Resenha de Sobrevivi para contar – Immaculée Ilibagiza



Uma imagem marcou minha pré-adolescência nos anos 90. Era um homem visivelmente perturbado, com uma camiseta verde, portando um facão que ele balançava freneticamente no ar. O homem tinha um sorriso horrível nos lábios. Não compreendi na época, mas ele convocava os colegas para a matança.

Era ano de 1994. O homem que segurava o facão era provavelmente um extremista hutu, que estava procurando mais compatriotas tutsis e hutus moderados para matar. Hutus e tutsis são etnias que vivem em Ruanda, um pequeno país africano que foi palco de um massacre: mais de 500.00o pessoas foram assassinadas por extremistas hutus.

Os impactos do massacre podem ser observados nesta curva de evolução da quantidade de habitantes de Ruanda (no eixo X, em milhões). Repare essa depressão na curva, na segunda metade dos anos 90. Fonte: FAOSTAT, 2004 [1]

As diferenças físicas entre hutus e tutsis são bem mínimas. Concluí isso pelo que pesquisei e por uma cena do filme Hotel Ruanda, em que o personagem do ator Joaquin Phoenix se interessa por duas moças muito atraentes que estão no saguão do hotel que ele estava hospedado em Ruanda. Ele pergunta para elas se elas são hutus ou tutsis e ele não vê diferença alguma. Talvez sejam dessas diferenças físicas que nós ocidentais brancos não estamos muito acostumados a perceber, como a diferença entre chineses e japoneses, por exemplo. Na verdade, qualquer diferença física não torna ninguém melhor ou pior, sabemos disso.

O hotel que mencionei é o cenário do premiado filme de 2004, que conta a história real de Paul Rusesabagina. Paul era funcionário de um hotel. Era hutu e sua esposa era tutsi. Paul abrigou mais de 1000 pessoas no hotel que trabalhava, salvando suas vidas do massacre.

Outra história de sobrevivência é a do livro Sobrevivi Para Contar – O Poder da Fé me Salvou de um Massacre (Left to Tell: Discovering God Amidst the Rwandan Holocaust). O livro é uma autobiografia do período em que a então estudante universitária Immaculée Ilibagiza (que é tutsi) ficou abrigada no banheiro da suíte da residência de um pastor. O pastor, que se não me engano era hutu, salvou a vida de Imaculée e de outras 6 mulheres, escondendo-as nesse banheiro. Elas ficaram presas no banheiro por quase 3 meses, sobrevivendo com pouquíssima comida e água. Não podiam fazer nenhum barulho, já que as turbas de hutus extremistas invadiam as residências procurando por tutsis escondidos. Imaculée conta que seus vizinhos e amigos hutus, outrora pessoas amigáveis e que frequentavam sua casa, participaram dos assasinatos. Immaculée perdeu quase toda família no massacre.

Atualmente a autora é uma renomada palestrante, que viaja pelo mundo contando sua história e falando de sua fé. Ela casou-se e mora nos Estados Unidos. Além disso, ela escreveu outros dois livros que não foram lançados no Brasil: Led by Faith: Rising from the Ashes of the Rwandan Genocide e Our Lady of Kibeho: Mary Speaks to the World from the Heart of Africa. Steve Irwin ajudou Imaculée a escrever sua história em inglês, já que o idioma oficial de Ruanda é o francês.

Vocês devem estar se perguntando de ondem veio essa rivalidade entre tutsis e hutus, já que fisicamente eles não são parecidos  e como Imaculeé disse, alguns assassinos eram amigos de sua família. Não sou especialista em história, muito menos em história internacional – essa moça sabe tudo de história- , mas o que pequisei na época que  li o livro é que sempre existiram dois grupos étnicos em Ruanda: hutus e tutsis.E esses grupos sempre foram rivais entre si. Antes da colonização européia (que ocorreu no final do século XIX), vigorava na região onde hoje é o país uma monarquia tutsi. A maior parte da mão de obra pesada era composta por hutus.

Os colonizadores europeus (belgas e alemães), carimbavam os documentos das pessoas com as palavras “tutsi” ou “hutu”. Na minha opinião, esse tipo de separação só ajudou a fomentar o ódio. Durante o colonialismo, a maioria dos proprietários de terra eram tutsis e os hutus faziam trabalhos pesados, ou seja, continuou a mesma coisa. A presença dos colonizadores fez com que o ‘poder’ dos tutsis sobre os hutus fosse reforçado.

Durante os anos 50, os hutus (que sempre foram maioria) se organizaram, criando um movimento de emancipação e publicando o Manifesto Hutu, alegando que a minoria tutsi tinha o monopólio do poder no país. Na década de 60, mais ou menos coincidindo com a independência do país, os hutus fizeram uma espécie de proclamação da república e colocaram um presidente hutu no poder, chamado Gregoire Kayibanda. O regime encabeçado por Kayibanda perseguia os tutsis, principalmente aqueles que estavam no poder antes da proclamação da república. Na década de 70, o general hutu Juvénal Habyarimana fez uma espécie de ‘golpe de estado’ e tomou o poder, matando Kayibanda. Ele prometeu progresso e melhorias para a população.

Com o tempo, a escassez de terras e a fraca economia nacional aumentaram ainda mais a velada rivalidade étnica. Em 1989, o preço mundial do café caiu muito. O café era o principal produto de exportação do país, o que levou a uma crise alimentar, fruto também da má gestão que era focada principalmente em gastos militares (lembrando que o presidente do país era um general) e que deixava de lado investimentos em infraestrutura e serviços públicos. [2]

Em outubro de 1990, a Frente Patriótica Ruandesa, composta por exilados tutsis expulsos do país pelos hutus com o apoio do exército, invade Ruanda pela fronteira com Uganda. Em 1993, os dois países firmam um acordo de paz. Cria-se em Ruanda um governo de transição, composto por hutus e tutsis.

Em 1994, tropas hutus foram treinadas e equipadas pelo exército ruandês. Enquanto isso, uma rede de TV controlada por facções hutus extremistas divulgava mensagens que propagandeavam o ódio entre os dois grupos étnicos. Essas mensagens incitavam a violência e o ataque aos tutsis. Armas eram distribuídas gratuitamente para as tropas tropas hutus. Jornalistas apuraram que parte do genocídio foi apoiado por grandes instituições financeiras, como Banco Mundial e FMI. Esse tipo de coisa me dá um nojo que mal consigo explicar. Quando eu tinha 12 anos e vi a cena do homem segurando o facão numa assustadora posição de ataque, eu não podia imaginar a gravidade de tudo isso. Estou contando essas coisas para vocês terem uma ideia de como era o país que Imaculeé vivia antes do genocídio, para compreendermos o que levou pessoas comuns (bons vizinhos, como diz Immaculée em seu livro)  a tornarem-se assassinas.

É um excelente livro para compreender o genocídio sob o olhar de uma pessoa que conseguiu sobreviver para contar. Além disso, mostra como a fé pode ajudar uma pessoa a passar por momentos difíceis. Alguns colegas ateus podem discordar, mas há vários relatos sobre como a fé pode confortar e como ela pode ajudar a vencer dificuldades. Recomendo.

[1]http://faostat.fao.org/

[2] http://en.wikipedia.org/wiki/Rwandan_Genocide

P.S.: Livro recomendado para adultos e adolescentes

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