhã meio que diz para o corpo “ei, hora de acordar” e dá muito mais ânimo para levar o resto do dia.

Claro, nem todo mundo sente esses sintomas de maneira tão forte, tem que existir uma certa predisposição para isso. Por outro lado, é muito importante realmente procurar um tratamento e saber que o problema existe e pode ser evitado ou minimizado.

E a chegada da primavera por aqui é uma delícia, com todo mundo cuidando de seus jardins, abrindo suas casas e realmente curtindo os dias de sol. No verão nossos dias são bem mais longos, com luz até as 10 da noite. Eu já estou contando os dias para a primavera chegar! 🙂

Obrigada pelo guest post, Jaque!

Enquanto lia algumas fontes para escrever a introdução deste post, encontrei essa reportagem bastante informativa da FAPESP. Também encontrei esse estudo feito para a cidade de São Paulo-SP, que comparou a variação de incidência de radiação solar com a quantidade de suicídios e nenhuma correlação foi encontrada.

Leituras recomendada 🙂