Projeto Cirrus: eles tentaram modificar um furacão!

Ouço de tudo quando dou palestras. Perguntas interessantes, observações engraçadas, perguntas sem noção, observação de engraçadinho que quer fazer stand up, etc. Normalmente as crianças são as que fazem mais perguntas interessantes ou criativas. Acho que as crianças não tem vergonha, tem ‘cara de pau’, não tem o medo de ser a chacota do grupo (medo típico de adolescentes).

Uma vez ouvi um menino de uns 10 anos dizer o mais ou menos o seguinte:

Se o furacão ganha força com a evaporação da água do mar, que tal a gente colocar um gigante cubo de gelo (usando helicópteros, claro) na água do mar? A água vai ficar fria e a evaporação vai diminuir.

Ele não pensou em como esse gelo seria fabricado e transportado. Mas aparentemente Matt Groening teve a mesma ideia, só que com o objetivo de conter o aquecimento global no século XXX:

E se eu contasse para vocês que uma ideia parecida realmente existiu fora da mente de uma criança de 10 anos e fora da mente perturbada dos produtores de Futurama? O Projeto Cirrus foi a primeira tentativa de modificar um furacão. Sim, foi a primeira, significa que tentaram outras vezes (várias outras vezes). O projeto Cirrus foi uma colaboração entre a empresa General Electric e as forças armadas norte-americanas, quando tentaram modificar um furacão em 13 de outubro de 1947.

Um avião sobrevoou bem próximo ao furacão e jogou o equivalente a 82kg de gelo seco picado em uma das bandas de nuvens do furacão. Pra vocês entenderem o que é uma banda de nuvens, vou mostrar uma imagem. As rain bands são as tais bandas de nuvens (ou bandas de chuva), que fazem parte da estrutura de um furacão. Retirei a imagem abaixo daqui:

Hurricane-en.svg

Muito provavelmente eles devem ter jogado o gelo seco na banda mais externa do furacão. Imagino que o piloto e os tripulantes dessa aeronave eram malucos, porque esse é o tipo de coisa do qual não é necessário apenas coragem. É preciso também parafusos a menos!

A tripulação do avião reportou que houve modificação nas nuvens atingidas pelo gelo seco.  Não sabe se foi devido ao gelo seco, mas o furacão mudou a direção prevista.  A opinião pública culpou o gelo seco pela mudança, fazendo com que o projeto fosse cancelado, inclusive sob ameaça de processos.

Agora cá entre nós, em 1947 a previsão do tempo era feita de maneira bem diferente. Sem imagens de satélite, sem supercomputadores e com uma rede menor de estações meteorológicas, as previsões não tinham a mesma qualidade que temos hoje. Sinceramente não acredito que 82kg de gelo, face a um furacão de algumas centenas de quilômetros de diâmetro, não faça tanta diferença. Não sei, se bem que a aplicação do gelo seco foi bem local, em apenas uma região do furacão. Esse experimento deve ter sido super caro, vidas arriscaram-se para efetuá-lo e ele não gerou resultados promissores ou com resultados convincentes.

Decidi falar do Projeto Cirrus porque recentemente o Prof. Dr. Carlos Morales compartilhou um vídeo em que o Dr. Vincent Schaefer, do Laboratório de Pesquisas da  General Electric Research, demonstra seu método de fabricação de neve em um freezer de laboratório. Essa pesquisa levou ao desenvolvimento do Projeto Cirrus, mencionado acima.

Talvez alguns pensem: mas pera aí, eu já raspei o gelo do antigo congelador da casa da minha avó e aquilo não é a mesma coisa que neve? Não! Os flocos de neve possuem lindos padrões geométricos (falei sobre eles aqui), que tem a ver com seu processo de formação.

No vídeo, o Dr. Vincent Schaefer primeiro demostra que a gente pode fabricar nuvenzinhas dentro de freezers, apenas colocando algo um pouco mais quente e úmido em contato com o frio do aparelho. Ele mostra por exemplo a fabricação de uma nuvenzinha sobre a mão do funcionário.

Em seguida, ele raspa gelo seco dentro do freezer, em cima da nuvenzinha formada pelo calor de sua mão (ou por uma baforada). O efeito imediato dessa raspadinha de gelo seco é muito interessante: as raspinhas formam como se fossem ‘caminhos’ no meio da nuvenzinha. Segundo o Dr. Schaefer, ocorre a formação de flocos de neve muito parecidos com aqueles formados em uma tempestade de neve comum. Colocando mais umidade na nuvenzinha, os flocos crescem ainda mais, pois a pressão de vapor d’água é maior que a pressão de vapor do gelo.

O efeito colorido é o efeito da refração da luz nos pequenos cristais de gelo, que separam a luz em diferentes cores.

Schaeffer  então remove a neve com uma folha de papel. Sem seguida, ele forma mais uma nuvenzinha e ao invés de colocar raspinhas de gelo seco, ele coloca um outro produto (infelizmente não conseguir entender o nome). O efeito é muito semelhante ao do gelo seco. Milhares de cristais de gelo são formados. O interessante é que o cientista dá uma baforada na nuvem cheia de cristais de gelo e eles parecem aumentar de tamanho e de quantidade. Como eles crescem em tamanho muito rapidamente, eles acabam ficando mais pesados e caem no fundo do freezer. Mais uma vez, o efeito da luz nesses cristais é muito bonito. Esses cristais tem um formato hexagonal e quando estão grandes, a gente quase consegue ver o hexágono direitinho. Para um vídeo de mais de 60 anos, creio que é um feito e tanto.

A partir dos 5:00 do vídeo, Schaeffer começa a mostrar o potencial de sua experiência em semeadura de nuvens (cloud seeding, em inglês).  Hoje a comunidade científica é bem cética com relação a esta técnica. Hoje é um método tido por muitos como ineficaz, mas ainda divide opiniões na comunidade científica.