Por que no Mauna Loa?



Um dos mitos mais comuns propagados pelos ditos “anti-aquecimentistas” ou “negadores do aquecimento global” é de que as medidas realizadas no Mauna Loa sofrem influências de gases emitidos por atividade vulcânica.

A última vez que o Mauna Loa entrou em erupção foi de 24 de março a 15 de abril de 1984. Não houve fatalidades na ocasião, mas erupções mais antigas, como as que ocorreram nos anos de 1926 e 1950 destruíram vilarejos.

Quando realizamos uma medida científica, seja ela qual for, alguns erros podem acontecer. Podem ser erros no equipamento (defeitos de fabricação, desgaste, etc) ou falha humana (erro na hora de manusear o equipamento, erro de leitura, desconhecimento dos detalhes técnicos do equipamento etc). Os cientistas e técnicos que lidam diariamente com aquele trabalho sabem identificar uma falha. Por exemplo, se em São Paulo eu observar uma umidade relativa de 5%, claro que ficarei desconfiada, pois sei que é um valor que nunca aconteceu por aqui. Também vou desconfiar de uma observação muito alta de temperatura que ocorra aleatoriamente, como no exemplo abaixo:

Sendo assim, vamos nos colocar no lugar dos funcionários e da equipe do pessoal que trabalha nas observações no Mauna Loa ou que usa os dados para publicarem em revistas internacionais, cujos artigos passam por revisão de outros cientistas.

Famosa curva de Keeling, com as concentrações de C02 medidas no Observatório de Mauna Loa, no Havaí.
Famosa curva de Keeling, com as concentrações de C02 medidas no Observatório de Mauna Loa, no Havaí.

Então vamos supor que o pesquisador está trabalhando dados da década de 80 de concentração de CO2 do Mauna Loa. Em 1980, a concentração era aproximadamente 337ppm e em 1990 era aproximadamente 354ppm. Bons tempos do Atari, roupas com ombreiras, Freddie Mercury estava vivo e a concentração de CO2 era abaixo de 400 ppm.

Bom, então lá por volta de 1984 (época da última erupção do Mauna Loa), certamente os instrumentos observam um pico de CO2. Os geólogos estão monitorando o vulcão. Eles (e todo mundo) está vendo a erupção. Ora, o cara que está trabalhando com os dados vai descartar esses dados ou vai passar algum filtro sobre eles. Isso me parece bastante claro, não? Será que os negacionistas estão questionando a inteligência dos cientistas? O cara vai apresentar o trabalho em um congresso. Ele vai deixar aquele pico aleatório e instantâneo de, sei lá, 10000 ppm, impresso no gráfico da apresentação? Mas só se ele for maluco.

E se vocês não estão acreditando que as medidas no Mauna Loa são feitas levando em consideração a proximidade do vulcão (aliás, há outros vulcões na região, que é conhecida como Parque Nacional dos Vulcões do Havaí) não sou eu que estou falando isso. Há várias publicações discutindo isso:

Rhodes, J.M. and Lockwood, J. P. (editors), (1995) Mauna Loa Revealed: Structure, Composition, History, and Hazards, Washington D.C., American Geophysical Union Monograph 92, page 95

Eu encontrei a cópia do livro acima de maneira bastante ilegal pela web. Não vou compartilhar aqui porque tenho um pouco de receio. Só estou avisando que é possível. De qualquer maneira, creio que os mais interessados podem procurar a universidade mais próxima e solicitar uma pesquisa.

Os vulcões não estão o tempo todo em atividade. Além disso, é muito mais fácil remover dos dados de uma influência de uma fonte fixa do que de uma fonte variável. O Mauna Loa fica longe da influência humana. Seria impraticável instalar um observatório destes em um grande centro urbano. O crescimento urbano, o aumento do número de veículos, os diferentes horários de circulação desses veículos, fábricas, queimadas de cidades vizinhas e etc compreenderiam muitas fontes variáveis, sendo mais difícil remover dos dados sua influência.

Além das medidas de CO2, outros trabalhos científicos são realizados por ali. Há um observatório solar, um observatório astronômico e uma estação meteorológica bastante completa.

As medidas de CO2 não são realizadas apenas no Mauna Loa. Há uma rede global e colaborativa, como podemos ver descrita neste link da NOAA. Para medições globais de concentração de gases estufa, é necessário que os observatórios sejam instalados em áreas bem distantes de centros urbanos:

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Rede da NOAA para medição da concentração de gases do Efeito Estufa. Mais informações aqui. Reparem que as medidas são feitas na superfície, através de observatórios mais completos, através de aeronaves e até através de torres meteorológicas (fazendo medidas acima da superfície).

 Além disso, o CO2 não é o único gás que causa o efeito estufa. Essa rede de observações também faz medidas de CFC’s, Metano e Óxido Nitroso, que são outros gases também responsáveis pelo aquecimento global. O CO2 também não é o gás que tem mais capacidade de aquecer a atmosfera. Se pegássemos uma molécula de CO2 e ma de CH4 (metano), por exemplo, teríamos que a molécula de metano tem mais capacidade de aquecer a atmosfera. Mas, o CO2 está em quantidade muito maior na atmosfera da Terra! Enquanto os CFC’s, o Óxido Nitroso e o Metano estão em concentração na casa de ppt (partes por trilhão) o CO2 tem concentração na casa de ppb (partes por bilhão). E se vocês observarem a Figura 2 deste link, verão que a concentração de CO2 na atmosfera foi a que mais cresceu comparativamente aos outros gases de efeito estufa (considerando medidas desde o final da década de 70).

É por essa razão que o  CO2 é o gás mais repetido quando o assunto é aquecimento global. E o observatório Mauna Loa é usado como uma espécie de referência porque é o local onde as medidas são realizadas há mais tempo.

Como mostrei no mapa acima, as medidas são feitas em outros locais também. Procurando pelo site da NOAA, encontrei uma comparação entre medidas em 4 estações destas do mapa. São os quatro observatórios, marcados em azul no mapa acima.  Essas estações estão em pontos completamente distantes entre si (veja mapa do Google Maps abaixo da figura e veja também no mapa acima):

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Comparação entre medições de CO2 em 4 estações diferentes. Fiz um mapa (veja abaixo) localizando cada uma dessas estações. Fonte: NOAA


Visualizar Barrow, AK em um mapa maior

Esses sobes e desces anuais nas curvas de concentração do CO2 foram comentados aqui. Trata-se da variação anual de vegetação. Em Barrow, no Alasca, deve ter uma variação bem significativa de vegetação ao longo das estações do ano. As plantas perdem as folhas no outono/primavera e fixam menos carbono. Já no Pólo Sul não tem árvores, mas deve ter um ou outro líquen ou qualquer coisa assim. E no inverno polar (que é bem escuro), a taxa de fotossíntese que já deve ser bem pequena durante o restante do ano, deve chegar bem perto de zero. Não entendo muito de botânica, mas sei que plantinhas de locais assim arrumam outras formas de obter nutrientes.

O detalhe é que esses outros 3 locais de medição apresentados na figura não são próximos de vulcões, pelo menos que eu saiba. Apenas isso já faz cair por terra a hipótese dos negacionistas.

Comparando as curvas dos quatro lugares, a gente percebe que em todos os lugares há tendência de aumento de concentração do CO2 e os valores médios locais estão muito próximos. Assim sendo, gostaria de saber por que os negacionistas ainda usam este argumento de que “Mauna loa é um vulcão”.

Dentro do mundo da pseudociência, há todo tipo de pessoa. Cheguei nessa conclusão após ler debates de criacionistas, de defensores da homeopatia, de praticantes da medicina quântica, etc. Há pessoas que realmente agem de má fé. Há pessoas motivadas por crenças. Há pessoas que apenas querem ser ‘do contra’. Há os conspiracionistas. Há gente que é realmente ignorante (aqui ignorância no sentido de desconhecer o assunto discutido). E dentre esses que são realmente ignorantes, já ouvi delírios como:

– O observatório Mauna Loa realmente existe? Fica num lugar tão desabitado, eles estão inventando a existência deste observatório porque ninguém pode provar que não existe.

Pessoal, fuçando mais uma vez no site da NOAA encontrei as fotos dos equipamentos utilizados, do local onde esta instalado lá no Havaí. Tenho certeza que se você tem grana e tempo para ir até o Havaí, poderá até agendar uma visita. E por favor, me leva junto.

E para finalizar, aproveito para recomendar dois sites que me ajudaram na pesquisa para escrever este site. São dois sites ótimos.

1) O primeiro deles é o Skeptical Science. Os artigos são revisados e são muito bem escritos. Eles escreveram um artigo sobre as observações no Mauna Loa que está 1 milhão de vezes melhor que esse que escrevi. Recomendo, recomendo e recomendo.  O Skeptical Science possui artigos em diversas áreas. O mais bacana é que você pode selecionar o nível do artigo: Básico, Intermediário e Avançado. Assim, você pode aprender coisas e tirar dúvidas sobre áreas com as quais você não tem muita afinidade.

2) Quando o assunto é aquecimento global e mudanças climáticas, não posso deixar de recomendar o melhor blog sobre o assunto. É o blog do Prof. Alexandre Costa da UECE. Todos os posts são muito informativos e escritos em linguagem de divulgação científica. Nesse texto, ele fala sobre os negacionistas do aquecimento global. Recomendo 🙂

E recomendo também o grupo Meteorologia Brasil, no Facebook. Eu fiquei na dúvida se era um grupo fechado ou não e por isso não sabia como linká-lo. No entanto, soube que trata-se de um grupo aberto. Se você gosta de Meteorologia, inscreva-se e participe das discussões. Os participantes do grupo postam ótimos links, textos e excelente material sobre meteorologia. Várias discussões super proveitosas ocorrem por lá, recomendo 🙂