Afinal, como definir a palavra deserto?



Um post que escrevi na semana passada (sobre a tal ‘água em pó’) me inspirou a escrever um texto sobre desertos. O blog já tem mais de 2 anos e eu já falei sobre desertos algumas vezes, mas eu senti que faltava um post mais abrangente.

Deserto do Saara. Fonte: Free Digital Photos
Deserto do Saara. Fonte: Free Digital Photos

Como existem desertos de todos os tipos (quentes ou frios) é difícil chegar em uma definição concisa. No entanto, podemos falar em características principais dos ambientes desérticos.

A primeira delas é a pouca disponibilidade de água para as plantas.  Costuma-se dizer que  há um desbalanço entre precipitação e evapotranspiração (soma da evaporação do solo + transpiração das plantas) .

A evaporação é maior em situações com muito vento, baixa umidade atmosférica, chuva esparsa e em pouca quantidade e temperaturas altas. Isso faz com que a umidade do solo, essencial para manutenção das plantas, seja ainda mais diminuída, aumentando ainda mais a evapotranspiração.

A média anual de precipitação de cada um dos desertos da Terra é uma quantidade muito variável. Cada deserto tem uma característica. Na Patagônia, a média anual de precipitação é muito próxima de 0 mm. Na parte do litoral líbio do Deserto do Saara, a precipitação chega a 600m anuais. De acordo com a Britannica, costuma-se considerar que para ser um deserto verdadeiro, o local precisa ter total anual de precipitação inferior a 250mm. Se o total for entre 250mm e 400mm, o local é semi-desértico.

As regiões mais secas do planeta contribuem muito pouco na produção de alimentos. Em algumas regiões, a pequena quantidade de relva que cresce  é usada como pasto.

Se pegarmos um mapa com a distribuição de todos os desertos do planeta, veremos que a maioria deles estão localizados em latitudes muito próximas a dos trópicos de Câncer e Capricórnio. Não é uma mera coincidência. Nessas regiões, um padrão global de circulação da atmosfera chamado Célula de Hadley tem um movimento de cima para baixo (os meteorologistas chamam de movimento subsidente). Esse movimento dificulta a formação de nuvens e favorece a evaporação.

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Desertos do mundo. Reparem como há desertos nas regiões próximas do Trópico de Capricórnio e do Trópico de Câncer. Fonte: GROASIS.com
Precipitação média anual em todo o planeta. Repare que as regiões na cor amarela (precipitação inferior a 250mm anuais) correspondem as regiões desérticas da figura anterior. Fonte: USGS
Precipitação média anual em todo o planeta. Repare que as regiões na cor amarela (precipitação inferior a 250mm anuais) correspondem as regiões desérticas da figura anterior. Fonte: USGS

As regiões próximas a linha do Equador, apesar de receberam mais radiação solar, não possuem desertos porque temos um forte movimento de convecção. Isso significa que o Sol aquece a superfície da Terra nesses locais  e consequentemente aquece o ar acima dela,  que sobe e forma nuvens (através da condensação do vapor d’água). Na faixa equatorial de nosso planeta é onde encontramos os maiores acumulados de precipitação.

Nos níveis mais altos da atmosfera, o ar que subiu formando as nuvens nas proximidades da linha do Equador movimenta-se em direção aos trópicos e desce nos subtrópicos, próximo dos trópicos de Capricórnio e Câncer. Esse ar então esfria-se na superfície, movimenta-se em direção ao Equador novamente. Isso fecha a Célula de Hadley (ou circulação de Hadley).

Esse ar que desce nos subtrópicos já é bem seco, porque perdeu toda a umidade lá no Equador (com a chuva que caiu).  No seu movimento de descida (movimento descendente), esse ar se aquece um pouco e fica ainda mais seco. O movimento descendente dificulta a formação de nuvens. Os chamados desertos quentes forma-se nessa região de ar descendente, que consistem nas proximidades dos Trópicos de Câncer (Hemisfério Norte) e Trópico de Capricórnio (Hemisfério Sul).

A céluna de Hadley é o nome dado a um padrão de circulação global
A célula de Hadley é o nome dado a um dos padrões de circulação global (em vermelho, na ilustração). O ar sobe na região do Equador terrestre, provocando convecção (Zona de Convergência Intertropical). Em níveis mais altos da troposfera, o ar desloca-se para os trópicos (próximo as linhas dos trópicos de Câncer e Capricórnio, ou seja, nos dois hemisférios). O ar desce sobre essas regiões e volta, em superfície, para o Equador. Fonte: The COMET Program
Célula de Hadley, em detalhe, ilustrando a convecção na região do Equador. Fonte
Célula de Hadley, em detalhe, ilustrando a convecção na região do Equador. Fonte Union College [1]

Claro que isso não é uma regra. Por exemplo, o Estado de São Paulo é ‘cortado’ pelo trópico de Capricórnio (meu pai sempre pedia para abaixar a cabeça quando víamos as placas…rsrs), mas não é um deserto. O formato do continente Sul Americano, que vai ficando mais “afunilado” a medida que desloca-se para a direção Sul,  favorece que as regiões recebam umidade proveniente do oceano.

Mapa das Américas. Talvez vocês já devem ter reparado que a América do Sul é  mais 'afunilada' conforme nos deslocamos para Sul. Se fosse uma área tão continental como é a América do Norte, certamente teríamos um deserto no interior do Brasil. Fonte: .guiageo-americas.com
Mapa das Américas. Talvez vocês já devem ter reparado que a América do Sul é mais ‘afunilada’ conforme nos deslocamos para Sul. Se fosse uma área tão continental como é a América do Norte, certamente teríamos um deserto no interior do Brasil. Fonte: .guiageo-americas.com

Um interessante padrão atmosférico que relaciona-se com o relevo pode também ajudar a formar um deserto. Quando uma parcela de ar úmido sobre uma montanha, ele vai provocar chuva naquele lado da montanha. Só que quando essa parcela de ar desce para o outro lado dessa mesma montanha, ela já não possui mais umidade. Conforme ela vai descendo, comprime-se e se aquece. Teremos então um lado da montanha verde e o outro lado, seco.

 A figura abaixo, embora apresente valores em °F (graus Fahrenheit), ilustra esse fenômeno: um lado da montanha é úmido e mais frio, enquanto o outro lado é seco e mais quente. A parcela de ar que ajudou a formar a nuvem de chuva do outro lado perdeu todo vapor d’água. Ao descer a montanha, essa parcela aquece-se adiabaticamente. Esse vento quente e seco que desce a montanha para o outro lado é chamado de Chinook Wind. Isso pode ajudar a formar algumas regiões desérticas (como o Deserto da Califórnia, nos EUA e o Deserto de Gobi, na Ásia).

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Fonte: 4029weather.wordpress.com

 Além de chover muito pouco nos desertos, a quantidade das chuvas mal distribuida espacialmente e temporalmente. Isso significa que se contarmos o número de dias de chuva em um deserto, esse número certamente será menor que 20 dias. E a chuva pode inclusive ser forte. Em 5 de outubro de 1979, na região desértica de Mashʾabe Sade, Israel, choveu 14 mm em apenas 7 minutos, o que é considerado uma chuva intensa. Em Madagascar, toda a chuva do ano normalmente cai em apenas 1 mês, caindo apenas em áreas muito pequenas do deserto. Por outro lado, na  na região desértica de Cochones, no Chile, ficou sem chover por 45 anos! Isso ocorreu entre 1919 e 1964, segundo a Britannica.

Nos outros dias, nem uma gotinha de chuva! As vezes há um pouco de orvalho ou um pouco de nevoeiro, mas nenhum valor realmente mensurável (menor que 0,1mm). As vezes chega a ter chuva, mas ela não chega no chão. Isso mesmo! A nuvem de chuva aparece, mas o calor é tão intenso que as gotinhas evaporam antes de chegar no solo.

Como comentei nesse post, o nevoeiro é uma importante fonte de umidade em alguns desertos. No post, falei especificamente dos cata nieblas no Deserto do Atacama, no Chile. Essa técnica de captura de gotículas de água de nevoeiros também é usada em outros países, como Iemen e Nepal.

Os chamados desertos quentes possuem temperaturas muito altas. O recorde de temperatura mundial ocorreu em um deserto:  no Death Valley, na Califórnia, ( 56,7°C do dia 10/07/1913). O recorde anterior (que deixou de ser recorde por um possível problema na instalação da estação meteorológica responsável) também tinha ocorrido em um deserto: numa borda do Deserto do Saara, na Líbia ( 57,8°C  em 13/09/1922) [2].

Se formos considerar a temperatura do solo, valores em torno de 78°C são comuns no Saara. Como comparação, a maior temperatura do solo já registrada em São Paulo-SP é 50,2°C (em 15/11/1993, de acordo com informações da Estação Meteorológica do IAG-USP). A temperatura do solo depende muito do tipo de solo. Solo nu costuma ter temperaturas máximas mais elevadas do que uma região gramada. O tipo de cobertura dos desertos (um assoalho formado por areia e rochas escuras) é ideal para absorver muita radiação solar e consequentemente apresentar temperatura elevadíssimas. Esse tipo de cobertura também tem por característica perder calor rapidamente, apresentando uma enorme amplitude térmica diária: ou seja, perto do meio-dia, a temperatura é elevadíssima (chegando aos 78°C mencionados). Durante a noite e madrugada, a superfície pode ficar extremamente fria, o que faz com que as temperaturas mínimas do ar fiquem  bem perto de 0°C, principalmente nas áreas mais continentais dos desertos. Após o por do Sol, a temperatura cai drasticamente, uma vez que o solo perde o calor para o espaço. Como em regiões desértica não há nuvens (ou há poucas nuvens!), não existe um mecanismo para segurar o calor. A propósito, por não terem tantas nuvens, regiões desérticas são muito usadas para a implantação de telescópios e radiotelescópios.  As atividades de astronomia dependem de céu completamente sem nuvens!

Antenas do projeto Alma, no Deserto do Atacama, no Chile. Fonte: DW.
Antenas do projeto Alma, no Deserto do Atacama, no Chile. Fonte: DW.

Há também desertos frios, localizados em latitudes mais altas (mais distantes dos trópicos) e que portanto possuem temperaturas mais baixas. Esses ambientes áridos normalmente são causados por serem extremamente continentais (longe da costa) e portanto não recebem a umidade proveniente dos oceanos ou porque há uma cadeia de montanhas altas que separa a região desértica da costa, provocando aquele efeito de região bem chuvosa de um lado da montanha e região mais seca do outro lado da montanha.  As montanhas tem um papel na formação de alguns desertos da região mais central da Ásia: o Himalaia é uma enorme barreira. Temos uma estação extremamente chuvosa e bem definida em partes da Índia e em Bangladesh. Por outro lado, mais ao norte, depois do Himalaia, há o deserto de Gobi. Os desertos frios também são ambientes bastante áridos e com solo ressecado, assim como os desertos quentes. O total anual de chuva também é muito pequeno e também chove erraticamente.

Bom pessoal, tentei nesse post abordar as principais características climáticas dos desertos. Os desertos são um tipo de ecossistema que na minha opinião são muito interessantes, pois desafiam os limites e eu diria que até a criatividade dos seres humanos. Há pessoas que vivem no deserto ou que trafegam por ele, viajando por quilômetros em lombos de animais. Apesar de ser um ecossistema aparentemente inóspito, há algumas formas de vida vivendo por lá. Considerando a Terra como um todo, sob o ponto de vista Gaia, todos os ecossistemas estão integrados. Os desertos também possuem importância e beleza.

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[1] Leia mais sobre padrões de circulação global aqui.

[2] Veja mais informações sobre o recorde mundial de temperatura aqui.