A história por trás dos nomes dos furacões



O Prof. Alexandre Costa compartilhou esta interessante reportagem do Washington Post. Vou traduzi-la e acrescentar alguns elementos, envolvendo algumas coisas que já falamos aqui no Meteorópole.

Eu já falei sobre nomes de furacões nesse post, onde também falo do mito que diz que todos os furacões tem nomes de mulheres. Na ocasião, expliquei que o NHC (National Hurricane Center), que é o Centro Nacional de Furacões, departamento da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) lá dos EUA, responsável por monitorar os furacões, fazer previsões e ajudar a evacuar áreas de risco, cria listas com nomes de furacões. Essas listas de nomes vão da letra a A até Z, sempre alternando entre nome feminino e masculino. Se um furacão é muito destrutivo, como Sandy e Katrina, esses nomes são aposentados e nunca mais aparecerão em nenhuma lista. Isso é importante, para evitar pânico por parte da população.

Essa reportagem do Washington Post traz mais informações sobre o sistema de nomenclatura de furacões. Talvez em alguns pontos eu repita as mesmas informações que disse nesse post, mas leiam até o final porque tem muita coisa nova.

A temporada de furacões começa no final de junho e vai até o novembro. Lá no NHC, é comum que os pesquisadores recebam e-mails com sugestões para nomes de furacões. O autor da matéria, Jack Williams, até diz para que “o leitor mantenha a sugestão para si”. O pesquisador Dennis Feltgen diz que chega a receber pelo menos uma dúzia de e-mails mensais com sugestões para nomes de tempestades.

Talvez o público geral não entenda que a escolha de nomes para os furacões que ocorrem no Golfo do México seja um processo bastante formal e organizado. Os nomes vem na verdade de seis listas básicas, onde nomes de furacões que são muito destrutivos ou causaram muitas mortes são removidos, dando lugar a outros nomes de tempos em tempos. Ou seja, são 6 listas básicas, atualizadas de tempos em tempos.

Sendo assim, nomes novos são admitidos apenas quando um nome que ficou associado a um furacão muito destrutivo é removido da lista. Por exemplo, o nome Sandy saiu das listas, dando lugar ao nome Sara. Como a lista de nomes de 2012 será reciclada e re-utilizada em 2018, não veremos nessa lista o nome Sandy, mas sim o nome Sara.Eu tinha dito nesse post que

Quando escrevi este post sobre nomes de furacões em outubro de 2010, o nome Sandy estava lá (reparem na segunda coluna, referente a 2012):

Lista de nomes para os furacões do Atlântico para os próximos 6 anos. Em destaque, o furacão Rina, o mais recente. Fonte: NHC
Lista de nomes para os furacões do Atlântico para os próximos 6 anos. O furacão Rina está destacado pois quando escrevi esse post, era o furacão do momento. Fonte: NHC

Mas quando entrei na página do NHC hoje pela manhã, encontrei a lista nova (incluindo 2017 e 2018). Reparem que a lista de 2018 é muito parecida com a lista de 2012 (como disse, a lista de 2018 é a lista de 2012 reciclada, as listas se reciclam a cada 6 anos). No entanto, o nome Sandy não aparece, dando lugar ao nome Sara:

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Sandy foi o 77° nome a ser retirado da lista.

O sistema de nomear os furacões do Golfo do México e região começou em 1950, usando nomes daquela lista de nomes usadas para soletrar durante a Segunda Guerra Mundial: Able, Baker, Charlie, Dog, Easy, etc. O curioso e irônico é que quando chegou na letra E (Furacão Easy), ele não foi nada fácil. Na verdade não trouxe muitos dados para as ilhas caribenhas, mas destruiu cidades na Flórida.  Esse sistema durou de 1950 até 1952 e os nomes não eram retirados da lista. Portanto, no período de 3 anos os mesmos nomes foram usados!

Em 1953, o NHC (que na época chamava-se apenas Hurricane Center) passou a usar nomes femininos comuns em países de língua inglesa. Uma das razões para terem mudado do alfabeto de soletrar é porque essa lista de nomes era usada para … soletrar. Então imaginem a confusão: se fossem soletrar o prefixo de uma aeronave (supondo, prefixo TAF qualquer coisa),  e para isso usassem essa lista (que também era uma lista de nomes de furacões), diriam: Tare/Able/Fox. No entanto, vamos supor que essa aeronave estivesse sobrevoando o Golfo do México e que o furacão Able estivesse nas proximidades… Isso poderia causar erros de interpretação, falhas, enganos e desespero!

 O sistema atual de alternar entre nomes masculinos e femininos, normalmente nomes comuns em países de língua inglesa, francesa ou espanhola, começou em 1979. Mais mulheres começaram a ser meteorologistas e a prática de usar apenas nomes femininos para designar furacões foi considerada sexista. O que de fato é, pois isso gera piadinhas pra lá de desagradáveis.

Perceberam também que além de nomes comuns apenas em países de lingua inglesa, entraram na lista nomes comuns em países de língua espanhola e francesa. Isso foi feito em consideração aos países caribenhos que falam outros idiomas que não o inglês. Se vocês observarem, há nomes como Paulette e Rafael na lista, nomes que não são comuns em países anglófonos.  Os serviços do NHC são usados não apenas pelos EUA, mas também pelos países do Golfo do México.

Ok, mas vamos voltar a questão sexista… por que usavam nomes de mulheres antes? Eu já devo ter até falado disso por aqui, mas ao que parece esses eram os nomes das namoradas e esposas dos meteorologistas da Marinha e do Exército norte-americano que trabalharam durante a Segunda Guerra Mundial. Muito provavelmente a ideia original veio do romance Storm, de George R. Stewart. O livro era o ‘Guerra dos Tronos’ da época, lido por vários jovens meteorologistas. Eu comparei com o Guerra dos Tronos porque a série e os livros fazem muito sucesso entre meus amigos meteorologistas rs.

O mais interessante em Storm é que o personagem principal do romance é um ciclone. Só que é um ciclone extra-tropical e não um ciclone tropical (nome técnico do fenômeno furacão). Nota zero em sinótica, senhores meteorologistas da guerra rsrs. No romance, o personagem humano principal nem tem nome, é chamado apenas de ‘meteorologista júnior’. O ciclone, no entanto, chama-se Maria. Na história, o fenômeno ocorre no Pacífico. A justificativa do meteorologista da história é que é bem mais fácil dar nomes aos furacões do que falar sua posição geográfica (latitutude e longitude). Ele nos convenceu :). Convenceu tanto, que ninguém consegue imaginar um boletim de alerta de furacão sem usar um nome para identificá-lo.

E para finalizar, o autor da reportagem nos convida a pensar. Veja a imagem de satélite abaixo, de 26 de setembro de 1998. Aqui a gente tem o furacão Georges bem próximo da Flórida e em direção a Nova Orleans. Temos também o furacão Jeanne, Furacão Karl e Furacão Ivan, espalhados Oceano Atlântico. Imaginem a loucura que seria a descrição desta figura sem o uso de nomes para cada um dos furacões…

Even worse, imagine how broadcast meteorologists would have tried to talk about what was happening on Sept. 26, 1998 with Hurricane Georges just having hit Key West and on its way toward New Orleans while hurricanes Jeanne, Karl, and Ivan were churning the Atlantic Ocean if none of the storms had names. {x}

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