A poluição do ar

Posted by on 28-jul-2012 in Blog, Poluição do Ar | 3 comments

Foto de Tiago Queiroz/AE.

Essa semana, vi a foto acima na página do Facebook do caderno Metrópole, do Estadão. Nas atualizações da página do Metrópole, sempre há imagens interessantes como esta, retratando belezas, curiosidades e horrores da cidade de São Paulo. Essa imagem, que mostra uma nítida camada de poluição sobre a cidade de São Paulo, é um desses horrores. Vou usá-la para ilustrar o post de hoje.

A poluição do ar é um dos grandes problemas da cidade de São Paulo. A maior fonte de poluentes é nossa frota de veículos. Os dados mais recentes apontam que há cerca de 1 carro para cada 2 habitantes. Os últimos dados mostram que a cidade de São Paulo possui cerca de 11 milhões de habitantes. Sem levar em consideração os habitantes das demais cidades da Região Metropolitana de São Paulo (cidades do ABC, Osasco, Guarulhos,etc). Muitos dos moradores dessas cidades trabalham em estudam na cidade de São Paulo.

Região Metropolitana de São Paulo. A cidade de São Paulo é a representada pelo número 1.

Eu não tenho carro e muitos amigos meus também não tem. Isso indica que muitas famílias possuem mais de 1 carro. O argumento utilizado para manter dois veículos é normalmente o mesmo: o rodízio. Com o rodízio, todos os carros ficam impedidos de circular em um dia da semana. Então, é prática comum que muitas pessoas tenham dois carros. Esses veículos emitem poluentes estranhos à composição da atmosfera. De acordo com a OMM (Organização Meteorológica Mundia, cuja sigla em inglês é WMO), a definição de poluentes atmosféricos é a seguinte:

Poluentes atmosféricos são substâncias (gases e partículas) que, quando presentes na atmosfera em quantidades suficientes, podem ser prejudiciais a pessoas, animais, plantas ou materiais, e que possam interferir na qualidade de vida. Alguns poluentes atmosféricos comuns são dióxido de enxofre (SO2), óxidos de nitrogênio (NOx), ozônio (O3) e outros gases oxidantes, monóxido de carbono (CO) e material particulado (MP). A atmosfera também contém relativamente grandes quantidades de dióxido de carbono (CO2) resultante da queima de combustíveis fósseis e outras práticas associadas ao uso do terra. Esta quantidade de CO2 vem crescendo nos últimos anos, e pode ser que a WMO passe a considerá-lo como um poluente, uma vez que está associado às mudanças climáticas, sendo portanto prejudicial.

E os principais poluentes emitidos pelos veículos são:

Poluentes primários: monóxido de carbono (CO), óxidos nitrogênio (NO e NO2, genericamente tratados por NOx), material particulado (fuligem, tratado na literatura pela sigla MP), dióxido de enxofre (SO2)

Poluentes secundários (que formam-se na atmosfera em reações químicas, que tem como ingrediente os poluentes primários): Ozônio (O3) troposférico.

E os principais problemas que esses poluentes podem causar são:

- Danos ao patrimônio: o material particulado se acumula em roupas, tecidos de cortinas e em pinturas, sujando e deixando um aspecto desagradável. Os óxidos de nitrogênio e de enxofre podem danificar mármore e detalhes finos em construções.

- Danos a saúde: o principal dano e o grande responsável pela grande preocupação com o tema. Irritações na pele, nos olhos e nas vias respiratórias superiores, além de episódios de asma, bronquite e outras doenças crônicas das vias respiratórias inferiores.

Apenas como complemento: há alguns anos, preparei uma aula sobre poluição do ar e fiz um levantamento do tipo de poluente e do impacto que pode causar. Veja no quadro abaixo:

- Dano a vegetação: SO2 , NOx, O3 e fluoridos

– Corrosão a metais: SO2, H2S e HCl

– Dano a tecidos, pintura e borracha: SO2, H2S, NOx, O3

– Faz materiais ficarem sujos, aumentando custos em limpeza e pintura: partículas de poeira (poeira urbana – resultado da queima incompleta de combustíveis –  e rural)

– Efeitos climáticos: CO2, clorofluorcarbonos, partículas de aerossol

– Impactos na camada estratosférica de ozônio: clorofluorcarbonos, NOx, N2O, CH3Cl

– Acidificação da água de chuva:  SO2, NOx, vapor de ácido nítrico (NHO3), sulfato e nitrato particulado

É evidente que a principal preocupação é o problema da saúde pública. De acordo com algumas pesquisas, a poluição é responsável pela redução de 7,3 meses de vida na população de uma cidade poluída, como São Paulo. Ainda de acordo com este mesmo pesquisador, a poluição causa danos aos bebês ainda na barriga das mães.

A poluição atmosférica é um sério problema de saúde pública. Durante os meses mais secos, aumentam os números de internação por alergia e por crises de asma e bronquite. As chuvas ajudam a depositar os poluentes, removendo-os da atmosfera.

Quando chove, o ar fica mais limpo. Quando venta bastante, os poluentes dispersam-se. No período de seca ou em situações de pouco vento, os poluentes ficam mais tempo suspensos. O principal vilão para os problemas respiratórios é um poluente chamado Material Particulado (muitas vezes abreviado na literatura por MP). Material particulado é  uma denominação geral para partículas em suspensão na atmosfera. Normalmente, a sigla MP vem acompanhada por um número, que indica o diâmetro aproximado dessas partículas. Por exemplo: MP2,5 é o material particulado  com tamanho da ordem de 2,5µm. Leia mais sobre o assunto, aqui.

Quanto menor for o diâmetro dessas partículas, maiores as chances de elas penetrarem nas vias respiratórias inferiores (parte inferior da traquéia, brônquios, bronquíolos, alvéolos e pulmões). Quando penetram nas vias respiratórias inferiores, podem causar danos severos. De acordo com pesquisas do Prof. Paulo Saldiva, o pulmão de um morador da cidade de São Paulo possui danos semelhantes aos de uma pessoa que fume 2 cigarros por dia. Portanto, a poluição do ar pode matar.

Destaco uma reportagem que li há alguns anos e separei para dar aulas. Os fiscais do trânsito de São Paulo, apelidados de ‘marrozinhos’ devido a cor de seus uniformes, correm riscos de saúde semelhante ao dos fumantes. Para ler a reportagem, clique na imagem abaixo para que ela se amplie. Ou leia aqui.

E o que as autoridades tem feito para eliminar ou pelo menos mitigar um problema tão sério? Na minha opinião, nada. Creio que é bastante evidente que se os investimentos em transporte público fossem maiores, o problema da poluição do ar reduziria muito. Muitas pessoas usam carros para se locomover porque sentem-se desconfortáveis nos transportes públicos, que não são de boa qualidade ou não alcançam todos os moradores da cidade com a mesma eficácia. O Metrô, que provavelmente é o meio de transporte mais eficaz da cidade, atinge poucos moradores. Mesmo se expandirmos a rede e levarmos em consideração os trens da CPTM, o sistema é insuficiente e ineficiente, pois ouvimos notícias de lentidão e falhas o tempo todo. Quem mora na cidade de São Paulo há muitos anos sabe que desde o início de funcionamento do sistema, a expansão da rede de Metrô tem sido bastante lenta. Recentemente, circulou pelo Facebook uma ilustração que comparava o tamanho da rede dos metrôs de diversas cidades do mundo. O metrô da cidade de São Paulo e da cidade do Rio de Janeiro são ridiculamente pequenos, perto dos metrôs de outras grandes cidades.

Essa imagem tirada da página do Facebook do jornal O Globo compara o metrô carioca com o de algumas cidades pelo mundo.

Mapa do metrô paulistano.

Mapa do transporte metropolitano de São Paulo, que leva em consideração também os trens da CPTM. Não se enganem: apesar do aparente grande número de estações, não atende bem todos os moradores da cidade e da RMSP.

A importância do Metrô é tão grande, que um estudo recente da UNIFESP aponta que caso a cidade de São Paulo ficasse um ano sem metrô, a concentração de poluentes aumentaria em 75%, e o número de mortes por problemas cardiorrespiratórios amplificaria em 14%. Esses números representariam um custo de US$ 18 bilhões ao município. Esse ano é ano de eleições. Prestem atenção nas propostas de seus candidatos. E você que vota em São Paulo: opte por candidatos que tenham projetos de melhorias para o sistema de transportes. Escolha um bom candidato, com bons projetos e continue exercendo seu papel de cidadão, cobrando o cumprimento das promessas e cobrando por melhorias no transporte, que representam enormes melhorias na qualidade de vida.

Após muito estudo, verificou-se que os poluentes atmosférico podem oferecer risco mínimo a população, desde que estejam presentes no ar em concentrações mínimas. É provavelmente o tipo de cenário que moradores de cidades bem menores tem a sorte de vivenciar. A Organização Mundial da Saúde (OMS) possui uma tabela com os valores aceitáveis de poluentes atmosféricos. São os limites. Acima desses valores, a concentração de poluentes já passa a oferecer risco para a saúde.

O monitoramento da poluição do ar aqui em São Paulo-SP (que provavelmente  é a cidade com o ar mais poluído do Brasil) é a CETESB. A CETESB possui pontos de medição em diversos bairros de São Paulo, em cidades da RMSP e em cidades do interior paulista. Nesses pontos de medição, são medidos os seguintes poluentes:

Fonte: CETESB. O mapa é de 2005. Pode ser que mais estações tenham sido instaladas. Em caso de consulta para trabalhos acadêmicos, entre em contato com a CETESB

Os valores medidos são comparados com tabelas de referência.  Entretanto, os limites da CETESB são menos rígidos que os limites da OMS. A Rede Globo, em seu projeto RespirAR, reforçou muito essa questão: é preciso adotar os limites rígidos da OMS, pois só assim, teremos real dimensão do problema da poluição do ar. E tendo um real conhecimento sobre a poluição do ar, poderemos tomar decisões que ajudarão a minimizar ou resolver parcialmente este problema.

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3 Comments

  1. Oi Samantha! Eu sou o autor da foto do céu poluído da cidade. Legal ver ela por aqui e suas explicações. Parabéns pelo trabalho. Grande abraço

    • Olá Tiago!
      Poxa, fico super feliz em ter o autor desta foto como comentarista deste tópico. A foto foi muito feliz e super bem tirada, mostrando o fenômeno com muita clareza. Parabéns!
      Abraço.

      • Valeu Samantha! Se puder fique de olho no caderno Viagem desta terça-feira (04.09).

        matéria bem bacana com textos e fotos meus.
        Grande abraço

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