Crônicas de Samantha – O Homem do Abacate

Muitas profissões exigem um contato com o público. Nem todos meteorologistas precisam lidar com o público diretamente. Muitos trabalham em laboratórios e passam muito tempo em meio a computadores. No entanto, lidar com o público é uma habilidade importatíssima, mesmo que você não precise fazer isso sempre. Os meteorologistas  que trabalham em contato com o público mesmo que indiretamente através de jornalistas, tem muita história pra contar.

Em meu trabalho,  muitas vezes atuo como palestrante ou atendo pessoas interessadas em dados meteorológicos. É preciso ter muita paciência. Acontece de tudo: há pessoas que confudem público com gratuito (isso exigiria um post enorme), crianças bagunçando enquanto dou a palestra, etc. Lido com o público com muita paciência e certa satisfação, porque se eu fosse fazer um balanço, eu tive mais experiências positivas do que negativas.

Vou contar para vocês a história chamada O Homem do Abacate.

Trabalho em uma grande área verde, que impressiona as pessoas que por aqui passam. Em São Paulo, noto que moradores de alguns bairros são carentes de parques e praças. E quando chegam em áreas verdes, ficam meio enlouquecidos. Principalmente crianças, elas correm descontroladamente, lembrando um certo Cocker Spaniel desconrolado que meu irmão tinha.

Um dia me ligaram da portaria. Avisaram que uma pessoa queria falar com algum meteorologista e queria subir de qualquer maneira. Eu era bastante inexperiente e deixei que a pessoa subir até a sala que trabalhava. Agitado e todo atrapalhado na escada, chegou um homem de meia idade, alto, magro, com cabelo escovinha e pinta de Dinho Ouro Preto. Ele estava com a esposa, que vinha atrás e subia a escada em velocidade segura.

O homem não me deixava falar. Ele queria dados. Dados. Muitos dados. Ele falava tão depressa que eu não conseguia acompanhar, mas vou colocar as palavras-chave que consegui capturar:

telhado; todo destruído; ventania; seguro; dados; dados; dados

Pedi a data de interesse e fui verificar se nosso Anemógrafo (instrumento que mede a velocidade e a direção do vento) tinha medido algum vento intenso naquele dia. Mostrei o diagrama ao homem, que ficou ainda mais agitado e começou a falar descontroladamente:

– QUERO.

bateu na mesa.

– É ISSO QUE EU QUERO.

Eu expliquei que não era bem assim. Ele não poderia levar aquele diagrama, mas faríamos um documento para ele. Ele teria que pagar uma taxa simbólica para a instituição e poderia vir buscar o laudo quando o pagamento fosse confirmado. Ele começou a tirar a carteira do bolso e expliquei que o pagamento não era feito comigo e sim na tesouraria.

Sem qualquer tipo de cerimônia, o homem sentou na cadeira de trabalho do colega de plantão que tinha se ausentado por alguns minutos e começou a girá-la, dizendo que precisava falar com a tesouraria URGENTEMENTE. Passei contato do tesoureiro e sem qualquer solicitação, ele pegou o telefone da sala e ligou. O tesoureiro, rapaz simpático do outro lado da linha, certamente explicou que ele deveria fazer um depósito e mandar o comprovante para ele via fax. O homem vociferou gravemente, dizendo que fax era uma coisa ultrapassada. Foi bastate ríspido com o tesoureiro, o que me fez telefoná-lo horas depois pedindo desculpas.

A esposa do homem ficava quieta, como um anexo sem graça. O homem finalmente compreendeu que não sairia dali com o laudo. Apertou minha mão em agradecimento e desapareceu pela escada. Sua Mercedes, um desses modelos antigos – mas que é Mercedes, conforme indicava o tótem de adoração no capô – , estava lá em baixo o esperando. Ele entrou na Mercedes, andou por 5m e observou alguns abacateiros. Ele desceu do carro, pegou um guarda-chuva desses enormes que as pessoas tem no carro e numa cena patética começou a pular e sacodir o guarda-chuva, na esperança de que um abacate caísse.

E todos torciam para que caísse em sua cabeça, digam amém.

Sem qualquer tipo de cerimônia DE NOVO, ele chamou um dos funcionários de uma obra terceirizada e solicitou a ajuda. Provavelmente impressionados com o totém brilhante no capô, ajudaram. Vai que é alguém importante, não é mesmo? O pedreiro estava se aproximando quando um colega que assistia a cena ficou indignado com a insolência do cover do Dinho Ouro Preto e perguntou-lhe se alguém havia dado autorização para pegar os abacates.

E ele saiu e nem apareceu para buscar o tal laudo muito importante.