Velocidade do vento: Jornalistões e seus equívocos.

Temo que vou precisar criar uma tag especial.

Ou melhor, uma categoria especial.

As bobagens ou equívocos que os jornalistas escrevem sobre meteorologia são incontáveis. Toda semana vejo ou ouço pelo menos um e confesso não leio tantos jornais e nem sou tão cricri (ou caga-regras, a expressão da moda na Internet).

A última foi essa reportagem do G1. O título é “Fenômeno climático atípico provocou ventania, diz meteorologista“. Trata-se de uma forte rajada de vento que ocorreu em Teresina no último dia 20, causando alguns danos patrimoniais.

Percebam que é algo muito específico: uma rajada de vento que ocorreu no último dia 20.

Isso tem cara de fenômeno climático?

Quando me refiro a condições instantâneas na atmosfera ou em um dia específico, o termo correto que uso é tempo. Por isso falo em previsão do tempo, pois quero saber como serão as condições meteorológicas  amanhã (se vai chover, se vai estar quente, etc). O mesmo vale para quando você liga para um familiar que mora em uma cidade distante. Você então pergunta:

– Como está o tempo aí? Está chovendo?

Outra pergunta que você poderia fazer é:

– Como será que estava o tempo no dia em que nasci? Estava chovendo? Estava frio?

Por outro lado, quando usamos a expressão clima, nos referimos a médias. Sendo assim, se alguém te perguntar:

– Como é o clima em sua cidade?

Você deve explicar em quais épocas do ano costuma chover, quando costumam ocorrer ventanias, quando é frio, quando é calor, etc.  A palavra clima tem a ver com média. Você vai responder a pergunta acima baseando-se no comportamento médio a cidade de onde você vive. Esse conhecimento é empírico: quando a gente mora muito tempo no mesmo local, acaba aprendendo, através de observação, que certo período do ano é mais chuvoso, por exemplo.

Outra forma de conhecer o clima de uma região é fazendo medidas todos os dias ao longo de muitos anos. A WMO (sigla em inglês para Organização Meteorológica Mundial) costuma recomendar o período de 30 anos para que o clima de uma região seja minimamente conhecido através de dados. Nesse período de tempo, temos o que chamamos de normais climatológicas, que são os valores médios no período de 30 anos para temperatura, precipitação, umidade relativa, etc.

Escrevi sobre a diferença entre as palavras tempo e clima aqui.

Sendo assim, o título da reportagem poderia ser reescrito como:

“Fenômeno meteorológico atípico provocou ventania, diz meteorologista”

Mas pera aí…talvez como fruto de minha pura e simples chatice, eu encontrei um outro problema na frase acima. Que outro tipo de fenômeno, que não meteorológico, poderia causar ventania? Além disso, o título menciona o profissional, o meteorologista. Não estamos falando de jujubas, certo?

Seria bem legal, hein? Fonte: Marvel Comics.

Oi Ororo, vem falar com a gente aqui no G1. Fonte: Marvel Comics.

Então eu suspeito que o correto devesse ser:

“Fenômeno atípico provocou ventania, diz meteorologista”

Depois de minha implicância fundamentada com o título, vamos ler a reportagem. É bastante informativa, fala de uma rajada de vento que provocou estragos em Teresina, ouve a opinião de uma profissional. Essas reportagens são importantes porque além de explicar o fenômeno, normalmente servem como documento para levar ao seguro. Muitas casas e galpões são segurados contra danos por fenômenos meteorológicos.

Só que no primeiro parágrafo a gente lê:

“…se tratou de um fenômeno climático atípico denominado de rajada de vento.”

Já expliquei que o uso de climático não está bom. Mas não é só esse o problema deste trecho. Desde quando uma rajada de vento é um fenômeno atípico???
Talvez uma rajada de vento muito intensa seja algo incomum, mas rajadas de vento acontecem o tempo todo. Sabe quando você está caminhando ao ar livre e a atmosfera está calma. Daí de repente, você percebe um farfalhar das folhas, uma agitação de mais alguns galhos e etc. Isso é uma rajada de vento. É algo instantâneo. É a velocidade instantânea do vento. Podemos medi-la com o anemômetro ou anemógrafo, como expliquei aqui.

Pelo que entendi na reportagem, a rajada de vento que provocou estragos foi de 24km/h (aprox. 7m/s). É uma rajada que dificilmente causaria estragos significativos, dignos de nota.  Infelizmente, eu soube que algumas seguradoras costumam pagar por danos acima de 15m/s. Portanto, quem estava segurado talvez não consiga o dinheiro.

Não conheço Teresópolis. Talvez eles não estejam acostumados com rajadas. Mas ainda assim, 7m/s não é uma rajada intensa. Não seria 24m/s e o jornalista se enganou com a unidade? Acho muito provável.

Continuei lendo a reportagem e encontrei um outro probleminha de definição e que talvez alguns discordem de mim. Por isso peço a opinião de vocês aqui nos comentários.

“O vento de maior velocidade registrado foi de 24 Km/h, um valor alto, já que a velocidade média registrada em Teresina é de 7 Km/h, mas não tão forte que possa causar tantos estragos. A explicação para o que ocorreu é uma rajada de vento, que ocorre num nível que não consegue ser medido”, declarou.

Pera aí…

Além de minha suspeita de erro de unidade (24km/h onde talvez seja 24m/s),  a reportagem comparou a velocidade média com a velocidade instantânea do vento. Isso não me parece certo (por isso quero as opiniões de vocês). E vou explicar porque não acho certo. Para isso, vou fazer um paralelo com a velocidade de um automóvel.

Vamos supor que você dirija de sua casa até o trabalho. E a distância entre esses dois locais seja 10km. Se você trafegar a 60km/h, você chegará até lá em 17min. Só que você não vai conseguir manter sempre a velocidade de seu automóvel em 60km/h. Você vai ter que parar nos cruzamentos. Vai encontrar pontos com tráfego pesado e vai andar mais devagar. Vai reduzir a velocidade para um cachorro atravessar. Enfim, muita coisa pode acontecer ao longo desses 10km. Porém, supondo que ao longo desses 10km você encontre um trecho em que a velocidade permitida é 100km/h e você encontre condições para desenvolver essa velocidade. Então, a velocidade máxima no velocímetro de seu carro realmente atinja os 100km/h.

Mas perceba: em alguns momentos você parou. Em outros você andou devagar-quase-parando. E em um curto período, você conseguiu andar a 100km por hora. Vamos supor que após esta série de acontecimentos, você tenha chegado no trabalho coincidentemente em 17min (mesmo intervalo de tempo que teria chegado se andasse constantemente a 60km/h). Se eu fizer o cálculo de velocidade média:

velmed

Ou seja, se eu dividir 10km por 17min, terei aproximadamente 60km/h, que vai ser a velocidade média do percurso. Mas percebam: isso não significa que o carro desenvolveu  60km/h o tempo todo ao longo dos 17min.

Com o vento, é a mesma coisa. Não tem aquela rima boba (e verdadeira) de que o vento é o ar em movimento? Então, aplicamos o mesmo raciocínio e as mesmas equações. Sendo assim, a velocidade instantânea do vento em um determinado momento do último dia 20 foi 24km/h. E vamos supor, para facilitar a compreensão (é suposição, não está na reportagem!) que essa rajada tenha ocorrido as 14h32min00s. No entanto, no intervalo entre as 14h e 15h, esse foi o único momento de intensa velocidade do vento. Ou seja, nos outros instantes deste intervalo de hora, o vento ficou calmo, as rajadas foram muitíssimo leves (ou inexistentes). E a velocidade média do vento nesse intervalo de hora entre as 14h e 15h tenha ficado muito próximo  dos 7km/h mencionado na reportagem.

Perceberam? Não se pode comparar rajada de vento (que é algo instantâneo) com velocidade média do vento (que como o próprio nome já diz, é uma média em um intervalo de tempo e no meu exemplo, usei o intervalo de 1h). Se você discorda, pode escrever abaixo, ficarei muito feliz em discutir este tema.

Um outro ponto que gostaria de comentar na declaração foi:

A explicação para o que ocorreu é uma rajada de vento, que ocorre num nível que não consegue ser medido.

O que querem dizer com isso? Eu entendo que o instrumento de medição (o anemógrafo, provavelmente) tem uma escala limitada e por isso, o valor de 24km/h ‘estourou a escala’ e não pode ser lido. Resolvi então checar um anemograma qualquer de um anemógrafo (o das fotografias deste post). Anemograma é o nome que damos ao gráfico onde o anemógrafo faz os registros. Esse gráfico fica preso em um tambor, como na fotografia abaixo:

anemografo-painel

Na fotografia, observamos quatro penas de registro. Essas penas graficam a direção (as duas primeiras), a velocidade média (a terceira) e as rajadas (a última). Observei um desses diagramas (cada folha faz o registro de 1 dia, são portanto trocadas diariamente) e verifiquei que para as rajadas de vento, a escala vai até 40m/s (144km/h).

Supondo que a unidade que a reportagem usou (24km/h, suspeito que esteja errada…) esteja certa, eu realmente duvido que um instrumento não consiga medir isso. Agora supondo que seja 24m/s e o G1 cometeu um engano. Pode até ser que algum instrumento não consiga medir este valor. Acho difícil, mas estou familiarizada apenas com alguns modelos de anemógrafos e anemogramas. Pode ser que um modelo mais compacto ou mais simples tenha uma escala limite menor, que vá apenas até 20m/s, por exemplo.

A reportagem me deixou com muitas dúvidas. Faltou informação. Além disso, repare que está grafado 7Km/h e 24Km/h (com a letra K em maiúscula). Isso está errado. No SI, sempre usamos o k em letra minúscula, e ele significa a unidade multiplicada por mil. Portanto, km significa 1000m. E kg significa 1000g. A rigor, km e kg não são unidades. São múltiplos das unidades m e g.

Por isso o SI é lindo: ele é simples :). Há até uma petição para que os E.U.A adotem essa maravilha.