O povo quer saber: é verdade que não tem mais garoa em São Paulo?



Não tem mais garoa em São Paulo.

Eu não sei quem afirmou isso pela primeira vez. Mas eu sei que essa afirmação foi repetida tantas vezes que se tornou uma ‘verdade’. Aquelas ‘verdades’ que as pessoas afirmam em mesas de bar, cheias de propriedade e conhecimento. Nesse post, eu vou refutar essa informação! Achei que fiquei devendo este post desde quando falei sobre a entrevista que dei para o jornal da UNINOVE. E tive mais certeza ainda que precisava falar sobre este assunto quando falei sobre a reportagem da revista FAPESP sobre a ocorrência de tempestades em São Paulo.

Em primeiro lugar, precisamos definir o que é garoa. De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM, cuja sigla em inglês é WMO) e de acordo com o Prof. Paulo Marques dos Santos, um grande conhecedor de fenômenos meteorológicos e que trabalhou por muitos anos na Estação Meteorológica do IAG-USP:

Garoa é a designação regional de chuvisco muito leve e inapreciável, sendo formada por gotículas muito finas, pequenas e leves e muito próximas umas das outras que parecem flutuar no ar mesmo com leves movimentos de brisa e que quando atingem o solo não o umedecem completamente. Essas gotículas são sempre provenientes de uma camada baixa, contínua  e densa de nuvem Stratus (St). A garoa pode vir acompanhada pelo nevoeiro e quando isso ocorre, a visibilidade fica bastante reduzida.

Fazendo comentários sobre a definição:

– chuvisco muito leve e inapreciável significa uma precipitação que mal consegue ser registrada pelos pluviômetros

– garoas não formam poças d’água e nem filetes de água escorrendo.

A partir desta definição, os observadores das estações meteorológicas fazem registros em suas cadernetas, marcando os horários e os dias em que a garoa ocorreu. O procedimento é bastante semelhante ao utilizado para o nevoeiro. Esse procedimento é adotado e seguido desde 1933, portanto desde este ano os funcionários da Estação Meteorológica do IAG-USP fazem anotações sobre a ocorrência de garoa e já existe um grande banco de dados sobre isso. As informações são divulgadas para a imprensa e para pesquisadores, além de serem publicadas em Boletins Climatológicos Anuais e trimestrais. Divulguei o último boletim trimestral aqui.

O último boletim anual publicado foi este, referente ao ano de 2011. Neste boletim, foi publicado o gráfico abaixo (Figura 1), que apresenta os totais de dias com garoa em cada um dos anos, desde 1933 (linha azul). Verificamos que há anos com mais dias com garoa e há anos com menos dias com garoa. Ou  seja, há uma flutuação inter-anual, mas apesar desta flutuação, não verificamos tendência de aumento ou diminuição significativa. Tanto, que se traçarmos uma reta de tendência (linha preta mais intensa), verificamos que ela tem uma tendência de diminuição muito insignificante (redução de apenas 1 dia a cada 4 anos, aproximadamente), que não passa em nenhum teste estatístico[*]!

Figura 1: Número de dias com garoa (eixo y) x anos de registro (eixo x). Essas informações foram registradas na Estação Meteorológica do IAG-USP.

Sendo assim não há evidência científica que de a quantidade de dias com registro de garoa tenha diminuído. Portanto, a afirmação que abre este post é falsa! Quando me perguntam porque as pessoas acreditam nessa afirmação, eu costumo argumentar os seguintes pontos:

– Infelizmente, as pessoas acreditam em TUDO o que é dito pelos meios de comunicação, mesmo que a informação esteja equivocada ;

– Nos dias de hoje, as pessoas passam menos tempo ao ar livre. A maioria das atividades é interna. Sendo assim, muitas vezes a garoa acontece mas a pessoa nem nota! Comentei sobre isso aqui.

– Problemas como tempestades intensas e enchentes preocupam mais as pessoas do que a garoa. Ou seja, o foco de atenção mudou.

Há no entanto algumas hipóteses que apontam que os poluentes emitidos pelo homem em grandes cidades alteram o processo de formação de gotas e poderiam alterar a frequencia de ocorrência de garoa. Aparentemente, mesmo que essas hipóteses ocorram de fato, não estão alteram significativamente a ocorrência de garoa, pois os dados apresentados não mostram isso. Imaginem vocês que a cidade mudou bastante desde 1933 e a quantidade de poluentes emitidos também aumentou.

Com relação a época do ano em que ocorre mais garoa, os dados da Estação Meteorológica do IAG-USP mostram que há dois picos de ocorrência de garoa: em março/abril e setembro/outubro (Figura 2, linha azul clara). É justamente no fim e no início da Estação Chuvosa! Ao que parece, a chuva em São Paulo chega devagarzinho, como uma garoa e vai embora devagarzinho também 🙂

Talvez alguns de vocês pensem: “Ah, mas eu sempre achei que tivesse mais garoa no inverno”. Na verdade, como chove bem menos no inverno, a garoa torna-se mais ‘perceptível’ pela maioria das pessoas. Durante o inverno, é bem comum que a garoa venha com nevoeiro 🙂

 

Figura 2: Número de dias com ocorrência de garoa em todos os meses dos anos de 2010 (azul) e 2011 (vermelho)
Figura 2: Número de dias com ocorrência de garoa em todos os meses dos anos de 2010 (azul) e 2011 (vermelho). A linha verde representa a Normal 1933-1960 e a linha roxa representa a Normal 1961-1990. A linha azul clara representa a média total (1933-2011)[**

[*] Fiz uma análise parecida aqui.

[**] Em meteorologia, é muito comum utilizarmos o termo ‘Normal Climatológica’ ou simplesmente ‘Normal’. Falei sobre a definição de Normal Climatológica neste post e a repito aqui:

Na maior parte dos trabalhos sobre climatologia, sempre utiliza-se o termo Normal Climatológica ou simplesmente Normal. Afinal, o que é normal climatológicaNormal climatológica é a média em um período de 30 anos. Trinta anos é o período mínimo recomendado pela OMM (Organização Meteorológica Mundial) para que uma Estação Meteorológica seja considerada climatológica. Ou seja, a OMM considera que 30 anos é um período de tempo em que já é possível descrever o clima de uma região. Como o clima está em constante mudança, é ideal que uma Estação Meteorológica funcione por muitos anos no mesmo endereço. A Estação Meteorológica do IAG-USP funciona no mesmo endereço desde 1933. Há portanto 2 normais (de 1933-1960 e de 1961-1990) e em 2020 teremos uma terceira normal (1991-2020). Veja mais informações sobre esse assunto aqui.

P.S.: Eu já tinha escrito um FAQ sobre o assunto (veja aqui) e tinha esquecido :). Tudo bem, agora o assunto foi mais bem discutido e o tópico está mais completo.