Narciso Vernizzi e o operador de fotocopiadora

Vocês já assistiram o ótimo filme O Homem que Copiava?

No filme, o personagem André (interpretado por Lázaro Ramos) é operador de fotocopiadora, como ele solenemente costuma dizer aos seus amigos e namoradas. Com um ar de dúvida, após uma rápida explicação de Andre, as pessoas concluíam:

– Ah, você tira xerox.

É Xerox, é a marca. Ele tirava fotocópias. E há uma parte no filme que acho bastante interessante: conforme ele tira as cópias, ele lê os textos. Mas ele lê apenas fragmentos dessas informações. A velocidade da copiadora e a demanda de serviço torna impraticável sua vontade de ler todos aqueles textos. Talvez ele nem queira ler os textos, queira apenas bisbilhotar, saber o que as pessoas copiam.

Ontem eu fui tirar cópia de alguns documentos. Não gosto de tirar cópias de documentos em lojinhas ou pequenas gráficas. Sou um pouco neurótica, sempre acho que vão roubar minha informação, usando as cópias para algum tipo de golpe. Mas eu precisava, o negócio era meio urgente, não tenho impressora em casa e eu precisava fazer uma redução do meu diploma de Bacharel em Meteorologia, que é em formato A3.

Cheguei nessa pequena loja que presta alguns serviços gráficos. Expliquei ao vendedor, um senhor bastante idoso, aquilo que eu queria. Eu fiquei mais aliviada que tratava-se de um idoso. Alguma coisa me fez crer que ele não praticaria estelionato com minhas informações. Mas eu fiquei de olho.

Ele tirou as cópias dos meus documentos e em seguida pediu o envelope com meu diploma. Pegou o documento de maneira muito delicada e cuidadosa. Finalmente falou:

– Espero que você faça igual ao Narciso Vernizzi. Aquele era dos bons.

Eu sorri. Ele tirou as cópias e disse que eu deveria trabalhar para  as forças armadas. Agradeci pela gentileza e pela dica.

Achei bacana a parte que ele sugeriu que eu trabalhasse ara as forças armadas. São instituições tradicionalmente masculinas e machistas. E o senhor simpático já tinha mais de 60 anos. Bacana ver que alguém acredita que uma mulher pode, se quiser, trabalhar nas forças armadas. Mas tá, quem é Narciso Vernizzi, você com menos de 20 anos deve estar pensando…

Narciso Vernizzi trabalhou em diversas emissoras de rádio nos anos 60-70-80-90. Ele começou como jornalista esportivo, mas ganhou notoriedade como um dos primeiros jornalistas a emitir boletins meteorológicos.

Lembro até hoje que durante minha infância meus pais escutavam a Rádio Joven Pan AM. Meu pai usava o radio-relógio para acordar. Eu acordava cerca de 1h depois, para ir à escola. O rádio continuava ligado enquanto eu me arrumava e tomava o café da manhã. Eu ouvia nomes como Gil Gomes e Narciso Vernizzi (O Homem do Tempo).

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Narciso foi responsável por popularizar a meteorologia. Ele conseguia transmitir os boletins meteorológicas com uma linguagem acessível para a maioria do público. Seu carisma e sua competência são até hoje lembrados. Vernizzi faleceu em 2005, com 86 anos.

Na verdade, acho que Vernizzi tinha sorte e bons contatos. Sorte porque há 30 anos atrás não tínhamos essa velocidade de transmissão de informação. Além disso, os supercomputadores tinham uma capacidade de processamento bem menor e as previsões eram menos precisas.

Acho que estaria sendo injusta com Vernizzi se atribuisse seu afamado sucesso nas previsões apenas à sorte. Vernizzi era um bom observador, certamente sempre observava o tempo e tinha um ótimo conhecimento sobre nuvens. Num tempo em que não existiam cursos difíceis que forneciam diplomas enormes formato A3 (a USP agora fornece diplomas em formato A4), Vernizzi destacou-se por ter adquirido conhecimento prático com a observação e a experiência.

Vernizzi tinha contato com a Força  Aérea Argentina, de modo que ele sabia quando as frentes frias estavam chegando através das informações recebidas através deste canal. Homem inteligente e visionário! Hoje, com a internet, a gente consegue saber como esta o tempo em cada pedacinho de nosso planeta.

Agradeço ao senhor operador de fotocopiadora (e também dono da pequena gráfica) por ter me lembrado dessa figura que fez parte de minha infância. E agradeço a este senhor, que nem me conhece, mas teve uma atitude muito bacana e nada machista :). O mundo precisa disso.