São Paulo, a terra da tempestade

Já falei sobre garoa em outro post, quando relato sobre minha participação no jornal dos estudantes da UNINOVE (veja aqui). Venho reescrever sobre garoa (e também sobre chuvas e tempestades), pois nos últimos dias os jornalistas tem perguntado muito sobre o assunto. Alguns deles chegaram a citar uma recente reportagem muito bem escrita pela equipe Revista FAPESP.

O objetivo desse post é recomendar essa reportagem da Revista FAPESP, além de falar um pouquinho sobre ela. Mas antes, quero fazer um alerta. Eu tenho reparado que as pessoas andam muito apressadas. A pressa acaba gerando a desatenção. E a desatenção acaba provocando MUITOS equívocos. Veja a chamada da reportagem:

 

Algumas pessoas aparentemente compreenderam, ao ler o título da matéria, que a garoa deixou de acontecer na cidade de São Paulo e deu lugar às tempestades. Só que essa lógica é totalmente falsa. Lendo a matéria na íntegra, vemos que não é nada disso. O que é explicado de forma muito clara é que a quantidade de chuva tem aumentado ao longo dos anos, apenas isso!

Sendo assim, a garoa deixou de representar a cidade. Podemos dizer que se no passado falava-se “São Paulo, a terra da garoa”, hoje podemos dizer “São Paulo, a terra da tempestade”. Tempestades essas que causam muitas enchentes no verão, além de lentidão no trânsito e no sistema de trens e metrôs.

Por isso fica aqui o apelo: cuidado com a falsa lógica! Prestem atenção e leia qualquer texto com bastante cuidado.

Agora vamos falar sobre a completa reportagem da Revista FAPESP. A imagem de chamada da matéria vem com uma legenda afirmando que a quantidade de chuva na cidade de São Paulo aumentou 425mm. De onde vem esses dados? Daqui.  Na Estação Meteorológica do IAG-USP, que já foi várias vezes citada aqui no Meteorópole, são realizadas observações meteorológicas desde 1933. São quase 80 anos de funcionamento ininterrupto, sempre com bastante cuidado durante as medições e sempre seguindo o mesmo procedimento. As medidas de chuva são feitas utilizando pluviômetros e pluviógrafos (leia sobre esses instrumentos aqui).

Usando todos essas medidas, é possível descrever as principais características do clima da cidade. Sabemos, por exemplo, que o mês de janeiro é o mais chuvoso, enquanto o de agosto é o mais seco.

Figura 1: Quantidade de chuva mensal (mm) nos meses de 2010 (barras azuis), nos meses de 2011 (barras vermelhas), além da normal (1933-1960) em verde, da normal (1961-1990) em roxo e da média climatológica (1933-2011) em laranja. Os dados dessa figura foram obtidos da Estação Meteorológica do IAG-USP. Caso queira utilizar essa figura, dê os devidos créditos.

Importante!

Na maior parte dos trabalhos sobre climatologia, sempre utiliza-se o termo Normal Climatológica. Na Figura 1, usei apenas a palavra normal, mas quis dizer a mesma coisa. Afinal, o que é normal climatológica? Normal climatológica é a média em um período de 30 anos. Trinta anos é o período mínimo recomendado pela OMM (Organização Meteorológica Mundial) para que uma Estação Meteorológica seja considerada climatológica. Ou seja, a OMM considera que 30 anos é um período de tempo em que já é possível descrever o clima de uma região. Como o clima está em constante mudança, é ideal que uma Estação Meteorológica funcione por muitos anos no mesmo endereço. A Estação Meteorológica do IAG-USP funciona no mesmo endereço desde 1933. Há portanto 2 normais (de 1933-1960 e de 1961-1990) e em 2020 teremos uma terceira normal (1991-2020). Veja mais informações sobre esse assunto aqui.

 

Vamos agora considerar a soma total de chuva em cada um dos anos, desde 1933. Vemos que há sobes e desces, ou seja, alguns anos são mais chuvosos do que os outros. Apesar desta variação de um ano para outro, notamos que a quantidade de chuva tende a subir, pois essa linha lilás com de sobes e desces (veja figura abaixo), ao mesmo tempo que oscila inter-anualmente, também tem a tendência de subir

Figura 2: Total anual de chuva de cada um dos anos, desde 1933 até 2011. Os totais foram ligados, formando esta linha lilás. Os dados utilizados para fazer este gráfico vieram da Estação Meteorológica do IAG-USP. Se for utilizar estas informações, dê os créditos!

Com essa característica de ‘aumento’ apresentada na figura acima, vamos supor que a quantidade de chuva, ao longo de todos os anos, varie conforme uma função de primeiro grau. Claro que não é exatamente a realidade (já que vemos os sobes e desces inter-anuais) mas vamos considerar assim, para simplificar:

Figura 3: Figura com os mesmos dados dados apresentados na figura anterior, com a diferença que agora inserimos uma linha de tendência (a linha vermelha), supondo que a quantidade anual de chuva aumente de acordo com uma função de primeiro grau. É na verdade uma aproximação.

Essa função de primeiro grau é representada pela linha vermelhano gráfico acima e a equação que descreve essa função é:

P(mm)=6,402*ano – 11235,112

Aplicando esta função para os anos de 1933 e 2011 , temos:

1933: P=6,402*1933-11235,112 = 1139,954mm

2011:P=6,402*2011-11235,112 = 1639,31mm

Fazendo a subtração temos: aproximadamente 500mm de aumento na precipitação, desde 1933!

Existem outras maneiras de se calcular este aumento. Muito provavelmente, os profissionais da Revista FAPESP utilizaram algum outro método, que totalizou os 425mm. Mas essas conclusões de aumento de precipitação baseiam-se em medições.  Será que as previsões apontam que a quantidade anual de chuva na cidade de São Paulo deve continuar a subir? A resposta é sim, e é isso o que o meteorologista José Marengo, do INPE afirma na reportagem:

As projeções sugerem que a situação atual é uma espécie de prólogo do enredo futuro. Elas sinalizam que deverá ocorrer até o final deste século um aumento no número de dias com chuvas superiores a 10, 20, 30 e 50 mm, ou seja, praticamente em todas as faixas significativas de pluviosidade. Haverá apenas uma diminuição na quantidade de dias com chuvas muito fracas e possivelmente um aumento no número de dias secos. “A sazonalidade das chuvas também deverá mudar”, afirma José Marengo, chefe do CCST, coordenador de um trabalho ainda não publicado sobre as projeções de chuva na região metropolitana. “A quantidade de tempestades fora da época normalmente mais úmida deverá crescer, um tipo de situação que pega a população de surpresa.” As simulações levam em conta apenas os possíveis efeitos sobre o regime pluviométrico da região metropolitana causados pelas chamadas mudanças climáticas globais, sobretudo o aumento nas concentrações dos gases de efeito estufa, que esquentam a temperatura do ar. O peso que a urbanização e a poluição atmosférica podem ter sobre as chuvas da Grande São Paulo não é considerado nas projeções.

Ou seja, segundo Marengo, além do aumento da quantidade de chuvas, o regime de chuvas também deve se modificar. De acordo com as previsões, a quantidade de eventos de com tempestade severa deverá aumentar. De acordo com os especialistas ouvidos pela equipe da Revista FAPESP, o que fez com que a quantidade e o regime de chuvas se alterasse, é a atividade humana:

De forma geral, dois fatores principais podem estar relacionados com a alteração no regime de chuvas na região metropolitana: as mudanças climáticas globais, um fenômeno de grande escala, e o efeito ilha de calor, de caráter localizado e típico das megacidades. Os dois atuam em conjunto. Um potencializa os efeitos do outro e, em geral, é difícil traçar uma linha divisória entre ambos. Segundo Marengo, a maioria dos modelos climáticos indica que haverá um aumento na quantidade de chuva desde a bacia do Prata até o Sudeste do Brasil nas próximas décadas. Dentro dessa moldura mais ampla, surge a questão específica do clima nas grandes cidades, em especial do efeito ilha de calor, que, ao tornar mais quentes as áreas extremamente urbanizadas, também funciona como um ímã de chuvas.

Aqui no Meteorópole, já falei como atuam as ilhas de calor (veja aqui, onde também apresento o mesmo gráfico de chuva). A reportagem também fala do efeito da brisa marítima, que traz umidade do oceano para a cidade de São Paulo e pode favorecer a formação de chuvas:

Figura 4: Essa figura é bastante interessante e ilustra a reportagem comentada neste tópico. Na figura, vemos de maneira bastante simplificada, o efeito da brisa marítima combinado com o efeito da Ilha de Calor Urbano.

Por fim, um ponto muito importante mencionado na reportagem é que as médias e normais calculadas a partir de dados da Estação Meteorológica do IAG-USP constituem referências genéricas para a quantidade de chuva na Cidade de São Paulo. O que isso quer dizer? São Paulo é uma cidade muito grande, sendo assim não chove homogeneamente por toda a cidade. Em um determinado momento, pode estar ocorrendo uma grande tempestade no bairro do Tatuapé, porém o bairro do Jabaquara permanece sem nenhuma chuva, por exemplo. O ideal seria que existissem muitas estações pela cidade, fazendo monitoramentos por longos períodos de tempo, seguindo a Estação Meteorológica do IAG-USP como modelo. A quantidade escassa de estações meteorológicas também é pontuada pela excelente reportagem, pois se a quantidade de  pontos de medição fosse maior, teríamos melhores resultados em previsões e conheceríamos melhor o regime de chuvas da cidade.

 

Nota: a maior parte das figuras deste post foi retirada do Boletim Climatológico de 2011 da Estação Meteorológica do IAG-USP. Consulte este documento aqui.

 

P.S.: E sobre a garoa, dona Samantha? Leia aqui e nas páginas 41 e 42 daqui. E tire suas próprias conclusões :). Falarei mais sobre isso em uma próxima oportunidade, prometo!