Sensacionalismo meteorológico



Mencionei aqui que estamos tendo dias muito secos em boa parte da Região Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Sempre menciono dados de São Paulo-SP, pois eu tenho contato diário com esses dados e naturalmente acabo falando mais sobre eles. Mas ao longo do post, vocês vão compreender que o que vou dizer vale para qualquer localidade do país.

Hoje[1] foi um dia especialmente seco. O valor mínimo registrado hoje foi 14% na Estação Meteorológica do IAG-USP . Não é o recorde histórico absoluto dessa estação (que é de 12% e ocorreu em 23 de novembro de 1968) mas é um valor que se iguala ao recorde mensal de agosto (em 31/ago/1963 também foi registrado um valor mínimo de 14%). Ou seja, é um valor baixo, um valor de destaque estatístico e é um índice preocupante e que exige cuidados paliativos para evitar efeitos mais graves na saúde.

Quero aproveitar esse caso para fazer um desabafo. Toda vez que acontece algo de destaque estatístico na meteorologia (chuvas em excesso, chuvas em falta, frio, calor, etc), a imprensa enlouquece. E fica doida por dados, perguntando informações aqui e ali. Eu naturalmente também fico super empolgada, faço cálculos, analiso a relevância daquele dado, etc. Tento fazer o possível para dar uma informação correta e de qualidade. Mas eu percebo que a empolgação de algumas pessoas é mal direcionada. É que no desespero de noticiar um recorde, vale um recorde não-significativo do tipo “é o mês de agosto mais seco dos últimos dois anos” e também valem comparações absurdas. Por comparações absurdas, me refiro a misturar dados de Estações Meteorológicas, fazendo climatologias sem sentido.

Na minha cabeça de cientista, não faz sentido algum dizer que a chuva medida no Mirante de Santana é a mesma coisa que a chuva medida no Parque do Estado. São pontos diferentes e completamente distantes entre si. Para quem não é de São Paulo-SP, essas duas localidades que mencionei possuem estações meteorológicas (a primeira é do INMET e a segunda é do IAG-USP). Só que o primeiro ponto está na Zona Norte e o segundo na Zona Sul! São bem distantes entre si, como vocês podem ver no mapa abaixo.


Visualizar Mirante de Santana e IAG em um mapa maior

Eu já atendi repórteres que ficaram indignados quando digo que determinado total de chuva é normal para uma determinada época do ano, por exemplo. Eles querem manchete! Querem impacto! Mas não é assim. Apesar de gostar muito de recordes, procuro manter a cabeça tranquila e não me empolgar com o fato. É necessário fazer uma análise verdadeira e justa sobre o que está acontecendo. Até onde sei, a função do jornalista não é criar rumores sobre fatos, mas sim informar e esclarecer. E minha função é usar o meu conhecimento para ajudar o jornalista a contar a história.

Além disso, no desespero de noticiar informações, vejo gente repassando dados de estações automáticas que muitas vezes não estão bem calibradas. Ou que foram mal instaladas. Ou seja, o profissional (e aqui me refiro a colegas de profissão e a jornalistas) não tem ideia das condições em que o dado foi obtido e repassa a informação como se estivesse totalmente consistente. Isso é assustador!

Eu dou até um nome para isso: chama-se sensacionalismo meteorológico. O desespero por recordes é tamanho que cuidados básicos ao lidar com dados são deixados de lado. É como aquele âncora da TV que no desespero por um furo de reportagem, faz julgamentos precipitados e fala mais do que deveria.

Como disse uma colega minha: “não importa o valor, o que importa é que as pessoas estão lotando os hospitais por conta da baixa umidade relativa”. Apesar de achar que o valor – um valor consistido – importa sim, eu concordo com minha colega. Acho que temos que nos preocupar com o impacto da informação. Sendo assim, a informação e o esclarecimento são muito mais importantes que recordes. Veja bem, o recorde absoluto são os 12% que mencionei acima. Só que com 14% os efeitos negativos na saúde são praticamente os mesmos, já que a diferença entre 12% e 14% é muito pequena.

Esse post é um alerta e um desabafo. Espero que ninguém sinta-se ofendido com ele, pois não é essa a intenção. Não quero fazer julgamentos sobre o trabalho de ninguém.

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[1]Pessoal, escrevi esse post ontem (21/08/2012) mas ele só foi ao ar hoje (22/08/2012). Portanto, quando menciono ‘hoje’ no texto, me refiro a 21/08/2012. Confuso mas acho que deu para entender… 🙂