Urubus no anemógrafo: como funciona o anemógrafo

Acho que os animais amam meteorologia. Apenas isso pode explicar algumas coisas que acontecem com quem trabalha com instrumentos meteorológicos.

Um caso comum são abelhas ou vespas que decidem construir colméias em pluviômetros. Sim, isso pode acontecer! Em estações meteorológicas com constante presença de técnicos e visitantes, a colméia fica bem pequena e logo é removida. No entanto, em estações automáticas que ficam em locais afastados, com a presença esporádica de técnicos (1 vez por mês, por exemplo), a situação pode sair do controle e a colméia pode ficar grande.

Além de colméias, outros animais podem se interessar pela presença de água ou pela possibilidade de encontrar abrigo no instrumento. Folhas também podem ser levadas pelo vento e entupir pluviógrafos.

Mas parece que a nova ‘moda’ agora são os urubus nos anemógrafos. Eu falei sobre o anemógrafo na minha crônica sobre O Homem do Abacate (leia aqui) mas não mostrei nenhuma fotografia do instrumento. Então vejam só:

anemografo-copos-pás

Anemômetros e anemógrafos (o final -grafo indica que o instrumento faz o registro da grandeza observada em um papel) são instrumentos utilizados para registrar a velocidade e a direção do vento. O vento é uma grandeza vetorial. Gosto de dizer aos alunos que é o melhor exemplo de vetor da natureza. Os três ‘copinhos’ na fotografia acima giram com a intensidade do vento. Se o vento for bastante intenso, os copinhos vão girar rapidamente.

A pá na fotografia acima vai indicar a direção do vento. Em meteorologia, o importante é sempre saber de onde vem o vento. Portanto, se você segue o perfil @estacao_IAG (que mostra informações da Estação Meteorológica do IAG, em São Paulo-SP), pode ver em um determinado horário a seguinte informação:

 
Untitled 2

Vai verificar que o vento registrado naquele instante tinha a intensidade de 14 km/h e a direção NNW. A direção NNW significa que o vento vem de norte-noroeste, de acordo com a conhecida rosa-dos-ventos:

 Rosa-dos-ventos. Fonte: Wikimedia Commons

Rosa-dos-ventos. Fonte: Wikimedia Commons

Aqui eu já explorei um pouco mais sobre o assunto vento, leia para mais detalhes. Então, eu contei para que serve os 3 copinhos (metades de esferas ocas da primeira fotografia) e contei para que serve a pá do anemógrafo. Além disso, a haste da pá é oca e tem um buraquinho em sua extremidade. Isso permite que ar entre por este buraquinho. Se o ar entrar com ‘força’, teremos uma rajada instantânea. Sabe aquele sopro rápido de vento que dura segundos e logo para? Esse buraquinho permite que estas rajadas instantâneas sejam medidas desta forma.

O movimento dos copinhos e da pá é transmitido para um registrador que fica no andar de baixo, em uma sala:

anemografo-painel

Reparem que há um papel envolto em um tambor, onde o registro é feito. Este tambor gira 1x por dia. Esse papel (ou diagrama, anemograma) é trocado diariamente. As informações nele registradas são analisadas e arquivadas.

Agora imaginem o seguinte: sabe aquele bichinho injustiçado, o urubu? Então, por alguma razão, na Estação Meteorológica do IAG-USP, eles gostam de ficar em cima dos copinhos ou da haste de medição da direção do vento. Acabo de descobrir que estes bichinhos pesam de 2kg a 5kg! E eles atrapalham a medição do vento, pois quando eles estão em cima do instrumento, o vento não consegue girar os copinhos e/ou deslocar  a haste que mede a direção. Sexta-feira passada aconteceu um caso desses. Era manhã, e o vento era apenas uma brisa suave. Um bichinho resolveu curtir a vista do Parque do Estado pousado no anemógrafo. E claro, não registramos vento nos poucos minutos em que ele ficou por ali! Danadinho…rs.

Resolvi contar esse pequeno causo meteorológico para vocês. E com isso, acabei explicando um pouco sobre o anemômetro. :). Agradeçam ao urubu.