O ano sem verão



Trilha sonora do post: Summer Moved On – a-ha

Ando sumida, desculpem.

Eu queria ser minimamente rica. Então eu poderia escrever, apenas escrever. É um pequeno sonho que tenho, mas infelizmente vai demorar para se realizar.

Mas vamos ao que interessa. Alguns leitores meus que amam o inverno vão adorar o post de hoje (oi Renan). Já imaginaram um ano sem verão? Bom, ele já aconteceu! E decidi escrever sobre ele depois que li este link do Discovery Channel.

O ano sem verão é o nome dado ao ano de 1816. As temperaturas do verão de 1816 foram tão abaixo da média, que o ano fico conhecido por este nome.

Poxa, eu adoro o frio, mas imagine um ano sem verão? Não dá! É triste. E mais tristes ainda são os outros nomes dados ao fatídico 1816: O ano da Pobreza, O ano em que o Sol não existiu, etc. O impacto foi global: a temperatura média global caiu cerca de 0,4°C ou 0,7°C (dependendo da fonte). Quando fala-se em “Ano sem Verão”, fala-se do ponto de vista de um morador do Hemisfério Norte. Ou seja, foram temperaturas muito abaixo da média principalmente entre os meses de maio e agosto. Como resultado do frio, a agricultura foi prejudicada e muitas pessoas passaram fome.

O que provavelmente provocou esta anomalia foi uma combinação de dois fatores principais:

– Redução da atividade solar
– Sucessão de erupções vulcânicas em anos anteriores, sendo a mais famosa a erupção do Vulcão Tambora (em 10 de abril de 1815). Além do vulcão Tambora, outras erupções menores também contribuíram: do La Soufrière, na Ilha de São Vicente, em 1812; do vulcão Awu (1812), na Indonésia; do Suwanosejima (1813), no Japão e do Mayon (1814), nas Filipinas.

O nordeste dos EUA (região da Nova Inglaterra), costa atlântica do Canadá e partes da Europa ocidental foram as regiões mais afetadas. Num ano normal, as temperaturas do final de verão e início de primavera tem média em torno de 20°C e 25°C e raramente ficam abaixo dos 5°C. Não é o verão que os brasileiros estão acostumados, mas são temperaturas bem altas para a região. Nesses locais citados, há inclusive alguns dias com temperaturas acima de 30°C.

Só que no final da primavera e início do verão de 1816 as coisas foram bem diferentes. Uma névoa seca tomou conta do noroeste norte-americano. Essa névoa reduziu a intensidade da radiação solar incidente, de modo que era possível olhar para o disco solar e enxergar as manchas solares a olho nu. A névoa não foi dispersada por vento ou chuva. Essa névoa foi provavelmente resultado da erupção do vulcão Tambora, na Indonésia. O vulcão entrou em erupção em 10 de abril de 1815 (ou seja, no ano anterior), mas demorou para que o material piroclástico se espalhasse pelo planeta. Parte dessa material piroclástico consiste em sulfato, material extremamente higroscópico ( ‘atrai’ água com facilidade). Esse sulfato em grande quantidade certamente fez com que o vapor d’água se condensasse sobre ele, gerando várias gotículas.

Em regiões de altitudes um pouco mais elevadas, onde a agricultura tinha ido bem em anos anteriores, as temperaturas ficaram tão baixas que as atividades agrícolas tornaram-se impossíveis naquele ano. Vamos lembrar que era ano de 1816 e não havia o conhecimento sobre melhoramento genético que temos hoje. Atualmente, os especialistas, quando possível, criam variedades de uma mesma cultura, só que resistentes ao frio.

Naquele tempo, era comum que as pessoas tivesse diários. Algumas ainda tem nos dias de hoje (e os chamam de blogs, rsrs). Esses diários nos contam dão algumas informações interessantes sobre o ano sem verão. Nicholas Bennet, que morava no Estado de Nova York, em maio de 1816, escreveu que “tudo estava congelado” e “as colinas estão estéreis, como no inverno”. Bennet também  informou que o chão congelou em 9 de junho de 1816 e os colonos de sua igreja tiveram que replantar as plantações destruídas pelo frio inesperado. Bennet também escreveu, em 7 de julho de 1816,  que as plantas pararam de crescer, tamanho foi o frio. Em 23 de agosto de 1816, Bennet descreveu um novo episódio de geada. Como vocês podem perceber, os relatos de Benner mostram geada e frio intenso em plena época de verão.

Em Oppenheimer (2003),  no artigo entitulado “Climatic, environmental and human consequences of the largest known historic eruption: Tambora volcano (Indonesia) 1815”, o autor aborda as consequências advindas da erupção do vulcão Tambora. O autor também agrupou alguns relatos do Ano sem Verão, tais como:

– Geadas destruiram diversas plantações no nordeste dos E.U.A em maio de 1816;

– Em 4 de junho de 1816 (quase verão!), geadas foram registradas em Connecticut. Em 5 de junho, a maior parte da Nova Inglaterra estava sob a atuação de uma frente fria

– Em 6 de junho de 1816, registraram neve em Albany, Nova York e Dennysville, Maine.

Oppenheimer (2003) fala também da importância dos diários pessoais para que pudéssemos conhecer as experiências dos moradores dos locais e menciona um trecho do diário de um morador de Connecticut, em 7 de junho de 1816:

“Eu me lembro bem de 7 de junho… vestido com roupas grossas de lã e com uma capa. Minhas mãos ficaram tão frias que eu tive que deixar minhas ferramentas de lado e usar um par de luvas …  Em 10 de junho, minha esposa trouxe algumas roupas que tinham sido estendidas no varal na noite anterior. Essas roupas estavam duras e congeladas, como acontece no inverno.”

Em Quebec, Canadá, foram registrados 30cm de neve, acumulados entre 6 e 8 de junho de 1816.

Usando simulações numéricas, informações de testemunhos de gelo, observações astronômicas e outras fontes, Oppenheimer pode reconstruir um mapa com as anomalias de temperatura em 1816. Você pode ver este mapa se tiver acesso ao artigo (veja aqui), já que não posso publicá-lo. Segundo o estudo feito por ele,  as regiões mais afetadas foram o norte da Península Ibérica, nordeste dos E.U.A e costa atlântica do Canadá. No entanto, toda a Europa e quase todo hemisfério norte tiveram anomalias negativas de temperatura (ou seja, temperatura abaixo da média).

Em uma figura da Wikipedia (veja abaixo), de um artigo de Luterbacher et al (2004), podemos observar como ficaram as anomalias de temperatura na Europa, no ano de 1816. O leste europeu teve temperaturas dentro da média e em alguns casos, até uma anomalia positiva foi observada. Já o restante da Europa, principalmente  a França, sudeste da Grã-Bretanha e Península Ibérica tiveram anomalias negativas, indicando temperaturas abaixo da média. O resultado de Luterbacher et al (2004) é bem parecido com o obtido por Oppenheimer (2003).

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Reference: Luterbacher, J., D. Dietrich, E. Xoplaki, M. Grosjean, and H. Wanner. 2004. European seasonal and annual temperature variability, trends and extremes since 1500. Science, 303, 1499-1503.

Como já mencionei e como vocês já devem estar imaginando, o frio foi responsável por uma terrível escassez de alimentos.

De acordo com o artigo da Wikipedia (que me serviu como fonte inicial de pesquisas), um historiador de Massachussets declarou, na época:

” Geadas severas ocorreram todos os meses. Em 7 e 8 de junho registramos queda de neve. Estava tão frio que algumas plantas foram cortadas, até suas raízes estavam congeladas…os preços dos alimentos ficaram elevados, as pessoas pobres começaram a pedir por comida nas ruas …”

 

Com relação aos preços dos alimentos, foram registradas altas absurdas. A aveia, cereal muito consumido no hemisfério norte, ficou 10x mais cara nos E.U.A. No oeste da Irlanda, houve quebra na safra de trigo, aveia e batatas, principais fontes de carboidratos dos moradores desta região. Foram registradas crises severas em várias partes da Europa, com fomes, saques e ondas de protestos.

Na China, problemas também foram registrados no ano de 1816. O frio intenso matou plantações de arroz no norte da China. As monsões ficaram alteradas, e enchentes mais intensas que o normal foram registradas no sul da China e no norte da Índia, agravando uma epidemia de cólera.

Muitos morreram em decorrência do frio intenso e das epidemias. Além da epidemia de cólera, a epidemia de febre tifóide matou centenas na Europa. Algumas estimativas apontam que mais de 200.000 pessoas morreram no Ano sem Verão.

Lembram quando escrevi esse post sobre Meteorologia e Arte? Então, os grandes  pintores que retratam paisagens acabam nos dando pistas sobre a época em que viveram. Alguns teorizam que as cores alaranjadas, predominantes no céu de O Grito, de Edvard Munch, são resultado aumento do Espalhamento Mie, resultado da grande concentração de aerossóis resultantes da erupção do Vulcão Krakatoa. Esse vulcão entrou em erupção em 23 de agosto de 1883 (acho que ele explodiu, na verdade) e O Grito foi pintado no ano de 1893. Os aerossóis, resultado da erupção vulcânica, ficam suspensos no céu por muitos anos após a erupção.

O_Grito Bom, o mesmo pode ter acontecido no caso do Monte Tambora. Em 1828, J.M.W. Turner pintou o Canal de Chichester (localizado no sul da Inglaterra). Alguns estudiosos teorizam que o predomínio da cor amarela no pôr-do-sol retratado por Turner deve-se a enorme quantidade de aerossóis provenientes da erupção do Tambora e ainda presentes na atmosfera.

Chichester_canal_jmw_turner

Claro que são especulações (tanto no caso d’O Grito, quanto no caso de O Canal de Chichester). Mas não são especulações sem fundamentos. Em 1991, o Monte Pinatubo entrou em erupção. A fotografia abaixo foi tirada em 1992, em Hong Kong. Reparem as tonalidades alaranjadas bem incomuns:

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Fonte: Wikimedia Commons

Apesar de detestar o verão, eu não gostaria de ter um ano sem verão. Espero que vocês tenham gostado do post 🙂

 

Nota humorística (e com algum fundamento): vocês conseguem imaginar o pessoal do futuro usando nossos blogs, tweets ou qualquer outro texto escrito na internet como referência para os costumes e sensações de nossa época? Todos meus tweets reclamando do calor… vão falar: Olhem só, no início do século XXI já reclamavam do calor intenso…

Hehehe, não acho impossível 🙂