Nevoeiro, neblina, cerração…



Quem mora em São Paulo-SP, como eu, já deve ter percebido que as manhãs (e os finais de tarde também) dos dois últimos dias foram bem interessantes: uma densa neblina cobriu quase todas as regiões da cidade. As partes mais baixas, como os vales, foram os mais atingidos. Esse fenômeno chama-se nevoeiro. Mas tem uma série de sinônimos: névoa, neblina, cerração e ruço são alguns deles. Tecnicamente, nevoeiro é quando a visibilidade horizontal é inferior a 1km. Já a neblina, é quando a visibilidade horizontal é um pouco superior a 1km, mas não ultrapassa 3km. Entretanto, na prática, essas diferenças não são aplicadas e as duas palavras são usadas como sinônimos.

Nevoeiro intenso em uma estrada. Fonte: Wikimedia Commons

De acordo com a organização meteorológica mundial (cuja sigla em inglês é WMO), nevoeiro é definido como uma suspensão de gotículas microscópicas de água, que reduzem a visibilidade horizontal. Esse agrupamento de gotículas microscópicas forma uma nuvem tipo Stratus (St). Costumo dizer aos alunos que, se já caminharam em uma área com neblina, quer dizer que caminharam dentro de numa nuvem!

Eu comentei nesse post que há lugares do planeta em que o nevoeiro tem um importante papel: fornecimento de água.  Há regiões no Deserto do Atacama (Chile) em que os moradores utilizam redes que interceptam as microscópicas gotículas  do nevoeiro. A água escorre pela rede e cai em um sistema de canaletas, onde pode ser usada para diversas finalidades.

As nuvens do nevoeiro passam por redes como esta.As gotículas das nuvens ficam ‘presas’ nas redes e escorrem para um reservatório. Essa água então é usada para o consumo e para a irrigação.

 

O nevoeiro pode causar alguns transtornos e acidentes graves. Aeroportos são fechados quando o nevoeiro está bastante intenso, como ocorreu ontem. Nas estradas de São Paulo, a Operação Comboio entra em cena quando há um nevoeiro intenso: um veículo especial da administradora da rodovia é colocado no início da rodovia para controlar a velocidade dos carros que vem logo atrás. Ontem mesmo, a neblina era tão intensa que precisaram recorrer a este procedimento.

Ano passado, um nevoeiro bastante intenso acabou provocando um grave engavetamento na Rodovia dos Imigrantes. Além da Operação Comboio, é importante também que os motoristas prestem atenção aos avisos dispostos nos painéis eletrônicos nas rodovias. Muitos desses avisos alertam para a ocorrência de neblina. Além de reduzir a velocidade, o motorista deve utilizar o farol de neblina (o próprio nome já diz tudo!). O farol de neblina é projetado para melhorar a visibilidade em condições de neblina ou chuva forte.

Atenção: o farol de neblina deve ser utilizado APENAS nessas condições adversas, que mencionei acima. O uso fora de situações acima causa desconforto visual nos demais motoristas!

Após dar algumas dicas, fiquei aqui me perguntando: pera aí, Prof. Samantha… você não explicou como o nevoeiro se forma. E é isso que todo mundo quer saber!

Para facilitar o estudo dos nevoeiros, eles são classificados de acordo com sua formação. Mas independentemente dessa classificação, as condições essenciais para que um nevoeiro ocorra são:

– umidade elevada: para formar as gotículas microscópicas

– céu limpo: para aumentar o resfriamento da superfície

– ventos fracos: que evitam que o nevoeiro se dissipe logo que se forma

Durante o nevoeiro, o ar próximo a superfície da Terra se resfria e o vapor d’água contido nele se condensa sobre os pequeninos núcleos de condensação.  Lembram quando expliquei que para uma nuvem se formar, é necessário que o ar seja forçado a subir (leia aqui e aqui) para que atinja temperaturas mais baixas e então o vapor d’água contido nesse ar se condense, formando as gotículas? No caso do nevoeiro, a nuvem se forma sem que o ar seja forçado a subir. O vapor d’água contido no ar encontra condições para se condensar na própria superfície, que está suficientemente fria para isso.

Os nevoeiros normalmente se formam pela manhã, depois de madrugadas com pouca nebulosidade. Durante a noite e a madrugada, a superfície da Terra passa a apenas a perder calor para o espaço,  pois o Sol, nossa fonte de calor, já se pôs.

As nuvens funcionam como um ‘cobertor’: elas impedem que parte do calor seja pedido para o espaço. Em noites sem nuvens no céu, não há esse cobertor. Todo calor é perdido e o vapor d’água contido no ar próximo da superfície acaba se condensando.

Muitas vezes, os nevoeiros também ocorrem no período da tarde. A temperatura máxima do dia ocorre por volta das 14h. Depois das 14h, a temperatura tende a diminuir. Essa redução de temperatura, em alguns casos, pode ser suficiente para que o nevoeiro também ocorra de tarde. Além disso, é de tarde que a brisa marítima costuma chegar a cidade de São Paulo. A brisa traz ar úmido proveniente do oceano. Quando esse ar úmido é resfriado, ele forma o nevoeiro.

Alguns parágrafos acima eu falei sobre a classificação dos nevoeiros. A maioria dos livros de meteorologia usam a seguinte classificação:

Nevoeiros “Tipo A”:

– Nevoeiro Advectivo;

– Nevoeiro Radiativo;

– Nevoeiro Advectivo-Radiativo

– Nevoeiro de Encosta

Nevoeiros “Tipo B”:

– Nevoeiros pré-frontais

– Nevoeiros pós-frontais

– Nevoeiros frontais

Nevoeiros “Tipo A”

Nevoeiro Advectivo: a palavra ‘advecção’ significa transporte e é muito utilizada em meteorologia. Nevoeiros advectivos ocorrem quando o ar úmido é transportado por uma região mais fria. Esse ar úmido então resfria e o vapor d’água nele contido condensa-se. Ocorre, por exemplo, quando o ar que está sobre o oceano (e portanto recebeu umidade do oceano) é transportado para o continente. No continente, esse ar encontra temperaturas mais frias e o vapor d’água acaba se condensando. É um nevoeiro muito comum no inverno em regiões costeiras. Na região do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, por exemplo.

Nevoeiro Radiativo: digamos que este é o tipo mais ‘didático’ de nevoeiro. É quando a superfície da Terra esfria durante a noite e o vapor d’água contido nesse ar acaba se condensando. Pereceberam que acabei explicando esse exemplo de nevoeiro antes de mencionar a classificação?

Nevoeiro Advectivo-Radiativo:  é o tipo de nevoeiro mais comum, que reúne o transporte do ar de uma região para outra e o resfriamento desse mesmo ar. Ou seja, possui elementos mencionados no Nevoeiro Advectivo e no Nevoeiro Radiativo. Esse é o tipo de nevoeiro que encontramos em São Paulo-SP e que acabei explicando acima. A brisa marítima transporta ar úmido do oceano para o continente. Esse ar, quando resfriado, forma o nevoeiro.

A Brisa Marítima. Fonte: Revista FAPESP

Lembrando que mencionamos a brisa marítima nesse post e ela também pode ser responsável pelas tempestades em São Paulo-SP.

Nevoeiro de encosta: Formam-se como resultado do resfriamento do ar por expansão adiabática à medida que ele se move para altitudes maiores. Este é um dos poucos tipos de nevoeiro que se mantém em condições de vento relativamente forte. A razão para isso é que quanto mais rápido o vento mais rápido será o movimento para altitudes maiores e mais rápido será o resfriamento. Como exemplo deste tipo de nevoeiro, podemos falar sobre os nevoeiros que ocorrem na Rodovia dos Imigrantes, na Serra do Mar.

Nevoeiro de Encosta. Foto de http://ciclotp.blogspot.com.br

 

 Nevoeiros “Tipo B”

Nevoeiros pré-frontais: Podem ocorrer durante a passagem de frentes quentes

Nevoeiros pós-frontais: Podem ocorrer durante a passagem de frentes-frias

Nevoeiros frontais: em condições extremamente úmidas durante a entrada de uma frente fria, as nuvens baixas podem ter sua base bastante próxima da superfície, formando assim os nevoeiros frontais.

Para ler mais sobre esses nevoeiros associados a sistemas frontais (os nevoeiros ‘Tipo B’), clique aqui. E eu falei um pouco sobre frentes aqui. Acompanhe a previsão de nevoeiro aqui.

Nota: para fazer a previsão do nevoeiro, são na verdade previstas as condições de formação de um nevoeiro (elevada umidade relativa, pouca nebulosidade e ventos fracos).

Dúvidas? Usem os comentários 🙂