Falácias dessa vida: o frio e o desenvolvimento de um país



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Roubei a imagem acima do ótimo Classe Média Sofre, um tumblr que agrupa todo tipo de reclamação típica da classe média brasileira. Em certos posts, o conteúdo selecionado é pura implicância do criador da página, como por exemplo quando alguém reclama do trânsito apenas por reclamar. Por exemplo, alguém faz a simples observação: “Nossa, o trânsito está horrível”. Não vejo nisso um problema sério, pois ele apenas está constando que o trânsito está horrível e está informando isso para seus seguidores.

Mas enfim, eu sou chata e nunca vejo unanimidade em nada. Meus blogs favoritos são aqueles onde gosto de pelo menos 90% do é escrito. Os 10% restante podem ser pontos de vista dos quais discordo. Mas, se os 10% restantes apresentarem calúnia, preconceito ou incitarem a violência, serei obrigada a deixar de visitar o blog (apesar dos 90% legais). Há abordagens que realmente me incomodam e eu prefiro evitá-las.

Fim das divagações. Vamos falar da imagem que abre essa postagem. Como acompanho o Classe Média Sofre com alguma regularidade, noto que a associação Lugar Frio = País Civilizado é uma falácia sempre destacada por lá. Eu gostaria de entender o que passa na cabeça de uma pessoa que muito provavelmente julga-se brilhante por ter feito tal relação.

Opa, países da Escandinávia, Alemanha, Inglaterra, Canadá, E.U.A… possuem invernos rigorosos. E são países desenvolvidos, com PIB elevado, direitos civis bem consolidados, etc. Logo: Frio = País Civilizado. Ah, me enganei. Eu realmente duvido que aquele que faz a associação Frio = País civilizado consegue pensar em PIB, direitos civis, etc. País civilizado para pessoas assim significa apenas poder comprar suas quinquilharias a preços mais justos do que aqui no Brasil. Para dizer a verdade, tenho até medo de pensar o que um sujeito desses entende por civilizado. Pode ser que sua ideia de civilizado (ou um dos 99 indivíduos que retuitaram o texto) esbarre em preconceito e inferioridade.

É impossível escrever esse texto sem divagações, me perdoem.

Continuando.

Uma das grandes mágicas de alguns gênios da internet é acreditar que tudo possa ser correlacionado. É acreditar que tudo pode ser usado como desculpa ou como argumento para suas observações superficiais.

Qualquer coisa mesmo. rs


Esse tipo de raciocínio é na verdade a falácia mais comum de todas: a afirmação do consequente: se eu fico com dor de cabeça depois que choro e se hoje estou com dor de cabeça, significa portanto que eu chorei. Reparem, caros leitores: numa rápida circulada pela internet, vocês encontrarão vários exemplos dessa falácia. Essa é a maldita falácia que faz com que julguemos as pessoas injustamente. Essa falácia pode destruir relacionamentos. E pode fazer você ir mal na prova.

Explicando mais detalhadamente: a dor de cabeça que tenho agora pode ser sintoma de diversos outros problemas que não tem relação alguma com choro. Posso estar doente. Posso ter batido a cabeça. Posso estar mentindo e nem estar com dor de cabeça. Uma miríade de possibilidades.

O frio e o calor são sensações térmicas que o ser humano pode contornar usando a tecnologia. Mesmo assim, o frio mata mais do que o calor, apesar das ondas de calor que costumam acontecer de tempos em tempos. Há pesquisas que apontam que as ondas de calor podem tornar-se mais frequentes com o aquecimento global. Apesar desses pontos, o frio mata muito mais.  Países do leste europeu que possuem uma matriz energética mais atrasada e são também menos desenvolvidos, apresentam taxas enormes de mortes por frio. Há mortes por frio até em Portugal, conforme afirmou a geógrafa portuguesa Paula Santana em uma palestra que assisti ano passado. Infelizmente, noticias de mortes por frio são comuns todos os anos na Europa.

Até no Brasil há mortes associadas ao frio. Há casos de moradores de rua com saúde já bastante fragilizada que acabam morrendo em nosso inverno que nem é muito rigoroso. O Governo do Estado de São Paulo organiza a Campanha do Agasalho todos os anos, para arrecadar doações de roupas, sapatos e cobertores.

Apesar de adorar o tempo mais fresquinho (com temperaturas entre 10°C e 20°C), eu espero ter convencido vocês de uma coisa: o frio intenso é muito pior que o calor. Nosso país não é nenhum deserto, felizmente. O calor é forte, mas há chuva abundante em boa parte do território brasileiro. Nas áreas litorâneas, temos uma agradável brisa no final da tarde. Conseguimos nos adaptar ao calor, mas o frio é muito cruel com a humanidade, desde os tempos em que nossos ancestrais viviam em cavernas para… protegerem-se do frio! A quantidade de energia elétrica gasta para manter as casas aquecidas é imensa. Famílias de baixa renda da região muitas vezes não tem condições financeiras para pagar o aquecimento de todos os ambientes. Há ONG’s dedicadas a ajudar famílias de baixa renda. O frio não é fácil não, gente.

O que faz da Europa ser um continente com países desenvolvido não é o frio. A frase anterior é tão evidente que fico até com vergonha de escrever. Na verdade, o frio é mais um adversário do que um aliado. O que fez com que os países de lá fosse desenvolvidos foi uma série de fatores históricos. Onde floresceram as grandes civilizações? Na região do Mediterrâneo. Por alguma razão (esse não é um blog de história ou antropologia, desculpem), os primeiros seres humanos decidiram que lá a região era boa para viver. Talvez até o clima tenha influenciado nessa história. Depois o Império Romano, que abrangia boa parte da Europa, levou sua tecnologia para diversas regiões do continente e durou por mais de 1500 anos.

Quando falamos em América do Norte,  devemos lembrar que o tipo de ocupação que as regiões onde hoje são E.U.A. e Canadá foi totalmente diferente da ocupação do nosso território.  Os primeiros habitantes da região queriam de fato estabelecer-se lá, plantar, colher e criar seus filhos na nova terra. Os portugueses e espanhóis chegaram por nossas bandas com a ideia extrair recursos, inicialmente sem a intenção de realmente fixar-se por aqui.

Vejam bem, todas as minhas observações relativas a história são muito superficiais, pois não é minha área de atuação. O que quero mostrar é que o argumento do Sr. Twitter aí de cima é tão furado que até com um conhecimento de história que se resume a aulas do ensino médio, cursinho e The History Channel é possível mostrar o contrário.

E nem vou mencionar dois exemplos que fazem com que a falácia do Sr. Twitter caia por terra imediatamente: Austrália e Nova Zelândia :). Só esses exemplos derrubam a generalização do sujeito.

É eu sei, talvez eu esteja exagerando. Vai ver o cara quis apenas fazer uma piada, como tantos outros por aí. Vai ver é uma forma de ironia: ele sabe que é uma falácia e fala mesmo assim. Enfim, se for isso, não entendo mais nada. E vocês podem me chamar de velha louca e tal.

Mas vocês sabem. Sempre tem pelo menos um que ao ler este tweet pensa:

– Nossa, pode crer.

E retuíta.

Cuidado com as falácias!