O que é essa letra C???

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Há alguns dias, a imagem acima tem circulado pelas comunidades de meteorologistas. Quem fez esta montagem foi Lizando Jacóbsen, meteorologista do SIMEPAR, que escreveu as seguintes palavras:

Aí pessoal da arte visual da Rede Globo. Um ciclone extratropical é representado pela letra B, pois é (e sempre será) um sistema de BAIXA pressão mais intenso. Ilustração da previsão é bonita e fantástica, mas didaticamente não está correto.  Termos e símbolos meteorológicos não devem ser ignorados e/ou usados de forma incorreta.

O problema da figura é que não usamos a letra ‘C’ para caracterizar um ciclone. Há uma lista de símbolos sinóticos usados em meteorologia. Os meteorologistas aprendem a representar os fenômenos usando esses símbolos nas chamadas cartas sinóticas:

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Símbolos sinóticos principais. Fonte: Ilha Sailing.

Um ciclone pode ser representado pela letra B, pois trata-se de um centro de baixa pressão. Não é foi o caso, mas se evoluísse para uma tempestade tropical ou furacão, há simbolos apropriados para isso (veja tabela acima). Já vi algumas cartas representarem o fenômeno da primeira imagem como VC (de ‘Vórtice Ciclônico’).

Eu nunca vi o uso da letra ‘C’ antes. Eu me lembrei de um caso de 2011, do ciclone Arani, que ganhou destaque nas cartas sinóticas (falei sobre ele aqui):

Fenômeno AraniEsse símbolo representa céu completamente obscurecido e faz parte de outro conjunto de símbolos meteorológicos. O meteorologista responsável pela carta sinótica acima foi muito feliz, pois usou um simbolo para chamar a atenção para o fenômeno (ciclones intensos provocam ventos superiores a 80km/h e podem causar  danos em embarcações, pois provocam ondas muito altas). E usou um símbolo correto, para que o fenômeno não fosse confundido com um furacão.

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O uso da letra ‘C’ neste caso recente foi motivo de discussão por parte de comunidade meteorológica. Alguns disseram que era bobagem, e que a letra ‘C’ é para facilitar a comunicação com a população, já que ‘C’ = ciclone. Outros prefeririam que fosse utilizada outra terminologia (talvez o mesmo símbolo usado no caso Arani), pois seria correta.

Eu acho que estou em cima do muro. E é uma posição confortável, consigo ver os dois lados :). Na verdade não é bem isso, eu tenho a tendência a me inclinar para um lado do muro. E isso vai ficar bem claro. Eu realmente gostaria de levantar algumas questões:

– A palavra final é sempre (ou quase sempre) do jornalista: eu trabalhei pouco tempo com previsão, em uma empresa privada. Vi várias vezes jornalistas ligando para a empresa em tom indignado, dizendo que não tinham entendido o que havíamos escrevido. O texto é enviado para o jornalista, que pode modificá-lo usando aquilo que julga ser certo.

– Muitos jornalistas sofrem de cientofobia, numerofobia ou o que valha. É incrível, tudo é difícil. Outro dia falei a palavra senóide para uma jornalista e ela pediu pelo amor de Deus para eu parar. É triste, sério mesmo. É um grande problema de alguns profissionais: o preconceito de área. E vou ser justa, o preconceito de áreas acontece também do profissional de exatas para com o profissional de humanas.

– Por que são jornalistas que apresentam a previsão do tempo? Acho isso errado e muito injusto. Se um meteorologista for treinado para se comportar bem diante das câmeras, vai conseguir fazê-lo. Televisão é treino, já dizia o Prof. Augusto Pereira na disciplina de Meteorologia nos Meios de Comunicação. Eu conheço vários meteorologistas que são ótimos comunicadores, como a Josélia Pegorin, Desirée Brandt, Giovanni Dolif, etc.

– Por que tão pouco tempo? Eu tenho a impressão que algumas emissoras, como a Globo, tem investido em mais tempo na previsão do tempo. E cá entre nós, embora a questão da letra ‘C’ tenha ocorrido na Globo, é preciso dizer que a Flávia Freire tem feito um ótimo trabalho. O pessoal de arte da Rede Globo também está de parabéns, porque várias vezes já vi o uso de recursos visuais muito didáticos para explicar fenômenos, como aqui onde ela explica sobre a formação de nevoeiros e aqui onde ela fala sobre o Sandy. No entanto, ainda acho que o tempo é curto. O Brasil é um país muito grande, mais tempo seria necessário para explicar melhor.

– Por que tão poucos telejornais? Nos E.U.A, que são um país com dimensões continentais como o Brasil, há diversos telejornais locais, que focam na previsão do tempo daquela determinada região. Isso com certeza melhora a qualidade da apresentação da previsão do tempo. Além disso, notícias locais ganhariam um destaque melhor. Eu tenho a impressão que as emissoras pequenas (as tais ‘afiliadas’ ) acabam focando muito na programação do Rio-São Paulo (ou outras capitais) e deixam os interesses locais um pouco de lado.

– Por que tratar o público como idiota? Eu sei que um telejornal como o Jornal Nacional fala com pessoas de diversos graus de instrução. No entanto, sinceramente acredito que se você explicar algo com cuidado, usando palavras simples e corretas, você consegue transmitir a informação para todas as pessoas do Brasil. A Flávia Freire faz isso muito bem. Eu não entendo qual  a dificuldade em explicar que um ciclone é um centro de baixa pressão. Poderiam inclusive usar uma animação bonita para explicar isso melhor. As pessoas não são idiotas, elas apenas não tem conhecimento. E podem aprender se isso for introduzido.  Enquanto tratarem a meteorologia como ‘a hora da moça falar sobre o tempo’, ninguém vai levar a sério. Um profissional precisa apresentar, falar sobre o assunto, introduzir o tema para as pessoas. A apresentação da previsão do tempo também é divulgação científica.

Links e bibliografia

– Clique aqui para ver 13 tabelas com símbolos meteorológicos (clique nas setinhas).

– Reportagem do Paraná Online explicando como a previsão do tempo é feita e valorizando nossa profissão.