Malafaia e a Termodinâmica: argumento mais velho do que eu – Parte 2

Se houvesse uma forma de medir a quantidade de asneiras por segundo proferidas por um único indivíduo, Malafaia seria campeão.

Algumas pessoas podem me criticar dizendo que alguns de meus posts são voltados para pré-adolescentes e que talvez eu não deveria criticar a religião. Ah, eu devo criticar sim. Eu adoraria ver uma geração de pessoas boas, que contribuem com a sociedade, inteligentes e críticas. É o que todo mundo quer e é do que nosso país precisa.

No final do primeiro post, destaquei um trecho de uma entrevista do Malacheia Malafaia:

Existem estudos mostrando que há bases genéticas para a orientação sexual.
Malafaia – Por que a evolução é teoria? Porque não pode ser provada. Para poder ter evolução tem que derrubar lei da biogênese, termodinâmica. Evolução é uma teoria, pelo amor de Deus, e eles veem como uma verdade. Como a teoria da criação no meio científico. São duas teorias. A mente humana, para acreditar em alguma coisa – isso eu sou psicólogo e posso dizer agora – tem que ouvir repetidas vezes alguma coisa. Mentiras passam a ser verdades absolutas, como a da evolução. Me diz a prova concreta da evolução. Não tem. A mesma coisa a questão da homossexualidade. Quem provar que é genético vai ganhar um Nobel. Existe diferença entre a maioria aprovar e ser verdade.

Malafaia, assim como Felício, não sabe o que é Teoria. Falei sobre as diferenças entre as palavras teoria no contexto científico e no contexto popular neste post, mas faço questão de repetir aqui:

No contexto científico:

Uma definição científica de teoria é a de que ela é uma síntese aceita de um vasto campo de conhecimento, consistindo-se de hipóteses necessariamente falseáveis – mas não por isto erradas, dúbias ou tão pouco duvidosas – que foram e são permanentemente e devidamente confrontadas entre si e com os fatos científicos, fatos estes que integram um conjunto de evidências que, juntamente com as hipóteses, alicerçam o conceito de teoria científica. As hipóteses, em casos específicos, devido à simplicidade e ampla abrangência, podem ser elevadas ao status de leis.[1]

No contexto popular:

A palavra teoria remete a algo que “é fácil de dizer e difícil de realizar” [2].

O que é uma hipótese falseável? Para isso, precisamos compreender o conceito de falseabilidade, para compreender como a pesquisa científica é feita nos dias de hoje e como era feita no passado.

No passado, se um cientista morasse em um lugar onde todos os cisnes fossem brancos e ele fizesse uma espécie de censo de cisnes. E contabilizasse, sei lá, 10 mil cisnes. Todos brancos. 10 mil são muitos cisnes. Logo, ele concluiria que todos os cisnes são brancos. No entanto, a contraprova é muito fácil: bastava trazer um cisne negro. O princípio de falseabilidade consiste nisso: Para uma asserção ser refutável ou falseável, em princípio será possível fazer uma observação ou fazer uma experiência física que tente mostrar que essa asserção é falsa.[3]

O exemplo dos cisnes brancos não é meu. Devo dar o crédito a Karl Popper, filósofo científico do século passado.  A falseabilidade norteia, nem que indiretamente, todas as pesquisas cientificas. É por isso que as generalizações nunca são bem vindas no contexto científico, pois basta um exemplo contrário a lei criada para fazer com que essa lei seja falseável. Como foi dito na definição de teoria no contexto científico: consistindo-se de hipóteses necessariamente falseáveis – mas não por isto erradas, dúbias ou tão pouco duvidosas. 

Em outras palavras, uma idéia falseável é uma ideia testável.

Considera-se em Ciência, que para uma hipótese ser cientificamente válida ele deve ser Falseável, ou Testável. O que significa que deve ser possível demonstrar que ela está correta ou não.

Por Exemplo: Se alguém afirmar que há uma bolinha vermelha dentro de uma gaveta, posso verificar se é verdade, constatando ou não a existência da bolinha lá. Essa é uma hipótese testável.

Mesmo se alguém afirmar que a bolinha é invisível, essa hipótese continua testável, pois eu posso detectar a bolinha de outras formas que não sejam minha visão.

Mas se for dito que a bolinha além de invisível é intangível e indetectável por qualquer meio, então a hipótese se torna não testável. Poderia até ser verdade, mas como não é possível provar, ou reprovar isso, a hipótese se torna Não Falseável, e consequentemente inútil, não fazendo diferença que seja verdade ou não, além de causar um Paradoxo, pois se é impossível perceber a bolinha, como a pessoa pode saber e afirmar que ela está lá?

Hipóteses que não possam ser verificadas não são então científicas, mas se houver chance para demonstrar que a hipótese ou a Teoria (que pode englobar várias hipóteses), está errada, então ela pode ser científica.   [4]

A teoria da Evolução é falseável (ou formada por vários pressupostos falseáveis). Se alguém conseguisse encontrar uma prova: um fóssil, uma sequência no DNA ou qualquer coisa que pudesse invalidar a Teoria da Evolução, esse alguém ganharia rápida notoriedade no meio científico. O Aquecimento Global é falseável, pois se alguém encontrar evidências concretas de que os gases estufa não aumentam a temperatura da atmosfera ou de que sua contribuição no aumento da temperatura da atmosfera é irrisória, todas as teorias de transferência radiativa estarão erradas e o Aquecimento Global cairá por terra.

O Lamarquismo (uso e desuso, transmissão das características adquiridas), uma das ideias que tentava explicar a evolução das espécies,  foi refutada pela genética. Ou seja: os ‘testes’ apareceram e não corroboraram esta ideia.

O Criacionismo não é falseável, portanto não pode ser considerado ciência. O Criacionismo possui um conjunto de ideias (dependendo da corrente criacionista), e essas ideias sempre caem no mesmo ponto: um Deus indetectável teria criado todas as coisas. Reparem: um Deus indetectável, eu não posso testar sua existência. [5]

Essa confusão entre a definição da palavra teoria já foi muitas vezes discutida. No caso de Malafaia – que afirma ser psicólogo, fazendo um super apelo a autoridade – acho que ele deveria saber do que se trata. No caso de Felício, é mera desonestidade intelectual mesmo: como é possível uma pessoa que tem doutoramento em uma universidade (to falando de USP, não de Bob Jones) e que não sabe a definição de teoria?

E Malafaia também mencionou um ponto importante: a termodinâmica. Ele disse que para poder aceitar a Teoria da Evolução, teria que derrubar também as leis da Termodinâmica. Esse é um argumento muito recorrente dentre os criacionistas. Para explicar o quanto este argumento está errado, vou precisar abordar alguns temas, tais como:

– O que é Termodinâmica?

– Quais são as leis da Termodinâmica?

Estes serão assuntos da Parte 3 🙂 [6]

E por fim, Malafaia também afirmou outras coisas no trecho que destaquei:

A mente humana, para acreditar em alguma coisa – isso eu sou psicólogo e posso dizer agora – tem que ouvir repetidas vezes alguma coisa. Mentiras passam a ser verdades absolutas, como a da evolução. Me diz a prova concreta da evolução. Não tem. A mesma coisa a questão da homossexualidade. Quem provar que é genético vai ganhar um Nobel. Existe diferença entre a maioria aprovar e ser verdade.

O que chega a me deixar revoltada no caso desses religiosos é que eles dizem tanta abobrinha que as suas verdades podem ser aplicadas a eles mesmos. Um exemplo. Malafaia disse que a mente humana precisa ouvir repetidas vezes a mesma coisa para aceitá-la como verdade. Qualquer semelhança com religião não é mera coincidência. Sobre a homossexualidade ser genética ou não, recomendo mais uma vez o vídeo do Eli Vieira.

Infelizmente Malafaia não é o único. Há uma multidão de gente com discurso igual ou muito parecido. E eles se multiplicam: a mensagem de Malafaia chega a diversas pessoas. Essas pessoas, muitas delas com pouca escolaridade ou com lacunas enormes no conhecimento (escolas públicas horríveis!), aceitam a autoridade do pastor e acreditam naquilo que ele diz. Essas pessoas multiplicam esses absurdos em seus lares. O discurso de Malafaia gera ódio! Percebam como ele discursa de maneira inflamada. Quem me segue no twitter (@samanthaweather) já deve ter lido minha opinião sobre expiação: esses pastores usam os gays para se expiarem. Também usam os gays para desviarem os olhares de seus fiéis. Desviarem os olhos de seus cofres milionários, denúncias de lavagem de dinheiro e de enriquecimento ilícito. Usam também a Ciência com a mesma finalidade. Ora, fazer com que seus fiéis deixem de pensar é uma excelente estratégia para mante-los dentro dos templos, para continuarem contribuindo financeiramente.

Se você for evangélico e estiver lendo isso, espero que passe a ser crítico com as palavras desses tele-evangelistas. Meu objetivo é abrir os olhos dos religiosos.  Mencionei no outro post da série que queria escrever 95 teses para uma igreja moderna, que celebrasse a diversidade e a caridade. Infelizmente, sei que o fiel típico deste tipo de agremiação lê pouco e tem sérias lacunas em sua formação escolar. Inclusive já estou esperando comentários nada agradáveis com erros horríveis de português. Mas se você tiver algo legal para comentar (e se escrever direitinho) é bem vindo. Escreva aí, vamos compartilhar ideias 🙂

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Referências e notas:

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria

[2] http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=teoria

[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Falseabilidade

[4] http://www.evo.bio.br/layout/EVOLXCRIAC.HTML

[5] Leia mais aqui e veja também essa série de vídeos sobre o Criacionismo, começando por este.

[6] Desculpe gente. Eu quis fazer algo bem abrangente, para que qualquer pessoa que não conhecesse muito sobre estes assuntos pudesse ler e compreender. Por isso o post ficou tão longo e eu ainda não consegui entrar na parte de termodinâmica. Na Parte 3 isso vai sair 🙂