The Blue Marble – história e imagens

O nome Blue Marble significa “bolinha azul”, provavelmente com a ideia de “bola de gude azul”. Vi alguns meios de comunicação brasileiros traduzirem como “bola de mármore azul”. Eu me pergunto se isso faz algum sentido. Teoricamente até faz, porque o mármore polido pode ter um tom azulado. No entanto, a palavra marble significa bolinha de gude, uma bolinha que não é feita de mármore, mas sim de vidro.

Na verdade, esse nome apareceu pela primeira vez em 1972, quando os astronautas da Apolo 17 tiraram uma famosa fotografia de nosso planeta (no dia 7 de dezembro daquele ano):

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Figura 1: The Blue Marble, imagem obtida pela tripulação da Apolo 17 em 7 de dezembro de 1972. Fonte: Wikimedia Commons

O azul dos oceanos da Terra chama a atenção dos astronautas. Onze anos antes da famosa imagem do Blue Marble, o astronauta russo Yuri Gagarin (o primeiro homem a ir ao espaço), a bordo da nave Vostok I disse uma das frases mais famosas do mundo:

A Terra é azul. Como é maravilhosa. Ela é incrível!

E Yuri Gagarin não era charmosão? Ele morreu em 1968, pouco depois de completar a missão. Abaixo, uma fotografia dele em um postal em sua homenagem:

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Figura 2: o charmoso Yuri Gagarin, primeiro homem a ver a Terra do espaço em 12 de abril de 1961. Fonte: Wikimedia Commons

 

Esse lindo tom de azul que inspirou tanta gente depois de Gagarin, também deu origem ao nome “The Blue Marble”. O azul cristalino dos oceanos se assemelha ao tom de azul de algumas bolinhas de gude.

A famosa imagem (Figura 1)  pega todo o Continente Africano, a Península Arábica a Antártida. No topo direito da imagem (bem no topo direito) podemos ver um ciclone tropical no Oceano Índico. Essa tempestade trouxe chuvas intensas, que provocaram enchentes, além de ventos intensos na região indiana de Tamil Nadu no dia 5 de dezembro de 1972, 2 dias antes da fotografia ter sido tirada.

Recentemente descobri uma coisa muito interessante: a imagem original não tinha essa orientação! O continente Antártico estava “em cima”:

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Figura 3: Imagem original obtida pelos tripulantes da Apolo 17 em 7 de dezembro de 1972. A imagem foi então invertida (Figura 1) para a projeção que estamos mais acostumados. Fonte: Wikimedia Commons

Sim, isso provoca certa estranheza, já que estamos acostumados com mapas em que a Europa esta “em cima” e a África está “em baixo”. Só que não existe isso de “em cima” ou “em baixo” quando falamos em mapas. O correto é falar que está mais ao Sul ou mais ao Norte. Como os primeiros exploradores e cartógrafos estavam localizados no Hemisfério Norte, precisamente na Europa ou Ásia, eles começaram a desenhar os mapas de modo a colocar esses continentes no centro do mapa-múndi e na parte superior. Já repararam que a Europa sempre está no centro de mapas deste tipo? Para divulgar a fotografia de modo que as pessoas associassem com a visão “tradicional” dos mapas-mundi, eles inverteram a imagem The Blue Marble.

Provavelmente isso ainda deve acontecer hoje. Muitas imagens de satélite que vemos diariamente também estavam ‘invertidas’, originalmente. Programas de computador relativamente simples podem inverter a imagem (podemos fazer isso até com nossas fotos, rs).

Mas o que tudo isso tem a ver com o título do post? Bom, recentemente a NASA fez um conjunto de imagens de satélite de altíssima resolução. Essas imagens foram melhoradas por cientistas e técnicos dessa instituição. Deram ao conjunto o nome de “Blue Marble”, em homenagem as fotografias da década de 1970. Esse novo conjunto (também chamado de Blue Marble Next Generation), foi divulgado em 2012. Esse novo conjunto de imagens possui uma resolução muito melhor e os satélites possibilitam que outras áreas do planeta também sejam vistas.

Claro que a imagem mais famosa do  Blue Marble Next Generation é aquela que foi feita em ângulo muito semelhante ao da Blue Marble original (Figura 1):

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Figura 4: Foto em alta resolução de 2 de fevereiro de 2012 mostra África, Oriente Médio e Sudeste Asiático (Foto: NASA/NOAA)

Mas como eu disse, agora também é possível ver a Terra de outros ângulos. Como por exemplo essa imagem que pega o Golfo do México:

Figura 5: Fotografia de 25 de janeiro mostra as Américas (Foto: NASA/NOAA/GSFC/Suomi NPP/VIIRS/Norman Kuring)

Figura 5: Fotografia de 25 de janeiro de 2012 mostra as Américas (Foto: NASA/NOAA/GSFC/Suomi NPP/VIIRS/Norman Kuring)

O realce pelo computador permite que outros tons de azul sejam inseridos. Nas imagens do Blue Marble Next Generation, podemos ver uma delicada capa azul em torno do planeta. Essa capa azul trata-se da atmosfera da Terra.

Além das imagens das Figuras 4 e 5, o Blue Marble Next Generation, permitiu a criação de um interessante time-lapse que mostra a variação de cobertura de neve ao longo de 1 ano (Figura 6). Esse time-lapse foi feito com imagens mensais de todo o ano de 2004. Essas imagens foram reprocessadas e deixadas em alta definição, para que pudéssemos ver todos os detalhes. Como a maior parte dos satélites meteorológicos são americanos ou europeus, há uma quantidade muito maior de imagens para o Hemisfério Norte. Além disso, se observarmos o mapa-múndi, notamos que a área continental no Hemisfério Norte é maior do que a área continental no Hemisfério Sul. Sendo assim, a gente só consegue ver continente coberto por neve no Hemisfério Sul no extremo sul da América do Sul e em alguns pontos mais altos, em montanhas da Nova Zelândia, Cordilheira dos Andes e Kilimanjaro. A Antártica fica o ano todo coberta por neve, assim como boa parte da Groenlândia, Escandinávia, norte da Rússia, norte do Canadá e Alasca. Essas são regiões polares, que recebem pouca radiação o ano todo. Essa radiação é insuficiente para derreter o gelo.

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Figura 6: Animação usando imagens do Marble Next Generation. São imagens mensais, de janeiro a dezembro de 2004. Fonte: NASA Earth Observatory/Wikimedia Commons

Talvez alguns achem que a Figura 6 está um pouco escura. Eu gostei dela porque no canto superior esquerdo ela mostra os meses. Podemos reparar então o período de inverno em cada um dos hemisférios. Eu encontrei uma imagem mais clara, mostrando a mesma coisa, mas infelizmente a indicação dos meses foi removida:

Figura 7:

Figura 7: Animação feita com o mesmo período da Figura 6 (janeiro a dezembro de 2004), só que um pouco mais clara. Isso talvez melhore a visualização. Fonte: NASA Earth Observatory/Wikimedia Commons