Nuvens altas: o anúncio de uma frente fria



O Renan, leitor e amigo de Juiz de Fora-MG, me mandou algumas imagens e a mensagem abaixo:

Boa noite! Mais duas ‘fotinhas’ básicas para contribuir com o blog:

-Na primeira foto, feita hoje (29/maio)  ao meio dia, o tempo estava 100% encoberto por Altostratus (ou pelo menos eu acho, rs). Em mesoescala, sobre a região Sudeste, atuava um VCAN (Vórtice Ciclônico de Altos Níveis, eu nem sei direito o que é isso e bem que você poderia nos explicar algum dia, rsrsrs).

-Na segunda foto, uma clássica nuvem cirrus! Não me lembro o dia exato.

Abraços, espero que goste 🙂

Altostratus

Cirrus

O Renan mandou a mensagem e as fotos acima no último dia 29, mas eu fui viajar no feriado (depois falo mais sobre isso) e não tive tempo de colocá-las no ar. E eu gostei da sugestão do Renan, de falar sobre VCAN. Vou escrever um post sobre isso e pretendo pedir a ajuda de um amigo que sabe muito dessas coisas. Só não sei dizer quando farei isso rsrs.

Os leitores fiéis deste blog já devem ter ouvido falar do Renan inúmeras vezes. Além de contribuir com fotos, ele contribuiu com um guestpost sobre sua estação meteorológica automática.

Nas fotos acima, vemos dois tipos de núvens que anunciam a chegada de uma frente fria. Para dizer a verdade, quando uma frente fria se aproxima, podemos ver nuvens de todas as alturas:

Nuvens ao longo de uma frente fria. Reparem que a área com ar quente (São Paulo-SP, no nosso caso) possui nuvens tipo Cs (Cirrostratus) no céu. Fonte: adaptado de Thomson Higher Education
Nuvens ao longo de uma frente fria. Reparem que a área com ar quente (São Paulo-SP, no nosso caso) possui nuvens tipo Cs (Cirrostratus) no céu. Fonte: adaptado de Thomson Higher Education

Em uma frente fria, o ar frio avança sob o ar quente. O ar quente, forçado a subir, atinge alturas com temperaturas mais baixas. O vapor d’água contido no ar condesa-se, formando nuvens.

As primeiras nuvens a darem as caras são nuvens altas, as nuvens Ci e Cs. Elas anunciam que uma frente fria está chegando e normalmente aparecem uns 2 dias antes da passagem da frente fria sobre aquele local. Depois temos as nuvens médias e finalmente as nuvens baixas. Essas nuvens baixas podem ser apenas nuvens Sc/St, que não provocam precipitação, mas podem ser também do tipo Cb, responsáveis por chuvas com trovoadas.

Com relação a chuva, ela pode ocorrer até antes da chegada da frente fria em si. Áreas de instabilidade da própria frente e umidades de outras fontes (do oceano, por exemplo, trazida pela brisa marítima, cenário muito comum em São Paulo-SP e outras cidades não muito distantes da costa) podem fazer com que a chuva chegue antes da chegada da frente fria. A chuva também pode ocorrer depois da passagem da frente fria, também causada por áreas de instabilidade e umidade.

Após a passagem da frente fria, normalmente uma massa de ar mais fria fica dominando a região e as temperaturas caem.

Um grande indicativo de que uma frente fria está passando naquele local é a mudança persistente na direção dos ventos. Nas Regiões Sul, Sudeste, sul da Região Centro-Oeste e sul da Região Nordeste, notamos que uma frente fria está passando pois o vento antes apresentava uma direção predominante de quadrante N (N, NE, NNE, ENE, NW …) e então passa a apresentar direção predominante de quadrante S (SSE, SE, ESE, SW, …).

E uma outra coisa interessante que uma das fotografias do Renan nos permitem explorar: a identificação de nuvens tipo Altostratus. Alguns dos leitores podem estar interessados nos nomes de nuvens e talvez pretendam iniciar um treino na classificação dos tipos. Aliás, ontem, durante minha palestra lá na Construcap, a simpática e gentil Eng. Cinthia me disse que não fazia ideia que as nuvens tivessem nomes. Acho que essa é mais uma das maluquices dos meteorologistas (profissionais ou amadores). O pior é que a gente acha que todo mundo sabe disso rs.

Nuvens Altostratus são facilmente identificáveis se elas estiverem sobre o disco solar ou lunar. Na primeira foto do Renan, a gente nota que o disco solar está meio “borrado” e em torno dele há um aspecto leitoso. É possível perceber que o disco solar está atrás da nuvem, mas suas bordas estão um pouco borradas. Quando isso acontece, é certeza que ali temos uma nuvem Altostratus, pois outras nuvens não fazem isso.

Nuvens baixas, como Sc ou St, normalmente são bem espessas e são daquelas que se cobrirem todo o céu, deixam o dia completamente nublado e a gente nem consegue ver o disco solar. O mesmo ocorre durante uma tempestade, pois nuvens Cb podem ficar na frente do Sol (o ocultá-lo completamente, pois são muito espessas) ou podem estar na direção oposta do Sol e então temos aquela situação de “Sol e chuva, casamento de viúva”. Por outro lado, nuvens altas são em geral bastante tênues e não provocam esse aspecto borrado e leitoso, muito característico de nuvens Altostratus (As).

Já escrevi diversos posts sobre nuvens e classificação de nuvens. Acho que é o tema que mais abordei aqui no Meteorópole, pois talvez foi o que me fez apaixonar-se por meteorologia. Esse post talvez seja o mais completo sobre o assunto.

Como sempre, Renan, muito obrigada pela contribuição. 🙂