Death Valley ‘rouba’ recorde líbio de maior temperatura já registrada no mundo



Lembram quando escrevi aqui sobre os recordes de temperatura já registrada? Pois é, quando eu escrevi isso, eu não sabia que estava correndo uma história por aí de que o maior recorde de temperatura seria  de 56,7°C  e teria ocorrido em 10 de julho de 1913 no Death Valley, na Califórnia.


Visualizar Furnace Creek Ranch, Death Valley em um mapa maior

É gente, quando escrevi o post sobre recordes de temperatura , eu não sabia disso, porque foi hoje que saiu uma notícia de que a WMO determinou que o recorde líbio não vale mais. Tanto que na ocasião mostrei dois recordes de temperatura mundiais, que vocês podem rever abaixo:

Recordes de maior temperatura. [1]

Reparem na tabela acima em que destaco dois valores de recordes mundiais: 57,8°C (13/09/1922, na Líbia) e 58,0°C (10/08/1933 no México). Os dois valores destacados são maiores do que o valor de 56,7°C do dia 10/07/1913 no Death Valley. Acontece que de acordo com informações do The Weather Channel, o valor registrado na Líbia está sendo contestado. A Organização Meteorológica Mundial (World Meteorological Organization, WMO), informou que o recorde líbio foi considerado inválido.

A investigação que invalidou este recorde foi conduzida pelo Centro Nacional Líbio de Meteorologia (Libyan National Meteorological Centre) e foi direcionada pela Comissão de Arquivo Global de Climatologia (Commission of Climatology World Archive), que é uma divisão da WMO[2]. Os fatores que levaram os cientistas desta comissão a invalidar o recorde líbio foram:

– Problemas na instrumetação;

– Observador meteorológico inexperiente;

– O local de observação estava sobre uma superfície semelhante a asfalto, que não representa o solo nativo. A região de El Azizia é um deserto e convenhamos, uma camada de asfalto não representa em nada um deserto, pois esquenta muito mais que a areia do deserto.

– O valor medido na localidade não estava em concordância com o das localidades vizinhas, que estavam mais frias.

– O valor medido não acompanhava os valores das horas anteriores

– Há indícios de que a Estação Meteorológica de El Azizia mudou de localidade algumas vezes, o que não deve ser feito. Estações meteorológicas devem sempre ficar na mesma localidade, de acordo com a WMO

– Técnicos com pouca experiência e instrumentos não padronizados podem ter sido utilizados no local

Esses fatores fizeram com que Death Valley ‘tomasse’ o recorde da Líbia. Essa nova informação foi destaque na imprensa de diversos portais estrangeiros [3]. O valor de 10/08/1933 do deserto de Sonora (58,0°C) não é oficial.

A WMO tem uma série de especificações para que as medidas meteorológicas sejam feitas corretamente. Existe um guia que explica como a medida de cada variável meteorológica deve ser feita. Para ser cadastrada na WMO, a Estação Meteorológica precisa seguir essas recomendações. Se elas não forem seguidas, seus valores podem ser desconsiderados. E foi exatamente o que aconteceu com a medida feita na Líbia. Depois de muita investigação, verificou-se os pontos listados acima e por isso o recorde foi desconsiderado.

O calor no Death Valley é realmente muito grande. De acordo com os meteorologistas, de junho a setembro, as máximas costumam chegar a 43,3°C. De julho a agosto, as mínimas frequentemente oscilam entre 25°C e 32°C!!! Ou seja, o dia já começa muito quente.

O verão de 1996 teve máximas superiores a 48,9°C durante 40 dias. Cinco anos antes, no verão de 1991, foram 154 dias consecutivos com temperaturas superiores a 37,8°C! Eu, que adoro frio, não gostaria de morar num lugar desses. E eu tenho certeza leitor, que se você gosta de calor, também não gostaria de morar num lugar tão quente assim.

Esses valores que mencionei são valores da temperatura do ar, aquela fornecida na previsão do tempo e divulgada pelos meios de comunicação. Mas vocês já devem ter observado que a temperatura do solo por volta do meio-dia é bem maior que a temperatura do ar. Quem já andou descalço no asfalto ou na areia da praia num dia muito quente sabe disso.

Agora imaginem que em 15 de julho de 1972, o termômetro que mede a temperatura na superfície do solo do Death Valley marcou 93,4°C. Sim gente, quase a temperatura de ebulição da água! A temperatura máxima do ar nesse dia foi  53,3°C.

Mas porque o Death Valley é tão quente?

Em primeiro lugar, devo contar para aqueles que não sabem inglês: Death Valley significa Vale da Morte. Olha, não procurei saber porque este lugar tem esse nome nada simpático, mas certamente as temperaturas elevadas devem ter algo a ver com o nome.

O local onde o recorde foi obtido chama-se Furnace Creek. E para aqueles que não conhecem inglês, devo contar também: a tradução é algo como ‘Riacho da Fornalha‘. O Furnace Creek está 57m abaixo do nível do mar. O ar esquenta quando é forçado a descer, o que colabora com as altas temperaturas.

O Death Valley é um deserto. A precipitação média anual é de apenas 57,4mm. Apenas para vocês compararem, a precipitação média anual em São Paulo-SP é de aproximadamente 1300mm. Existem locais na Amazônia onde chove mais de 2500mm/ano. Em apenas um dia com tempestade de verão em diversas localidades brasileiras pode tranquilamente chover mais que 60mm.

Em alguns anos (1953 e 1929), nenhuma chuva foi registrada no Death Valley. O mês mais chuvoso do local é fevereiro, com média mensal de 12,5mm.A evaporação no local é de aproximadamente 3800mm/ano. Como vocês podem ver, a evaporação anual é muito maior que a quantidade total de chuva! E essa característica é um dos pontos que distingue um ambiente desértico.

Apesar de ser um deserto, chuvas torrenciais já atingiram a região. De acordo com informações do TWC, em 15 de agosto de 2004 chuvas torrenciais causaram uma enchente de quase 3m no final da tarde. Essa enchente foi rsponsável pela destruição de carros e de estradas e duas pessoas morreram. Outras enchentes também foram documentadas nos anos de 1984 e 1976

Notas:

[1] National Climatic Data Center,NOAAList of Weather Records, Wikipedia, the free encyclopedia; INMET

[2] http://journals.ametsoc.org/doi/abs/10.1175/BAMS-D-12-00093.1;  World Meteorological Organization Global Weather & Climate Extremes

[3] AccuWeather.com; UsaToday.com; Arizona State University; The Guardian

Informações do The Weather Channel.

Destaque do assunto no Diário do Grande ABC

Destaque na Veja.

Curiosidade: de acordo com o censo norte-americano de 2010, 24 pessoas moravam em Furnace Creek. Corajosos…