Veja: não veja

Não gosto da Veja.

Também não gosto dos adjetivos leviano(a) ou do substantivo leviandade. Essas palavras são na maioria das vezes mal empregadas e fazem parte do grupo de palavras da moda (como paradoxalmente e literalmente), que são palavras empregadas exaustivamente e equivocadamente por aí.

O ponto é que se tem um adjetivo que descreve bem a revista Veja é leviandade.

É uma revista extremamente parcial e elitista. Suas reportagens sempre seguem o ponto de vista da classe dominante.  Além disso, a revista trata diversos assuntos de maneira muito leviana. Veja (rs) um grande exemplo abaixo:

 

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Sim, eles tiveram a coragem de dizer em uma capa (de 16 de janeiro de 2008) que a exposição a luz solar faz mais bem do que mal em um país com recordes de casos de câncer de pele. Não, eu não li a reportagem interna e pode ser que no interior da revista a reportagem seja esclarecedora (o que eu realmente duvido, conhecendo a revista).  No entanto, eu sei como funcionam as coisas. As maioria dos brasileiros leem. Além disso, elas tem o péssimo hábito de julgar as coisas pela capa (ou ler apenas as capas das coisas). E devo acrescentar que esta revista é cara e eu cansei de ver gente passando em frente a banca de revista e lendo as capas das revistas e jornais que se encontram expostos naqueles plásticos.

Dessa maneira, imaginem só o impacto de uma capa como esta. Os comentários no café da manhã na padaria, na salinha de café das empresas, etc.

A radiação solar é abundante em um país tropical como o nosso. Sendo assim, aquele pouquinho de Sol que você toma enquanto está indo para o trabalho, certamente já deve ser o suficiente. A não ser que você esteja com um problema de absorção de vitamina D e seu médico indicará outra coisa. A exposição inadequada ao Sol faz muito mal. A revista foi muito leviana.  Acabei lendo o texto da capa (não resisti) e vi que eles mencionaram um estudo feito com ingleses e noruegueses, dizendo que eles possuem défict de vitamina D no organismo:

Entre os ingleses e os noruegueses, que habitam a porção superior do planeta, com menos insolação, as quantidades de vitamina D chegam a ser um quinto das registradas entre os australianos. Paralelamente, os pesquisadores constataram que a incidência de tumores malignos de próstata, mama, pulmão e intestino dobra nessas regiões mais frias. Segundo dados do Inpe, a intensidade da radiação solar no verão do Hemisfério Sul é 7% maior, em média, do que no verão do Hemisfério Norte. Se os noruegueses se expusessem ao sol duas vezes mais do que estão habituados a fazer, conforme o levantamento da equipe de Moan, 3.000 mortes por câncer poderiam ser evitadas a cada ano.

Calma aí! Eles estão falando de países que ficam em latitudes altas e por isso ficam uma boa época do ano recebendo pouca radiação solar incidente. Os moradores destes países realmente precisam de suplementação e de maior tempo de exposição ao Sol.  A Jaqueline nos contou dos problemas de saúde que enfrentou quando mudou-se para a Alemanha. Além do desconforto pelo frio, a falta da vitamina D fez com que ela ficasse doente. Felizmente a Jaque aprendeu a lidar com isso e hoje faz a suplementação necessária.

As versões da Veja das cidades(Veja São Paulo e Veja Rio, por exemplo) conseguem ser ainda piores, com seu bairrismo descarado. E eu comecei a escrever este post porque a Gabriela me mandou esse texto da Veja Rio. Eu não quero criticar totalmente o texto, pois achei muito esclarecedora a parte em que explicam (explicam naquelas, né… é a Veja!) que prever o tempo nos trópicos é um grande desafio. Toda teoria matemática de previsão do tempo é baseada em equações desenvolvidas para latitudes médias, mas é exagero afirmar que nã0 se sabe muita coisa sobre trópicos. O grande problema do Brasil (e façamos justiça, foi mencionado na reportagem) é a falta de estações meteorológicas. Em muitos casos, as estações são alvo de vandalismo. Falta investimento em estações meteorológicas, em sistemas de integração entre estas estações e em radares meteorológicos. Os radares meteorológicos são ferramentas importantíssimas, pois dentre outras coisas, eles possibilitam que o monitoramento do deslocamento da tempestade seja feito, o que favorece a previsão a curto prazo.

O grande problema da reportagem foi culpar indiretamente os meteorologistas pelos erros na previsão do tempo. Outro grande desserviço foi apresentar aquela estatística pobre para mostrar quais empresas acertavam ou erravam mais a previsão do tempo. Por que chamei a estatística de pobre? Veja bem, não se faz essa análise usando 2 meses e alguns dias de informação. A previsão do tempo é feita diariamente há pelo menos uns 20 anos. Se querem fazer um comparativo de qual empresa acerta mais, deveriam usar uma série mais longa para comparação.

Além disso, não ficou claro qual critério a Veja usou para determinar ‘quem acerta mais’. A previsão da localização exata da chuva nem sempre é possível. Sabemos que chuvas de verão são fenômenos bem localizados, a ponto de estar chovendo muito no Leblon e nada ou muito pouco no Flamengo, por exemplo.

O depoimento dos artistas foi sem dúvida a grande cereja podre desse bolo horroroso. Sinto muito por uma sociedade em que celebridades de TV sejam formadoras de opinião quando o assunto é um tema científico. Até entendo que a ideia era entrevistar o usuário comum dos serviços de previsão do tempo. Mas acho que a revista poderia escolher depoimentos melhores, que falasse apenas da relação da previsão do tempo com sua atividade (lazer ou trabalho). Detestei alguns depoimentos de pessoas que claramente desconhecem nossa atividade profissional.