Semeando nuvens para combater a seca: um absurdo



Avião Cessna 2010 com equipamento para semear nuvens. Fonte: Wikimedia Commons
Avião Cessna 2010 com equipamento para semear nuvens. Fonte: Wikimedia Commons

Quem me acompanha também nas redes sociais, sabe que hoje foi um dia daqueles em que fiquei muito indignada. Minha indignação deve-se a esta notícia. Mais de 230 municípios nordestinos estão sendo afetados pela seca. O portal UOL tem feito uma cobertura relativamente completa sobre o caso, mas quando li a notícia de que o governo da Bahia vai pagar por semeadura de nuvens, eu fiquei indignada, porque esse processo não é cientificamente comprovado!

No processo de semeadura de nuvens, substâncias são dispersadas nas vizinhanças de uma potencial nuvem de chuva (uma nuvem cumulus, por exemplo). Isso é feito usando aeronaves. Normalmente, o material usado é iodeto de prata e gelo seco. A idéia é encher o ar com núcleos de condensação, que vão formar novas gotas, aumentando o tamanho da nuvem e aumentando assim os processos de colisão e coalescência, que formam as gotas de chuva (que tornam-se pesadas e por isso caem).

Na variação da técnica, que será empregada pela empresa ModClima no sertão da Bahia, gotículas de água seriam pulverizadas no interior da nuvem. Segundo as palavras de Eduardo Sales, secretário estadual da agricultura:

“É um projeto natural, sem utilização de produto químico e aprovado pela ONU. Através de radar e satélite, que vê as nuvens com potencial de precipitação, um avião decola com dois pulverizadores, que jogam gotículas de água. Elas batem no vapor da nuvem e fazem peso. Com isso, a gravidade faz a água cair”.

Esperem aí, um minuto… chamo a atenção aqui para o primeiro absurdo desta declaração. O secretário diz que nenhum produto químico será utilizado e depois fala que água será pulverizada no interior da nuvem. Gente, a água, assim como qualquer coisa deste universo, é um produto químico. É um alerta que sempre faço aos alunos que atendo: não existe coisa ‘sem química’. A química faz parte de nosso cotidiano. Existe produtos que não são de origem natural, ou seja, não são obtidos diretamente de fontes naturais (solo, atmosfera, plantas, vegetais, etc). Um processo químico precisa ser realizado, em uma indústria, para que o produto seja obtido. O iodeto de prata, que citei anteriormente, é um produto que não é natural.

Entretanto, dizer que um produto não é natural não significa que ele é ruim. Os remédios que a gente compra na farmácia não são produtos naturais, de acordo com a definição que dei acima. Mas são produtos muito bons, pois ajudam a aliviar sintomas de doenças ou a curá-las. Do outro lado, podemos citar o exemplo de venenos de cobras. São produtos naturais, mas fazem mal a quem sofre a ação deles.

Voltando a declaração do secretário:  “um avião decola com dois pulverizadores, que jogam gotículas de água. Elas batem no vapor da nuvem e fazem peso.” Gente, as gotículas de água pulverizadas não ‘batem’ no vapor d’água. Elas podem atingir as gotículas de água da nuvem, podem ficar pesadas e podem cair. Aparentemente, geraria chuva. Mas vamos pensar no seguinte:

1) Vamos supor que eu suba até uns 5000m de altura com um pequeno avião e que dentro desse avião eu carregue 10.000l de água. E que lá nos meus 5000m de altura, eu derrame toda a água de minha caixa d’água. Essa água vai cair e vai atingir a superfície. E olha, pode causar alguns estragos onde cair.

2) Agora vamos pensar na situação apresentada pela empresa ModClima, explicada pelo secretário da Agricultura da Bahia. Ou seja, ao invés de despejar toda essa água, ela será pulverizada. Como se eu pegasse um grande spray e pulverizasse toda essa água no céu com meu aviãozinho.

Considerando a situação 2), que é a proposta, devemos pensar em uma outra questão. Para chover, é necessário que nuvens existam. Nuvens bastante carregadas. Para que as nuvens se formem, é necessário haver movimento ascendente. Não importa como, o ar da superfície, superfície esta que foi aquecida pelo Sol e então aqueceu o ar logo acima dela, precisa subir. Mas… pera aí. Tem radiação solar aos montes no sertão. Então aparentemente isso não seria um problema, certo? Então precisamos entender o que dificulta a formação dessas nuvens carregadas.

Sobre a maior parte do polígono das secas, há uma região de movimento descendente predominante. Ou seja, é uma região em que o ar costuma descer do alto da troposfera. Resumidamente, isso ocorre porque temos movimento ascendente muito intenso na Região Amazônica (responsável pelas chuvas da região). O ar que sobe na Amazônia precisa descer em algum lugar, de acordo com a equação da continuidade. E esse lugar onde ele desce são os lugares exatamente a leste e a oeste da Amazônia. A oeste da Amazônia o efeito não é muito sentido, pois temos a cordilheira dos Andes, uma grande barreira natural. Mas a leste da Amazônia (onde fica a Região Nordeste) esse efeito é bastante percebido.

Esse não é o único efeito que faz com que o ar tenha a tendência a descer no sertão. Hoje já se sabe que a temperatura da superfície do Oceano Atlântico (na costa nordestina) também influencia as secas. Temperaturas mais altas nas águas do oceano atlântico poderiam favorecer o movimento ascendente sobre o oceano. Com o ar com tendência a subir na costa nordestina, ele teria que ‘descer’ em algum lugar. E esse lugar seria justamente o sertão nordestino.  Até as águas do Oceano Pacífico podem influenciar as secas, com o fenômeno El Niño.

O que quero mostrar aqui, caros leitores, é que a seca no Nordeste é causada por vários fatores e todos eles causam a mesma coisa: dificultam o movimento ascendente, que forma nuvens. Além disso, o ar descendente é seco e aumenta a evaporação. Ou seja: tem evaporação, tem vapor d’água no ar, mas esse ar não consegue subir! E justamente por aumentar a evaporação, boa parte das gotículas de água que seriam pulverizadas pelo avião da empresa contratada pelo governo da Bahia evaporariam, mas não formariam nuvens de chuva!

De forma bastante resumida, creio que é isso que a população das áreas afetadas pela seca precisam saber. Não caiam nessa enganação e questionem a ação do governo do Estado da Bahia. Ela está totalmente equivocada. Além disso, ter uma matéria publicada na Revista Scientific American não faz com que o método empregado seja eficaz e cientificamente aceito. Essa é uma revista de divulgação científica apenas! E mesmo se o estudo tivesse sido publicado em um paper, cabe a comunidade científica questioná-lo também.

Um outro fato alarmante: nessa primeira fase do projeto, seriam gastos R$200.000,00! É dinheiro do contribuinte. É dinheiro seu, cidadão baiano, sendo utilizado para financiar um projeto desesperado, que não é comprovadamente eficaz. Onde estão os conselheiros do Secretário da Agricultura? Imagino que ele deveria ser cercado de cientistas conscientes, que jamais autorizariam tal projeto.

Esse dinheiro seria muito melhor empregado se utilizado para melhorar a qualidade de vida do sertanejo. Sempre uso o exemplo do que foi feito no Deserto de Negev. Com boa vontade e com bom amparo técnico, é possível melhorar a qualidade de vida da população.

Finalmente, destaco meu comentário, que submeti no portal UOL:

Essa notícia é vergonhosa! É um absurdo que este método, que não é cientificamente comprovado, seja tido como uma solução para a seca no Nordeste. É um absurdo que esse dinheiro não seja empregado de uma outra maneira, para melhorar a qualidade de vida da população, como por exemplo o que é feito no deserto de Negev. É um absurdo que as pessoas desconheçam tanto sobre ciência a ponto de publicar uma nota dessas como uma verdade. Isso é brincar com a fé e com a esperança de pessoas, que sofrem com e seca e principalmente com a indústria formada em torno da seca. Estou profundamente indignada!

Destaco também um artigo de Washington Novaes compartilhado pelo meu querido colega Danilo Duarte Câmara (obrigada por sempre ser tão simpático na biblioteca, Danilo!), que é estudante de Geografia da FFLCH-USP e talvez por isso veja os  problemas de maneira mais sistêmica do que eu. Danilo destacou o seguinte trecho do artigo:

‎”segundo a opinião do geólogo e hidrólogo piauiense Manoel Bonfim Ribeiro em seu livro A potencialidade do Semi-Árido Brasileiro, publicado em 2007. O autor, que trabalhou em projetos de irrigação, construiu açudes e adutoras e foi diretor da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco, assegura, como muitos outros cientistas já citados aqui, que o problema da água no Semi-Árido é de gestão, não de escassez. O Nordeste tem 70 mil açudes (“é a região mais açudada do planeta”), nos quais se acumulam 37 bilhões de m³ de água (um terço do que o São Francisco despeja no mar a cada ano); um açude a cada 14 km². Só os 27 maiores açudes acumulam 21,54 bilhões de m³ (11 vezes a água da Baía de Guanabara). “O Semi-Árido é uma ilha cercada de água doce por todos os lados”, diz o autor.

Só nos oito grandes açudes do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, que irão receber 2,1 bilhões de m³ de água transposta, o Semi-Árido já acumula 12,6 bilhões de m³ ou 5,3 vezes o volume de água da Baía de Guanabara. E da água já estocada nos oito grandes açudes, 30% se evapora, cerca de 3,76 bilhões de litros, mais que o dobro da água do São Francisco que será levada para os açudes (1,66 bilhão de m³). Tudo isso sem falar na possibilidade de extrair 20 bilhões de m³ de águas subterrâneas (hoje só se extrai 1 bilhão de m³), segundo a Associação Brasileira de Águas Subterrâneas.

Por essas e outras, diz o autor que “a pobreza do semi-árido não está na terra, nem no clima, nem na pluviosidade, mas no homem”. Mais precisamente, na pouca informação sobre o enorme potencial do Semi-Árido (apesar dos 140 mil km² em processo de desertificação). E, aí certamente, está o grande valor do livro, na riqueza de informações sobre as potencialidades da região… “

Além de tudo isso que apresentei aqui, concluo que o uso de soluções sem embasamento científico e muitas vezes apresentadas como soluções mágicas (um dia falo disso aqui pra vocês…) são soluções que além de desonestas são desumanas. Sempre penso na pessoa que pouco sabe sobre meteorologia e que tem pouco estudo e que tem pouco conhecimento para criticar a imprensa. Essa pessoa pode se apegar nessa solução e acreditar nela. Temos assim cidadãos frustrados e indignados, e que continuam sendo enganados pelos políticos que elegeram.