Malafaia e a Termodinâmica: argumento mais velho do que eu – Parte 1



Vocês vão notar algumas coisas estranhas no layout do Meteorópole. Infelizmente, o plug-in responsável pela modificação do banner do site está com problemas. Estamos trabalhando 🙂

Mas não é sobre isso que quero falar. Vocês já devem ter lido sobre as declarações ignorantes e preconceituosas de Silas Malafaia, não é? Bom, mais uma vez os meios de comunicação deram espaço para gente que confunde, atrapalha e presta desserviço. E dessa vez foi Malafaia, que tem o endosso de milhões de brasileiros. De acordo com o IBGE, a quantidade de evangélicos aumentou de 15,4% em 2000 para 22,2% em 2010 (leia aqui).

Vou fazer algumas generalizações nesse post. As generalizações nem sempre são ruins: elas podem ser usadas para representar um grupo, mas não definem este grupo completamente. Um exemplo: vamos supor que a altura média do brasileiro seja 1,70m. No entanto, você tem 1,59m e seu irmão tem 1,82m.  E você tem um amigo de 2,02m. E uma prima de 1,45m. Essas pessoas estão afastadas da média, acima ou abaixo dela. A média é apenas um dado sobre aquele grupo. Isso significa que você tem mais chances de encontrar pessoas com altura próxima de 1,70m. Apenas isso.

A maioria dos evangélicos pertencem a classe C. Não gosto de dividir pessoas por classes sociais, mas a nova classe média (ou classe C) é composta por pessoas que até pouco tempo atrás viviam em dificuldade financeira. A melhoria das condições econômicas de nosso país nos últimos anos, os planos de redistribuição de renda e a oferta de crédito fizeram com que a nova classe média florescesse. Podem adquirir gadgets caros em várias prestações, itens de luxo, podem comprar carros, reformar a casa, etc.

Algumas igrejas evangélicas oferecem a Teologia da Prosperidade. O ser humano é filho de Deus, merece ser próspero. Não é incomum vermos depoimentos em programas de tele-evangelistas em que as pessoas falam sobre como chegaram ao fundo do poço e então se re-ergueram economicamente após sua conversão. E hoje são empresárias e donas de vários carros. Mais carros do que habitantes de sua residência.

Percebam como a Teologia da Prosperidade encaixa-se perfeitamente com o momento econômico. O milagre econômico chegou, mas o ensino melhorou muito pouco. Professores com mais tempo de função dizem que até piorou.  As escolas públicas estão longe de serem boas e há escolas particulares bem fraquinhas. Não há nenhum incentivo a cultura. Eu sou muito crítica com relação a isso: já entrei em casas com várias TV’s enormes de tela plana, carros do último modelo na garagem e nenhum livro na casa inteira. Talvez uma bibliazinha escondida. Ah, a Bíblia. E na esmagadora maioria das vezes ela nem é lida, já que o próprio pastor se encarrega em interpretá-la em seus cultos. Exatamente oposto ao que Martinho Lutero esperava…

Nesse cenário, Malafaia consegue apoio e seguidores. Ele prega a Teologia da Prosperidade. Suas igrejas vivem lotadas. Sua fala energética cativa os fiéis. A igreja lotada, o sonho de muitos pastores, já que alimenta seus egos e seus bolsos. Dentro desse cenário, Malafaia é uma inspiração para muitos.

Do outro lado, temos movimentos de direitos civis ganhando força. Diversos blogs exaltando a diversidade e lutando para que todos possam se expressar livremente. O movimento feminista, o movimento LGBTS, movimentos que buscam a visibilidade ateísta, etc. Esses movimentos querem uma única coisa: igualdade. Como dizia John Lennon em uma das músicas que mais amo: “Imagine todas as pessoas vivendo em paz …”. E se alguém, dentro desses movimentos, prega algo diferente da igualdade, é imediatamente criticado pelos demais. Um exemplo: Sara Winter.

As  pessoas sempre questionaram os dogmas das religiões. Isso aconteceu (e ainda acontece) com o Catolicismo. E vai acontecer (já está acontecendo…) com os demais galho do Cristianismo (Igreja Protestante, Igrejas pentecostais, testemunhas de Jeová, Mórmons, etc). Para um pastor como Malafaia, que depende de gente dizendo amém para alimentar seu ego e encher seus bolsos, isso é uma ameaça. Ele precisa de argumentos para fazer com que as pessoas continuem frequentando seus templos.

Um grande dogma em muitas denominações evangélicas é a literalidade na compreensão da Bíblia. É uma literalidade que é muito criticada, já que é uma literalidade quando se é conveniente. E com essa literalidade, surge as diversas correntes do Criacionismo, pseudociência facilmente refutável. No entanto, como disse anteriormente, o ensino no Brasil é totalmente deficiente e poucas pessoas tem conhecimento do que é a Teoria da Evolução.  Poucos também tem conhecimento adequado sobre Sexualidade Humana.Assim, muitas falácias são facilmente propagadas nas igrejas, com um certo ar teatral:

– Se homosexualismo (sic) fosse normal, Deus teria criado Adão e Ivo e não Adão e Eva (em inglês é mais legal: Adam and Steve, not Adam and Eve).

– Se o homem viesse mesmo do macaco, veríamos macacos transformando-se em homens nos zoológicos.

Dentre outras. Mencionei essas duas acima porque já ouvi, quando frequentava uma certa igreja evangélica (assunto para outro post ou outro vídeo). Recentemente, os evangélicos tem falado muito sobre os homossexuais. Uma das pessoas que tem falado muito sobre o assunto é tal do Silas Malafaia. Ele deu uma entrevista para Marília Gabriela. Ele não surpreendeu ninguém com suas opiniões. Ele é daqueles pastores que poderiam se ocupar da pregação das palavras de Jesus, mas preferem encontrar bodes expiatórios para sentirem-se superiores. O bode expiatório no caso são os homossexuais.

A entrevista de Malafaia gerou muita repercussão. Muita gente infelizmente concordou com ele. No entanto, houve muito repúdio, como textos e vídeos com críticas. Até uma página de humor no Facebook foi criada, satirizando as estatísticas malucas (e sem nenhuma fonte) citadas por Malafaia ao longo da Entrevista. Um desses vídeos de repúdio foi o de Eli Vieira,  biólogo e com especialização em genética. Como Malafaia citou torrentes de asneiras pseudocientíficas durante a entrevista, Eli veio apresentar argumentos científicos dos quais ele tem conhecimento. O vídeo de Eli pode ser visto aqui. Além de Eli Vieira, Izzy Nobre, famoso vlogueiro,  também fez um vídeo críticas a Malafaia.

Então Malafaia ficou nervosinho e fez um vídeo criticando Eli Vieira, o chamando de pseudodoutor (Eli é estudante de doutorado, em nenhum momento ele disse que era doutor) e tecendo comentários desnecessários sobre a sexualidade de Eli. Acho que o Eli resolveu deixar pra lá, porque ele não gravou outro vídeo. Até porque entrar em debates com gente desonesta  é perda de tempo. Após este segundo vídeo, Eli ganhou mais visibilidade e mais pessoas tomaram conhecimento de seu trabalho. Infelizmente, pelo outro lado, a lavagem cerebral continuou e mais evangélicos continuam dando razão a Malafaia. Outros vídeos repudiando este vídeo de Malafaia foram criados.

Bom, estou contando tudo isso para atualizar meus leitores que não acessam a internet frequentemente ou que estavam em férias em Fiji no último mês. Talvez este post também sirva de documento para daqui um ano. Essas discussões que ocorrem na internet são logo deixadas de lado. Só que eu acho que quando o assunto tem essa gravidade (alguém fazendo alegações pseudocientíficas), o assunto precisa sempre ser lembrado.

É uma vergonha. Outro dia eu estava pensando em escrever 95 teses para uma igreja dos dias de hoje, que respeitasse a diversidade, e colocá-las nas portas das igrejas (tipo IURD e afins). Só que a maior parte das pessoas que frequentam essas igrejas mal sabem ler. Elas não tem argumentos. Apenas assistem TV e ouvem o pastor (quando não assistem o pastor na TV). Se eu escrevesse 95 teses e colasse na porta das igrejas, ninguém me daria ouvidos 🙁

Mas enfim, fiz esta longa introdução para falar de uma recente asneira proferida por Malafaia. É o mais do mesmo, continua falando que ser gay é uma escolha e não uma orientação, algo nato do indivíduo. Após incontáveis asneiras nessa última entrevista, ele fala uma asneira especial que toca em um assunto que domino razoavelmente:

Existem estudos mostrando que há bases genéticas para a orientação sexual.
Malafaia – Por que a evolução é teoria? Porque não pode ser provada. Para poder ter evolução tem que derrubar lei da biogênese, termodinâmica. Evolução é uma teoria, pelo amor de Deus, e eles veem como uma verdade. Como a teoria da criação no meio científico. São duas teorias. A mente humana, para acreditar em alguma coisa – isso eu sou psicólogo e posso dizer agora – tem que ouvir repetidas vezes alguma coisa. Mentiras passam a ser verdades absolutas, como a da evolução. Me diz a prova concreta da evolução. Não tem. A mesma coisa a questão da homossexualidade. Quem provar que é genético vai ganhar um Nobel. Existe diferença entre a maioria aprovar e ser verdade

 

Aqui ele cita incontáveis asneiras, todas já refutadas. O objetivo do próximo post é falar sobre essas asneiras, comumente repetidas em igrejas evangélicas.

Desculpem pelo post longo. Antes de chegar no assunto, eu quis dar um panorama. Quando vi, o post ficou enorme e tive que quebrar em dois. Estou escrevendo a parte dois, em que falo das asneiras citadas na caixa acima.