Compagni di merende: o primeiro meme italiano?

Não entrei pra máfia.

É que estou lendo um livro chamado O Monstro de Florença, que narra a história da investigação de crimes horríveis que ocorreram nas décadas de 60, 70 e 80 na região italiana da Toscana. O livro foi escrito por Mario Spezi e Douglas Preston. O primeiro é um renomado reporter policial italiano, que fez a cobertura de vários dos crimes ocorridos. O segundo é um escritor americano que viveu em florença por alguns anos no início dos anos 2000 e queria escrever um romance policial ambientado na cidade. No entanto, ao conversar com Mario Spezi, ele descobriu que a região tinha um serial killer cuja identidade ainda não havia sido descoberta.

Ainda não acabei de ler o livro. Estou exatamente na metade e pode ser que eu escreva uma pequena resenha a respeito. Posso adiantar que estou gostando muito, pois o livro também narra fatos sobre a história da região. Quem gosta da cultura italiana também vai gostar da narrativa. Agora preciso explicar o título do meu post.

Mario Vanni. Fonte: La Stampa

O simpático senhor acima é Mario Vanni. Ele foi convocado para ser testemunha durante o julgamento de Pietro Pacciani, um homem acusado de ser o Monstro de Florença. O julgamento ocorreu nos anos 90, embora os crimes tenham ocorrido nas décadas anteriores. O apelido do Sr. Vanni em sua vila era Torsolo, que significa ‘miolo da maçã’. Sabe aquela parte da maçã que sobra quando terminamos de comer? Então, o apelido do Sr. Vanni remetia a algo que não servia pra mais nada. Pobre Sr. Vanni.

Se não me engano, o sujeito era carteiro. E fico imaginando o tipo de figura que nos provoca alguma pena por ser extremamente atrapalhado e desajeitado. Imagino o pobrezinho entregando correspondências e encomendas nos endereços errados, perdendo cartas, etc.

Sr. Vanni conhecia o suspeito e foi convocado para falar sobre seu comportanto. Eles frequentavam os mesmos lugares e viviam na mesma região. Com medo de ser incriminado, Sr. Vanni decorou aquilo que deveria dizer durante o julgamento. Provavelmente a atrapalhada criatura ficou horas praticando isso na frente do espelho ou com algum colega de sua vila.

O julgamento inicia-se. O juiz faz as perguntas:

– Sr. Vanni, qual sua profissão?

Sr. Vanni responde, completamente nervoso e trêmulo:

– Eravamo compagni di merende

– Sr Vanni, qual seu nome completo?

Sr. Vanni responde novamente, completamente nervoso e trêmulo.

– Eravamo compagni di merende

Era tudo o que ele  conseguia dizer: “Eravamo compagni di merende”, frase que significa “éramos companheiros de lanche/piquenique/merenda”. A audiência riu descontroladamente. Até membros do juri riram. Como o julgamento foi televisionado, a frase do Sr. Vanni entrou para o léxico italiano. Compagini di merende é uma expressão para designar amigos que se reunem para fazer algo aparentemente inofensivo, mas  na verdade estão planejando alguma atividade criminosa.  A frase do pobre carteiro possui verbete na Wikipedia italiana. Talvez este tenha sido o primeiro meme italiano.

 

Se o julgamento estivesse ocorrendo agora, este senhor viraria uma celebridade instantânea na internet. Fico imaginando esta figura naqueles eventos chatíssimos de internet que ocorrem por aí. O impacto de sua frase seria ainda maior. Fariam camisetas com sua foto e sua célebre frase. Aliás, inserir uma expressão em seu próprio idioma não é para qualquer um. Achei que fosse apenas um feito da ficção, obra de Homer Simpson. Seria algo como o Vada a bordo, cazzo.

E por falar no idioma italiano [oi Rayol], achei a seguinte foto na página do Stephen King:

Camiseta maneiríssima, signore.