Aquecimento global: menos mito e mais ciência



Neste post, vou discutir esta reportagem. Leiam minhas impressões abaixo. Destaquei alguns trechos da reportagem ao longo de minhas explicações. Meu objetivo é fazer uma analise dos principais pontos abordados ao longo deste importante artigo do Jornal da USP. 

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Depois do Prof. Ricardo Felício aparecer em alguns programas bastante populares de TV falando absurdos como “o efeito estufa é uma falácia”, quando sabemos que o efeito estufa é o que mantem a temperatura média terrestre adequada para a vida como conhecemos, fico muito feliz em ler essa reportagem. Logo que li, tratei de compartilhá-la em nossa página do Facebook. Mas senti que o compartilhamento da notícia não era suficiente. Por essa razão, faço alguns comentários em seguida.

Os Prof. Tércio Ambrizzi e o Prof. Paulo Artaxo. A reportagem destaca a quantidade de pesquisadores envolvidos em trabalhos sobre mudanças climática. Muitas bolsas de pesquisa são fornecidas anualmente, por agências de fomento sérias, para que novos pesquisadores possam estudar o tema.

A reportagem também menciona o Incline, que é um site que agrega as diversas linhas de pesquisa relacionadas às mudanças climáticas, feitas na USP. No site, você pode conferir as principais linhas de pesquisa relacionadas com o tema. Recomendo o site a todos os jornalistas que buscam um determinado profissional para a redação de uma notícia sobre o tema. Vamos dar ibope e créditos a quem realmente merece e a quem realmente faz ciência no país. Destaco o seguinte trecho, que nos convida a fazer uma reflexão intuitiva e bastante lógica sobre o assunto:

Considerando apenas o número de pesquisadores da USP e suas diferentes áreas de atuação, será que não passamos da fase de discutir se o nosso planeta está aquecendo – o que é comprovado por diversas fontes de dados instrumentais de diferentes instituições internacionais desde o século 19 – para uma discussão do que devemos fazer com os avanços do conhecimento que estamos adquirindo ao longo dos últimos anos? Dados paleoclimáticos têm indicado que as concentrações de CO2, um dos gases de efeito estufa, estão quase 40% acima do observado nos últimos 800 mil anos. Será que o homem não tem alguma contribuição nisso?

A matéria também fala de alguns acontecimentos atípicos no clima, muito noticiados pela mídia. Os pesquisadores da área de mudanças climáticas tentam entender porque certos fenômenos estão acontecendo. Abaixo o trecho que destaca estes fenômenos:

Ondas de calor na Europa, com temperaturas recordes comparadas a dados dos últimos 500 anos, o furacão Catarina, na costa brasileira, nunca antes observado, degelo recorde do Ártico em 2012, enchentes e secas mais frequentes que as registradas no passado, entre outros fenômenos, não sugeririam uma resposta do sistema terrestre ao aquecimento da atmosfera que vem ocorrendo ao longo dos últimos 40 anos? A presença de vetores que transmitem doenças como malária e dengue, que têm encontrado um ambiente quente e úmido em regiões onde antes não existiam, tem mostrado evidentes sinais de avanço e impactos na saúde. Estudos de pesquisadores do Incline mostram claramente que a frequência de eventos extremos na cidade de São Paulo tem aumentado, inclusive durante os períodos mais secos do inverno, além de mudanças já detectadas nas estações chuvosas do nosso país.

Sobre as mudanças na cidade de São Paulo, comentei sobre o assunto aqui.  A matéria destaca também um grande problema no discurso de algumas pessoas: se eu não entendo, logo não pode ser verdade. Muitas pessoas não estão familiarizadas com certos temas e acabam atribuindo acontecimentos ao sobrenatural. A ignorância é um terreno fértil para as pseudociências e para alegações falsas. Nesse blog, tento de alguma maneira ajudar a sanar a ignorância sobre meteorologia.
Já expliquei brevemente sobre modelos de previsão de tempo e clima. Podemos chamar esses modelos de modelos numéricos, já que são baseados em equações matemáticas. Muitas pessoas não conhecem esses modelos, não sabem como a previsão do tempo é feita e acabam desacreditando seus resultados. A reportagem ressalta que diversas áreas da ciência faz uso de modelos numéricos. No processo de desenvolvimento e produção de um automóvel, por exemplo, os modelos numéricos ajudam a prever como será o gasto de combustível, como será a resposta ao atrito do vento, como o motor se comportará em uma certa velocidade, etc. Através dos modelos numéricos, podemos simular muitos acontecimentos da natureza. Basta programar as equações físicas conhecidas e que descrevem aquele fenômeno.

As ciências atmosféricas (uma forma mais genérica de se referir a meteorologia), também utiliza esses modelos numéricos (lembram? falei aqui). Esses modelos ajudam a simular o clima passado, presente e futuro. A vantagem de simular o passado e o presente é que podemos comparar as simulações com os dados medidos (por estações meteorológicas, satélites, bóias oceanográficas, radares, etc). Fazendo essa comparação, podemos saber se o modelo está bem calibrado, se está funcionando bem. Após a calibração e verificação do modelo, podemos utilizá-lo para simular o clima futuro

É claro que os modelos numéricos não são definitivos e nem são 100% precisos. O conhecimento científico e a tecnologia dos supercomputadores evoluem e a cada dia os modelos são aprimorados. Uma das coisas mais interessantes sobre ciência é que nada é definitivo: mais conhecimento sempre pode ser agregado para melhorar ainda mais nossa qualidade de vida. Vou dar um grande exemplo sobre isso: já perguntaram para seus pais e avós como a previsão do tempo era antigamente? Muitos dirão que a previsão ‘só errava’. A meteorologia infelizmente era motivo de piada. Depois da década de 70, com a evolução dos computadores (que melhoraram a performance dos cálculos dos modelos numéricos) e com mais medições (com a introdução de satélites meteorológicos e radares), a qualidade da previsão do tempo deu um salto gigantesco. Atualmente é possível utilizar a previsão do tempo para planejar viagens, atividades ao ar livre, atividades de logística e transporte, etc.

Mencionei apenas o exemplo da previsão do tempo, mas podemos ver como a ciência melhora nossa qualidade de vida em outros pequenos e grandes detalhes do cotidiano. Telefonia celular, novos remédios e técnicas para curar doenças ou melhorar a qualidade de vida dos doentes, carros econômicos, meios de transporte modernos, etc. Quem critica o conhecimento científico, não faz ideia que a TV em que a novela é transmitida é obra de anos de desenvolvimento científico.

Agora vou destacar a parte mais interessante da reportagem. O momento em que os autores dão um ‘tapa de luva pelica’ (como dizia minha querida avó). Um innuendo incrível:

Ainda assim, a mídia com frequência dá espaço a cientistas que negam a existência do aquecimento global devido à influência do homem, chamando-os de “céticos”. No entanto, esse termo é empregado erroneamente, pois todo bom cientista é um cético por definição, uma vez que procura entender a natureza através da pesquisa científica. Para responder às questões levantadas, o bom pesquisador busca suas respostas em dados observacionais e formula hipóteses, além de utilizar, inclusive, modelagem numérica para testar suas teorias. A todo esse procedimento damos o nome de método científico. Uma vez realizada a pesquisa, a mesma é submetida a revistas preferencialmente internacionais, para que seja primeiramente avaliada por outros pesquisadores e posteriormente publicada para orientar avanços da ciência.

Como eu mencionei anteriormente, a ciência não é algo ‘fechado’. Novos conhecimentos sempre são adicionados, a medida que os pesquisadores obtém novos dados, nova informações e estabelecem novas teorias. Aqui quero fazer uma observação bastante importante. A palavra teoria dentro do contexto científico tem um uso completamente diferente do contexto popular. Em sua aparição em um programa popular, o Prof. Ricardo Felício cometeu grandes equívocos ao mencionar as palavras teoria e hipótese.

No contexto científico:

Uma definição científica de teoria é a de que ela é uma síntese aceita de um vasto campo de conhecimento, consistindo-se de hipóteses necessariamente falseáveis – mas não por isto erradas, dúbias ou tão pouco duvidosas – que foram e são permanentemente e devidamente confrontadas entre si e com os fatos científicos, fatos estes que integram um conjunto de evidências que, juntamente com as hipóteses, alicerçam o conceito de teoria científica. As hipóteses, em casos específicos, devido à simplicidade e ampla abrangência, podem ser elevadas ao status de leis.[1]

No contexto popular:

A palavra teoria remete a algo que “é fácil de dizer e difícil de realizar” [2].

Notaram as diferenças? Teoria no contexto científico é algo muito sério e bastante elaborado. O cientista não pode simplesmente afirmar uma hipótese: ele precisa prová-la através de seu trabalho.

Infelizmente, os tais ‘negacionistas do aquecimento global‘ tem contribuído muito pouco para o conhecimento sobre o clima. O Prof. Ricardo Felício foi a programas de TV e não falou de ciência. Com muito deboche, muita ironia e um pouco de carisma, disse coisas sem prová-las e prestou um grande desserviço ao admitir inúmeras vezes que o aquecimento global era uma falácia. Além disso, fez pouco caso de assuntos sérios como o desmatamento e degradação da camada de ozônio. Espero que os jornalistas deem espaço a pesquisadores sérios e que podem acrescentar conhecimento ao debate.

Meu grande medo é este ‘pouco de carisma’ que o Prof. Ricardo Felício possui. Esse carisma lhe garante espaço no meio televisivo, um meio em que a aparência é muito valorizada.  Mas devo lembrar que o conhecimento é muito mais importante que a aparência.

Encerro este post da mesma maneira que a reportagem comentada:  “o aquecimento global deve ser tratado como ciência e não como mito”. E essa ciência deve ser amplamente divulgada e acessível a todos.

Referências
Jornal da USP, 10 de setembro de 2012.
[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria

[2] http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=teoria