Água em pó??? Que marmota é essa?



Antes de falar coisa séria, vou contar uma piadinha que era muito comum na época em que eu era aluna do curso técnico em Eletrotécnica, no antigo CEFET. Um aluno cara de pau chegava sério para um aluno novo e dizia:

– Cara, esses cientistas são demais. Acredita que inventaram água em pó?

Então o novato ficava surpreso e se fosse suficientemente ingênuo e tivesse uma pitada de curiosidade no ser, não questionaria a veracidade da afirmação (lembre-se, na época a internet não era tão popular como hoje):

– Poxa, cara, que legal! Água em pó. Deve ser muito caro. Como funciona?

O veterano respondia:

– Pô, cara, você coloca água e ela funciona.

Bom, daí ontem eu estava lendo algumas notícias quando me deparo com uma , cuja manchete é: ‘Água em pó’ pode tornar a seca um problema do passado. Apesar do termo estar entre aspas, deixando evidenciado que trata-se de uma figura de linguagem ou algo assim, eu lembrei da piadinha acima e comecei a rir. Que marmota é essa de água em pó?

 

Batizado de "Chuva Sólida", o pó é capaz de absorver enormes quantidades de água para liberar o líquido aos poucos, permitindo que as plantas sobrevivam a um período de seca. Um litro de água pode ser absorvido por apenas 10 gramas do produto, que é um tipo de polímero especial criado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos na década de 1970. "Ele funciona encapsulando água e pode durar oito a dez anos no solo, dependendo da qualidade da água", explica o engenheiro químico Sérgio Jesus Rico Velasco. Fonte: UOL
Batizado de “Chuva Sólida”, o pó é capaz de absorver enormes quantidades de água para liberar o líquido aos poucos, permitindo que as plantas sobrevivam a um período de seca. Um litro de água pode ser absorvido por apenas 10 gramas do produto, que é um tipo de polímero especial criado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos na década de 1970. “Ele funciona encapsulando água e pode durar oito a dez anos no solo, dependendo da qualidade da água”, explica o engenheiro químico Sérgio Jesus Rico Velasco. Fonte: UOL

Bom, é que foi desenvolvida uma substância capaz de absorver grandes quantidades de água e então ir liberando a água aos pouquinhos. Essa substância é apresentada em flocos (não me pareceu pó). O agricultor de uma região seca poderia então misturar essa substância no solo, durante o plantio. O pouquinho da água de um nevoeiro ou até mesmo do orvalho poderia ser então absorvido por essa substância,  que liberaria a água vagarosamente e permitira que o solo ficasse sempre úmido.

Esse produto foi inventado na década de 70 por pesquisadores do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Foi por muito tempo usado como produto absorvente em fraldas de bebês. Foi quando um engenheiro mexicano viu no produto uma possibilidade adicional, pensando na ideia de misturá-lo ao solo para que pudesse absorver água e então liberá-la vagarosamente. Segundo este engenheiro, o produto poderia armazenar água por 1 ano.

No entanto, de acordo com Linda Chalker-Scott, da Universidade do Estado de Washington, não há evidências científicas que comprovem a eficácia da “água em pó”. Além disso, segundo a pesquisadora, o produto poderia criar um problema adicional: absorvendo a água da superfície do solo, a água que iria para o sistema radicular das plantas seria reduzida. Ou seja, a água ficaria só na parte mais superior do solo. Segundo Chalker-Scott, colocar lascas de madeira no solo surtiria o mesmo efeito.

As palavras da pesquisadora me fizeram questionar mais ainda a eficácia desse produto. Os moradores das regiões áridas do planeta desenvolvem todo tipo de mecanismo para que a agricultura e o bem estar seja possível. No Brasil, é comum o uso de cisternas e poços. Em alguns lugares do Chile, utiliza-se o catanieblas, uma rede que coleta a água dos nevoeiros. Em Israel, utiliza-se a irrigação por gotejamento.  Se a água em pó funcionasse, seria mais uma alternativa para ajudar na produção de alimentos de regiões áridas.

E reparem na manchete: ‘Água em pó’ pode tornar a seca um problema do passado. É uma manchete bem exagerada, não? A seca é situação típica de muitas regiões do globo, não há como fazer com que ela deixe de existir. Há regiões com estações chuvosa e seca bem definidas. Por outro lado, há regiões que são áridas o ano todo, com chuva anual inferior a 400mm (aqui em São Paulo temos cerca de 1300-1400mm anuais e há regiões na Floresta Amazônica com totais anuais da ordem de 3000mm). Normalmente, essas regiões são classificadas como desérticas e não há muito o que fazer. Para que elas deixassem de ser desertos, uma grande mudança global teria que acontecer. Os ventos de escala global teriam que soprar em outras direções, o eixo da Terra teria que ter outra inclinação, etc. Como essas coisas são muito difíceis de acontecer em um curto período de tempo (inferior a 10 mil anos, eu diria), então dentro da existência de nossa civilização, eu diria que continuarão sendo desérticas.