Enxerimento e insensibilidade

Enxerimento.

Está aí uma palavra que acho engraçada (não sei porquê, sempre acho palavras com X engraçadas), mas que explica uma atitude muito feia.  Pessoas enxeridas normalmente gostam de especular sobre a vida alheia, fazendo perguntas desconfortáveis e descabidas que fazem com que qualquer pessoa com o mínimo de bom senso e noções de etiqueta morrerem de vergonha alheia.

O enxerido é um curioso, mas que canaliza mal essa curiosidade. A curiosidade é o que faz o ser humano descobrir coisas e lugares maravilhosos, que dão satisfação pessoal ou que ajudam outras pessoas. Sem a curiosidade, não há ciência.

Talvez aquela pessoa que faz fofoca na vizinhança poderia ter canalizado esse enxerimento em algo produtivo e poderia ser uma boa cientista ou pelo menos aquele amigo legal que sempre tem uma coisa interessante para contar.

Vou usar um exemplo com algo que escrevi em meu outro blog há alguns meses. Há um tempo atrás, eu estava folheando virtualmente a Revista Época. Gosto muito de vários colunistas da revista e semanalmente leio seus escritos. Através de uma dessas colunas, conheci a escritora Joan Didion. A colunista (no caso, Eliane Brum) falava sobre Didion e indiretamente divulgava seu trabalho. Vale muito a pena ler o texto de Eliane Brum (como sempre).

Joan Didion é uma escritora e jornalista norte-americana e foi casada com o também escritor John Gregory Dunne (acho interessante a coincidência parcial com o nome do poeta irlandês). Começou sua carreira como reporter da revista Vogue, fez coberturas jornalísticas de diversos momentos da história recente norte-americana e escreveu alguns livros. Trabalhou também como roteirista e ao lado de seu marido escreveu o roteiro do filme Íntimo e Pessoal (1996). Dentre os livros de Didion, há dois que menciono nesse post: Blue Nights e The Year of Magical Thinking.

Didion e sua família (o marido John Dunne e a filha Quintana Roo). Foto da contracapa de The year of Magical Thinking

Didion e sua família (o marido John Dunne e a filha Quintana Roo). Foto da contracapa de The year of Magical Thinking

A colunista da Época divulgava um trabalho de Didion chamado Blue Nights. Eu fiquei extremamente interessada porque gostei da forma que ela comparou o atual momento da vida dela com os longos crepúsculos de verão, muito comuns em latitudes médias. A escritora referia-se especificamente à cidade de Nova York, onde ela vive. A comparação foi muito sensível e bonita.

Fui pesquisar mais sobre o livro, foi quando descobri que eu deveria ler primeiro The Year of  Magical Thinking para então ler Blue Nights. Não que fosse uma condição obrigatória, mas isso me ajudaria a compreender melhor o momento da escritora. E quando fiz a compra dos livros na Amazon.com, até teve um descontinho 🙂

São duas obras de não-ficção. Os dois livros são narrativas não-lineares sobre acontecimentos trágicos da vida de Didion. Ela fala sobre a perda de pessoas queridas (centrando na perda do marido  e em seguida na perda da filha) e sobre como a perda afetou a maneira de ela encarar a vida. Didion percebeu que o fim de sua vida também está se aproximando, por isso disse que estava no crepúsculo da vida. A dor da perda e a tristeza parece ter feito o tempo se esticar. O fim da vida é a noite e o momento que ela está vivendo agora é este longo crepúsculo em que as noites ficam azuladas, mas não o azul escuro quase negro de uma noite de verão. É um azul mais sutil: um tom intermediário entre o azul do céu durante o dia e o azul/negro do céu noturno (só que o tom em questão aproxima-se mais deste azul escurão).

Em “O ano do pensamento mágico” (The Year of  Magical Thinking), Didion fala da perda de seu marido, mas eu não diria que este é o tema central da trama. Ela fala sobre solidão, sobre a brevidade da vida, sobre como em momentos trágicos lembramos do que passou. Fala das memórias aleatórias que surgem em momentos de reflexão, como quando ela olha da janela do quarto onde sua filha está internada. De maneira muito sensível, Didion fala dos rituais de sua vida, fala do passar do tempo e das mudanças. Não, a autora não quer que o leitor tenha pena dela. Talvez ela espere que o leitor coloque-se no lugar dela e até identifique-se com ela em alguns momentos. No livro ela expõe suas fragilidades e fala sobre a auto-piedade.

Em “Noites Azuis” (Blue Nights), a autora faz a comparação que cativou meu coração, em que ela diz sua vida está no início da noite. Didion fala de sua filha, da adoção, dos momentos marcantes (férias, festas, viagens) para finalmente falar sobre a morte prematura de Quintana Roo. O interessante é ver como ela conta a história de sua filha e sobre como ela tentou de todas as maneiras estar do lado de Quintana enquanto ela estava doente. Para Didion, escrever/produzir/trabalhar são maneiras de curar essa dor (ok, esse é apenas meu julgamento, bem superficial e óbvio, por sinal).

Como os dois livros se completam, sugiro que quem tiver interesse, realmente leia os dois.  Na Broadway, a peça The Year of Magical Thinking  foi feita inspirada na obra homônima.  A atriz principal é a premiadśsima britânica Vanessa Redgrave, que além de uma amizade de longa data com a escritora, compartilha com ela uma dor: Natasha Richardson, filha de Vanessa, que faleceu há alguns anos em um acidente enquanto esquiava.

Bom, daí que eu adorei os dois livros. Eu já li outros livros de não-ficção, mas normalmente o autor conta uma história de sua vida. Uma história de um momento difícil que ele superou ou uma autobiografia. Nesses dois livros de Joan Didion, ela faz uma narrativa não-linear sobre diversos acontecimentos passados de sua vida, só que ela os lembra como memórias que ela está tendo ao longo dessas duas tragédias pessoais.

Mas o que essas coisas todas tem a ver com o título do post? Como gostei desses dois trabalhos da autora, resolvi pesquisar sobre ela para ler mais livros. Foi quando descobri esse post horrível. A autora do post, desprovida de qualquer sensibilidade (Eliane Brum, dá 5% da sua sensibilidade pra ela), foi extremamente  sensacionalista Blue nights não é um livro sobre a morte da filha da escritora. Amorte da filha da escritora é parte do livro.O livro fala de fragilidade, do envelhecimento, do passar dos anos, da brevidade, de que todos nós somos dust in the wind. A escritora, vê o seu próprio fim se aproximando.

A autora do post foi extremamente maldosa e enxerida. E daí que Quintana era alcóolatra? Esse não é um tema central do livro.  O alcoolismo é uma doença que traz um certo estigma social e as pessoas da família do doente muitas vezes não gostam de falar muito no assunto.  E você tem total direito de não querer tocar em um assunto. E tem o direito de mudar de ideia também: por exemplo, Didion já disse em entrevistas que não pretende escrever novamente sobre o assunto. Ou seja: antes ela falava (e escreveu sobre o assunto), agora não fala mais. Simples assim.

Acho muito desagradável quando alguém chega até você e faz exigências para que você fale sobre sua vida. Não! Isso está muito errado!!! Quem estabelece os limites é você! Por essa razão, eu repudio tanto as atividades dos fofoqueiros do bairro e de alguns jornalistas de celebridades. Digo alguns porque muitos apenas noticiam o que é passado pela assessoria de imprensa ou fazem cobertura de eventos sociais. Outros, no entanto, espalham rumores, boatos e junto com paparazzi perseguem celebridades. Lembram-se do caso de Britney Spears? Os carros com paparazzi a perseguiam o tempo todo. Sinceramente achei que ela não iria aguentar, ficaria doente ou até cometeria suicídio. Aparentemente ela se reergueu.

Voltando aos livros,  é mentira que o tema alcoolismo não é mencionado em Blue Nights. Ele é mencionado muito rapidamente, não lembro exatamente o capítulo, mas a autora fala sobre o assunto. No entanto, isso passa tão despercebido, porque não é o tema central do livro. A autora deste texto do Jezebel aparentemente deu um ‘search’ por nomes de doenças em sua cópia digital do livro, com o real objetivo de fazer fofoca. Duvido que ela tenha lido o livro e apreciado a escrita de Didion, da aparente desconexão dos flashbacks (e todos eles falam em brevidade, num passado que se foi, numa tentativa em resgatar memórias e pessoas que se foram).

Faltou total sensibilidade à Jenna Sauers. E infelizmente ela não é exceção. Há pessoas enxeridas e fofoqueiras aos montes. E sinceramente, se a eu  não fizer uma auto-análise das minhas atitudes, posso correr o risco de agir da mesma maneira.

P.S.: Falei rapidamente sobre esses livros em um dos meus fracassados vídeos. Fracassados principalmente porque minha câmera é muito ruim. Além disso, não sei nada de edição e eu sou extramente tímida na frente das câmeras (o horror, o horror). E descobri que não tenho paciência para fazer vídeos. Quando eu encontrar essa paciência, volto a fazê-los.