Céu roxinho? Sim, no Sliders teve

Uma de minhas séries favoritas é Sliders. Foi uma série da década de 90 e eu costumava assistir muito quando tinha entre 15-17 anos. Como a série está disponível no Netflix, voltei a assisti-la.

sliders

Na série, Quinn Mallory (interpretada pelo lindo Jerry O’Connell) é um estudante de física, um dos grandes destaques em sua universidade. Em seu porão, ele faz experimentos diversos. O principal dele consiste na criação de um dispositivo que permita viajar entre dimensões paralelas.

Como muitas séries de ficção científica, Sliders  explora um conceito físico que ainda não é inteiramente compreendido ou não é inteiramente popularizado. Nesse caso, é o conceito de multiverso. É claro que não vou ficar aqui tentando explicar alguma coisa sobre Teoria das Cordas porque desisti de meus sonhos de ser física no primeiro ano da faculdade, quando decidi que meteorologia era mais interessante…rs. Não tive as bases teóricas necessárias para entender e explicar a Teoria das Cordas, que é uma das teorias mais mencionadas no estudo de universos paralelos.

No seriado, Quinn Mallory cria um dispositivo (que parece um daqueles celulares antigos, verdade seja dita), como um controle remoto, que é capaz de gerar um vórtex que permite o deslizamento entre universos paralelos. É a mesma Terra, o mesmo ano, só que realidades diferentes. Como o dispositivo de Mallory não estava funcionando muito bem, ele não consegue voltar para a “sua Terra”, então ele fica deslizando de mundo em mundo com o Professor Maximillian Arturo, com sua amiga/namorada Wade Wells (leia rápido: H. G. Wells rs) e com o cantor Rembrandt (que tem um irmão chamado Cézanne rs) Brown, que foi atraído pelo buraco de minhoca (wormhole)  por acidente.

Os críticos dizem que a base física do seriado é bem fraquinha. Para dizer a verdade, não é esclarecido onde Mallory recarrega seu celular-controle-dispositivo. Também não é esclarecido de onde vem tanta energia para fazer com que aquele vórtice do buraco de minhoca seja criado. O mais interessante do seriado são as diferentes possbilidades criadas nas diferentes versões da Terra que eles visitam. Há versões da Terra em que os EUA são uma Monarquia, onde a Rússia venceu a Guerra Fria, um mundo sem vida e tomado por chamas e etc. Além disso, frequentemente os protagonistas encontram seus duplos, o que normalmente gera conflitos ou mal entendidos.

Essa semana assisti um episódio em que a Terra havia sido tomada por andróides. Por alguma razão que não foi explicada ao longo do seriado, o céu do local era roxo. Melhor dizendo, a razão do céu ser roxo foi explicada: naquele lugar, partículas muito pequenas espalham a luz preferencialmente no comprimento de onda referente a cor roxa. O que não foi explicado é da onde viriam essas partículas.

Aqui na nossa Terra querida (como diria Stephen King, aqui no Mundo Chave), o céu é azul . A luz solar é na verdade muito brilhante e branca, sendo uma espécie de “pacote” com diversos comprimentos de onda que formam o Espectro Eletromagnético (veja a figura abaixo). Há uma faixa no espectro eletrmagnético na qual nossos olhos tem sensibilidade em enxergar e identificar o que chamamos de cores.

Quando a luz solar penetra na atmosfera da Terra, ela se espalha. Esse espalhamento é devido a presença de gases e pequenas partículas na atmosfera. As moléculas de gás de oxigiênio e de gás nitrogênio possuem um tamanho e uma estrutura que favorecem o espalhamento na região do azul. Por essa razão, a coloração que vemos durante um dia sem nuvens é aquelelindo azul que a gente tanto ama.

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Espectro Eletromagnético.

Falei um pouco mais sobre Espectro Eletromagnético nesse post. Confira 🙂

A cor azul é portanto resultado dos gases que compõe a atmosfera e de suas concentrações, característica essencial que possibilita a vida da forma que conhecemos. Então fiquei pensando: o que teria feito causado céu lilás/roxinho do Sliders? Levando em conta a explicação do andróide (naquele lugar, partículas muito pequenas espalham a luz preferencialmente no comprimento de onda referente a cor roxa) e deduzindo que a luz solar tivesse o mesmo comportamento de emissão naquela versão da Terra (a emissão é maior em comprimentos de onda na região do visível e considerando que o comprimento de onda associado a cor roxa é um pouquinho menor que o comprimento de onda associado a cor azul, deduzi que aquela atmosfera deveria ser composta por uma concentração menor de moléculas ou partículas consideradas pequenas.

Talvez se a atmosfera de lá fosse composta por gás hidrogênio (H2) daria certo? Emitindo uma luz de comprimento de onda de  430nm,  o gás hidrogênio “devolve” uma coloração azul-arroxeada. O duro seria viver numa atmosfera com uma grande concentração de gás hidrogênio, que é um gás extremamente inflamável. Talvez um outro gás de moléculas pequenas (e que não consigo pensar em um agora, porque não sou muito boa de química). Ou talvez nessa versão da Terra aconteça algo muito parecido com o que acontece em Marte. Em algumas situações, a atmosfera do planeta vermelho pode ser meio roxinha.

Imagem feita pela Mars Pathfinder em 1997. Fonte: Wikimedia Commons

Poente em Marte. Imagem feita pela Mars Pathfinder em 1997. Fonte: Wikimedia Commons

Em Marte, o espalhamento Rayleigh (o responsável por deixar o céu azul na Terra) é um efeito muito fraco, A atmosfera marciana é extremamente rarefeita, composta principalmente por dióxido de carbono, que é uma molécula maior que a do gás nitrogênio ou a do gás oxigênio. A atmosfera marciana é rica em poeira, Essa poeira possui muito óxido de ferro, que tem uma coloração avermelhanda/alaranjada característica. Além disso, a poeira faz com que ocorra o Espalhamento Mie, responsável pela coloração alaranjada durante o pôr-do-Sol ou nascer do Sol aqui na Terra.

Lá em Marte, o espalhamento Mie é maior! Normalmente, lá pelo meio-dia marciano, o  céu  de lá é laranjinha como você já deve ter visto em fotos:

Céu marciano ao meio-dia. Foto de 1999 da Mars Pathfinder (quis usar uma imagem da mesma câmera usada na imagem anterior). Fonte: Wikimedia Commons

Céu marciano ao meio-dia. Foto de 1999 da Mars Pathfinder (quis usar uma imagem da mesma câmera usada na imagem anterior). Fonte: Wikimedia Commons

A foto com céu roxinho que apresentei antes normalmente ocorre durante o pôr-do-Sol marciano, em situações quando há nuvens no horizonte. Essas nuvens são compostas por partículas de gelo tão pequenas que espalham preferencialmente na cor roxa. Talvez, naquele episódio de  Sliders, os aerossóis existentes na atmosfera possibilitam a formação de nuvens com cristais de gelo tão pequeninhos como esses de Marte.

E se você quiser saber como é o céu de outros planetas, clique aqui.

Dicas de links:

Veja os fatores que interferem na coloração do nosso céu através desse applet interativo. Você pode escolher a hora do dia, a presença ou não de moléculas pequenas, etc. Adorei 🙂

Atmospheric Optics, na Wikipedia. Há explicações inclusive sobre a coloração acizentada de nuvens, assunto que também mencionei nesse post. Verbete bastante completo, recomendo.

O céu marciano 🙂

Qual é a cor do céu marciano?