O orgulho negacionista

Eu estava dando algumas orientações sobre instrumentos meteorológicos para alguns alunos de geografia da FFLCH-USP quando um deles mencionou o nome de um famoso ‘cético’ do aquecimento, que é seu professor. Durante a menção, percebi que o aluno tratava seu professor com certo orgulho. Segundo o aluno, o professor afirmou que há poucas estações meteorológicas no Brasil e …

Interrompi no e … para concordar. De fato, há poucas estações meteorológicas no Brasil e falei sobre isso recentemente. O que viria depois do e… eu já sabia: o aluno, orgulhoso de ser pupilo de Ricardo Felício, iria dizer que a pouca quantidade de estações meteorológicas no Brasil e em outros países em desenvolvimento faz com que qualquer teoria sobre o aquecimento global seja invalidada. Ora, os dados que temos mostram elevação da temperatura média em diversas regiões do planeta. Dados de satélites meteorológicos (já temos uma base de dados de uns 20 anos), dados de paleoclimatologia (anéis de crescimento de árvores e testemunhos de gelo) e registros dos povos Antiguidade também nos ajudam nessa tarefa. Além disso, temos as simulações climáticas. Conhecemos as equações  que regem  a atmosfera e resolvemos, usando computadores, essas equações, que descrevem a transferência de radiação solar e terrestre, o movimento das massas de ar, emissão de poluentes, etc. Pessoas como Felício tendem a desmerecer as simulações computacionais. No entanto, simulações computacionais são usadas para muita coisa atualmente. Para projetar um carro ou um prédio, para saber como eles se comportarão em situações extremas (altas velocidades, terremotos, etc).

Como ele é professor da USP – e haja apelo à autoridade , ele ganha espaço na mídia (ele diz que não, mas ganha sim!) para falar todo tipo de absurdo para uma população que não tem o hábito de ler. Além disso, a ciência é vista de maneira bastante negativa em um país religioso como o nosso, em que pastores e bispos evangélicos são pessoas riquíssimas e com influência política. Quando uma pessoa como o Ricardo Felício surge em um programa popular dizendo que seus colegas cientistas estão errados, ele ganha notoriedade imediatamente. Sem contar a lábia e o sorriso fácil no rosto, sendo facilmente absorvido pela atmosfera descontraída desses programas.

Talvez vocês me julguem muito grossa por ter interrompido o aluno. Veja, vocês não estavam lá e terão a visão parcial dos fatos. Interrompi de maneira muito educada e corriqueira, porque ele disse o que interessava naquele momento: faltam estações meteorológicas no Brasil. Faltam radares. Falta investimento. Cadê nosso satélite? Além disso, o aluno está nos primeiros anos da graduação, é natural que sinta-se honrado em ter aula com alguém que aparece na televisão. E eu não queria estender a discussão. Estávamos ao ar livre, radiação solar das 14h no rosto  e quando começam a debater aquecimento global, a conversa vai bem longe. Então mudei o rumo da conversa. No entanto, fiquei pensando: como o termo cético do aquecimento global (ou negacionista) tem sido empregado com algum orgulho, não?

Sendo assim, peço: por favor,  parem de usar o termo cético do aquecimento global! Isso não tem nada a ver com ceticismo. O cético é aquele que questiona permanentemente e não admite a existência de fenômenos metafísicos, religiosos  ou de  dogmas. Sendo assim, o cético do aquecimento global além de questionar o fenômeno do aquecimento global está admitindo que os cientistas estão agindo sob algum tipo de dogma ou sob um credo sobrenatural e não há nada disso!

O cientista que estuda o aquecimento global, (que na verdade trata-se de um estudo bastante multidisciplinar pois envolve meteorologistas, físicos, matemáticos, engenheiros, etc) analisa dados coletados sob rígidos procedimentos científicos  documentados por órgãos como a Organização Meteorológica Mundial. Esses dados são analisados com bastante critério. As simulações também são analisadas com muito critério e todo o trabalho é documentado em relatórios, apresentados em conferências, divulgados em revistas de artigos científicos, etc. O trabalho é constantemente debatido e reanalisado por um time multidisciplinar. Se alguém conseguir encontrar um ‘furo’ no trabalho, certamente publicaria um ótimo trabalho refutando aquele erro que descobriu.

Sendo assim, cadê seu trabalho, Felício? Ah, já sei, ele vai dizer que não tem espaço na mídia. Estamos falando de trabalho científico, aqueles que os cientistas apresentam em revistas científicas como a Nature ou o Journal of Applied Geophysics. Depois de publicados em revistas científicas como as que mencionei, um release do trabalho pode ser enviado aos jornalistas. Se o trabalho tem alguma informação ou descoberta que atrai leitores, o jornalista escreve uma matéria de divulgação sobre ele. É assim que são escritas todas as reportagens das colunas de ciência dos jornais que temos por aí.

O público leigo pode confundir matéria na Veja ou aparição no programa do Ronnie Von com produção científica. Esse é o grande problema. Por isso aproveitei o post para explicar essas coisas. E outra coisa importantíssima: não é qualquer malucão que se acha o Emmett Brown que publica nessas revistas científicas. Em primeiro lugar, o cara precisa ser filiado a alguma universidade ou instituto de pesquisa. Pode ser um pesquisador, professor, aluno, funcionário, etc. Além disso, o artigo é analisado por um grupo cientistas daquela mesma área antes de ser publicado. Esses cientistas fazem a revisão, eles veem se o artigo foi bem escrito, se possui coerência, se as figuras foram bem feitas, se não há plágio, etc.

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Brown, E.: 1955. Funcionamento do Capacitor de Fluxo. Time Travelling. [daqui]

Após essas verificações, a banca decide se rejeita o artigo ou se manda de volta para os autores sugerindo correções. O texto e as figuras de um artigo científico precisam explicar muito bem o trabalho desenvolvido. E o que é muito bem? Bom, muito bem a ponto de que alguém da mesma área possa ler o artigo e compreendê-lo. Se tiver os mesmos recursos, pode inclusive reproduzir o experimento ou o trabalho em condições iguais ou semelhantes.  Um artigo científico  precisa conter as referências de outros artigos. Sim, o conhecimento é construído! Muitas vezes é lendo um determinado artigo que um pesquisador tem uma ideia dentro daquela mesma área de conhecimento. Assim como um escritor de ficção tem seus autores favoritos e inspira-se neles para produzir, um cientista também lê trabalhos científicos de seus colegas para entender qual o estado da arte: o que precisa ser feito, o que precisa ser explorado, o que precisa ser descoberto…

Como eu disse, um artigo científico é escrito de pesquisador para pesquisador. O jornalista então lê o resumo daquele trabalho, conversa com os autores para tirar dúvidas e compreender os conceitos e escreve um texto, se julgar que aquele tema é interessante e atrairá leitores. Já repararam a quantidade de artigos sobre câncer? Tal substância causa câncer, outra substância evita certos tipos de câncer, novo tratamento para o câncer, etc. Esse é o tipo de reportagem que encontramos quase que diariamente nos meios de comunicação. As pessoas tem medo de ficar doente, conhecem pessoas com esta doença, o que faz com que esse tipo de artigo seja sempre lido. O jornalista que escreve essas reportagens certamente acompanhou esse caminho: leu o release de divulgação, falou com o pesquisador responsável e escreveu a matéria.

Atualmente, muitos portais de universidades divulgam as pesquisas que estão sendo desenvolvidas naquela instituição. Na home da USP podemos ver uma lista de informações sobre pesquisas científicas que estão sendo desenvolvidas nesta instituição. Quando a divulgação chega até o portal, pode ter certeza que o pesquisador responsável já escreveu e publicou um artigo em uma revista científica.

Sendo assim, a ciência é naturalmente cética! Veja a quantidade de etapas: a ideia na cabeça de um pesquisador; artigo científico escrito, analisado e publicado e apresentações em seminários da área; divulgação para a imprensa.  Vários outros pesquisadores tiveram acesso àquele trabalho e puderam refutá-lo, se for o caso. Faz parte da natureza humana querer ficar ‘por cima’. Sendo assim, tenho certeza que se qualquer inconsistência for encontrada, ela será comentada. O cara que faz uma boa refutação pode ter sua carreira alavancada, com certeza! Se o Felício refuta tanto o trabalho dos cientistas que estudam o aquecimento global, por que ele não apresenta um trabalho científico com essas refutações?

Eu terminei minha explicação para o grupo de alunos e achei que o nome do Felício voltaria à tona. Os alunos acabaram fazendo perguntas sobre os instrumentos e o assunto ficou de lado. Sempre que essas coisas acontecem, penso como o pensamento pseudocientífico vem a tona. Seria muito bom se o aquecimento global não fosse uma realidade. No entanto, todos os dados apontam para as mesmas evidências. O Prof. Alexandre Costa criou um blog para divulgar esta realidade e sugiro que todos coloquem em suas listas de favoritos. Informação científica de qualidade precisa sempre ser divulgada.