A ciência brasileira não é feita por cientistas, afirma professora da UFRJ



Fonte: Free Digital Photos
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 Meu amigo Vlamir me mandou um link muito interessante, com algumas declarações da Prof. Dr. Suzana Herculano-Houzel, da UFRJ. Segundo a professora, a ciência no Brasil não é feita por cientistas. Hum, vocẽ deve ter ficado com a pulga atrás da orelha. Talvez o título seja obra da mente da jornalista. Talvez a professora tenha de fato dito isso. Mas quando lemos a reportagem, a gente compreende o que se quer dizer: a maioria das pesquisas científicas é feita por estudantes de iniciação científica, pós graduação (mestrado ou doutorado) ou pós-doutorado.

Isso significa que muitas vezes quem coloca a mão na massa são esses estudantes e o pesquisador (professor de uma universidade) apenas coordena o trabalho. Há diversos casos que conheço de alunos que trouxeram inovação, técnicas novas e muitas informações para uma determinada pesquisa. Muito mais que seu próprio orientador (o orientador é o tal pesquisador). Bom, daí quando um artigo científico vai ser publicado, muitas vezes, o nome do aluno vem em segundo ou terceiro lugar, o que é completamente injusto, já que ele foi o maior responsável pelo trabalho.

O grande problema é que esses alunos não possuem vínculo empregatício. Eles recebem bolsas de instituições como FAPESP ou CNPq. Essas bolsas possuem um período de duração. Com o fim da bolsa, uma nuvem de incertezas começa a pairar sobre o aluno. Muitas vezes é difícil conseguir um emprego. Uma pessoa que faz um mestrado ou um doutorado fica muitas vezes um bom tempo esperando abrir um concurso em alguma universidade ou centro de pesquisa.

Sem contar o preconceito que um estudante sofre. Lembro que quando eu fazia mestrado, tinha que explicar várias vezes que eu recebia para estudar. Quando você tem mais de 25 anos, é dificil fazer as pessoas entenderem que é possível ser estudante com essa idade. Infelizmente, boa parte da mídia faz uma espécie de propaganda negativa, associando o termo “estudante” a “vagabundos” ou “desocupados”. Basta ver as notícias quando há greves nas universidades públicas.  Meu amigo Rodrigo Bombardi, disse umas palavras muito sábias sobre esse tema:

Concordo com a parte de reconhecer como trabalho. Aqui nos EUA é trabalho e conta para aposentadoria. So que eh vida de estudante do mesmo jeito. Os amigos formados tao comprando casa enquanto voce ta morando com mais quatro para conseguir pagar o aluguel. E tambem nao gostei da frase “humilhacao de ser estudante” tem que acabar com esse preconceito contra ser estudante, isso sim. Em teoria somos todos estudantes e eu nao quero nunca deixar de ser um.

Gostei muito quando o Rodrigo disse que em teoria, somos todos estudantes. Meu pai costuma dizer que temos que aprender alguma coisa útil ou interessante todos os dias. Eu acredito muito nisso. Terminei o mestrado (e não quis fazer o doutorado pelas mesmas razões que a Prof. Suzana expôs na reportagem), mas desde então continuo fazendo cursos livres, estudo francês, pesquiso diversas coisas na internet (algumas vem até parar aqui no blog) e procuro sempre me atualizar e aprender alguma coisa.

Agora vamos imaginar o seguinte:  você tem mais de 25 anos, está fazendo doutorado e precisa dividir apartamento com mais 4 pessoas para economizar uma grana. Sim, lembre-se, seu futuro é incerto, você não sabe muito bem o que vai ser depois do final da bolsa, então mora com várias pessoas para economizar e fazer um “pé de meia” (como dizia minha amiga Ana Elisabethe rs) para um eventual e eu diria quase certo desemprego. Talvez eu esteja sendo pessimista, mas acredito que devemos lembrar do pior cenário, sempre. Até abrir um concurso, até surgir uma vaga na sua área (um doutor – ou PhD- é uma mão de obra altamente especializada), pode demorar meses e até anos.

E o que os mestres e doutores fazem até surgir uma vaga (lembre-se, é preciso surgir a vaga e é precisa passar no concurso)? Acabam fazendo vários pós-doutorados (mais pesquisa) e recebem bolsas por cerca de 1 ano (tempo de duração do pós-doc) ou acabam trabalhando como bolsistas. Como assim “trabalhar como bolsista”? Bom, várias instituições de pesquisa e universidade precisam de gente para trabalhar nos projetos de pesquisa. Como os professores são super ocupados e acabam muitas vezes desempenhando tarefas políticas, precisam dos alunos (iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado) e também precisam de mais mão de obra, normalmente serviços prestados por uma pessoa que já concluiu o mestrado ou o doutorado. Essa pessoa terá uma bolsa por um período (1 ou 2 anos, as vezes pode ser renovada) e poderá trabalhar com aquele pesquisador.

É dinheiro? É. Mas sem as garantias de alguém com vínculo empregatício: FGTS, tempo para a aposentadoria, férias, etc. Além disso, raramente um banco vai querer financiar um imóvel ou um automóvel para um bolsista, pois a renda normalmente tem tempo de duração inferior ao tempo de financiamento. Com relação ao tempo para a aposentadoria,  sempre recomendo que façam uma previdência privada e/ou que paguem um carnê de autônomo na Previdência Social. Isso vai fazer com que seja possível contar o tempo para a aposentadoria. Fiquei realmente impressionada quando o Rodrigo contou que lá nos EUA o período que você está estudando conta como trabalho e tempo para a aposentadoria. Acredito que isso poderia ser adotado por aqui também.

Muitas vezes, o aluno termina o doutorado e já tem mais de 30 anos de idade. Muitos já constituíram família. A gente precisa se conscientizar que estudo é trabalho! Meu marido faz doutorado e muitas vezes trabalha durante os fins de semana e em feriados. Há uma enorme dedicação e consequente produção científica. Talvez a maioria das pessoas não compreendam isso porque acham que estudar é igual estudar no ensino fundamental e médio do Brasil, onde não é necessário muito esforço e há um certo ode a mediocridade. O trabalho de um estudante universitário (de graduação ou pós-graduação) envolve trabalhos de campo, congressos, leitura de diversos artigos e livros, análises laboratoriais, escrita de artigos e ensaios, etc. É um trabalho que exige dedicação extrema. Inclusive as agências de fomento (como mencionei, FAPESP e CNPq) exigem dedicação exclusiva, ou seja, teoricamente o aluno que recebe bolsa dessas agências não pode trabalhar em outros locais. Recentemente tentaram flexibilizar isso, mas ainda não é o suficiente. O aluno não pode,  por exemplo , trabalhar meio período em uma empresa de consultoria ou como professor em uma faculdade particular. É claro que essa regra acaba não sendo seguida totalmente, porque as pessoas precisam de dinheiro para manter-se. Há vários alunos de pós graduação que já tem filhos e é claro, possuem mais gastos. Eu não consigo nem julgar uma pessoa que arrisca sua bolsa (se você possuir vínculo empregatício externo, pode arriscar sua bolsa: um contrato é assinado e o aluno é ciente disso). Cada um sabe onde a água está batendo, já dizia mais ou menos assim o ditado.

O que a Prof. Suzana quis dizer (se é que ela disse exatamente o que está escrito na manchete) é que a maioria das pessoas que realizam trabalhos científicos no país não possuem vínculo empregatício. Isso é realmente muito triste e desestimula a produção científica. Eu fiz mestrado e não quis fazer doutorado por essa razão. Logo que concluí o mestrado, fui trabalhar no INPE como bolsista. A experiência foi muito boa, aprendi bastante por lá, só que o fato de não ter um vínculo empregatício me incomodava bastante, pois eu queria realizar alguns sonhos que dependiam de dinheiro e de planejamento a longo prazo. E é muito difícil planejar qualquer coisa a longo prazo recebendo bolsas.

Eu espero que esse texto longo atinja pelo menos um objetivo: que o preconceito contra estudantes seja extinguido. O preconceito existe quando a gente não entende muito bem aquele assunto. Quando buscamos informações, quando conversamos com pessoas que estão naquela situação e quando nos colocamos no lugar delas, passamos a respeitá-las, a entender seus direitos e até a admirá-las. Por trás de qualquer pesquisa científica, não tem só aquele pesquisador que aparece no telejornal falando sobre sua descoberta. Há uma equipe, composta por diversos estudantes e bolsistas que amam o que fazem.

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* Essa imagem me fez perceber uma coisa: os artistas sofrem do mesmo tipo de preconceito dos estudantes. Há muitos músicos, atores e artistas plásticos super talentosos, alguns até desempenhando excelentes trabalhos sociais, mas que são discriminados pela sociedade. São até chamados de “vagabundos” ou “desocupados”.  O artista, se não “está na Globo”, não é considerado um profissional de sucesso. Muitos tem enormes dificuldades em conseguir emprego ou financiamento para os seus projetos.