Filme da semana: O Aprendiz

Confesso que esse filme me deixou com uma sensação ruim, pois aborda um capítulo assustador da história da humanidade: o Holocausto.

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O premiado e queridíssimo ator Ian McKellen dá um show de interpretação. Há momentos em que ele aparente ser um frágil e solitário idoso. Em outros momentos, a obscura face de capanga de Hitler surge no rosto de Artur Denker, senhor alemão que desde a década de 50 possui cidadania americana. Só que Denker não é quem ele diz ser: ele é na verdade Kurt Dussander, um oficial nazista, responsável pela morte de milhares de vidas durante o Holocausto.

Todd Bowden (interpretado por Brad Renfro, que foi uma grande promessa do cinema mas que infelizmente faleceu em 2008) é um rapaz de 16 anos. Um ótimo aluno, está adiantado na escola e é ótimo nos esportes. Um rapaz que aparentemente tem um brilhante futuro pela frente. Durante as aulas de História, ele fica obcecado com o tema do Holocausto. Quando o professor finaliza o tema, ele decide fazer pesquisas por conta própria e numa dessas estranhas coincidências do destino, ele acaba reconhecendo Dussander, apesar de já terem passado cerca de 40 anos desde o final da guerra.

A relação de Todd  com Dussander é estranha. Eu diria que há um tipo de tensão ou de atração romântica. Há também uma relação entre aluno e professor, o que fica claro no título. O título original é Apt Pupil (ou Pupilo Apto). Todo ser humano tem um pouco de maldade dentro de si. Em alguns casos, é muita maldade.  Essa maldade pode ser aflorada em certas condições. Provavelmente foi o que aconteceu com Dussander. Provavelmente quando bem jovem, antes da guerra, ele não imaginaria ser capaz de cometer todas as atrocidades que cometeu contra judeus, ciganos e outras minorias étnicas e homossexuais. Todd também descobre que é capaz de fazer muitas coisas horríveis, após sua convivência com Dussander.

Eu diria que a chantagem é o tema principal do filme. Todd chantageia Dussander. Dussander também faz o mesmo com Todd. Todd também faz o mal aparentemente adormecido despertar dentro de Dussander. McKellen se supera como ator, porque ele inicialmente é um idoso solitário e mal humorado. Depois ele mostra ser uma pessoa muito cruel. E há momentos em que ele demonstra ser um cara frágil. Ele faz todas essas transições com muita perfeição, mostrando todas as faces de um mesmo individuo.

O livro é baseado em um romance de Stephen King. Ainda não li o romance, mas já me informaram que o filme suaviza muita coisa. Há cenas descritas no livro que causariam um grande desconforto em um filme. Mas ok, isso aconteceu com diversos livros de King que foram adaptados em filmes. A propósito, veja aqui uma lista de 20 livros de King que foram adaptados para as telas.

Com o final da Segunda Guerra Mundial, vários criminosos nazistas foram presos. Alguns conseguiram fugir. Muitos conseguiram identidades falsas e foram viver em países  distantes.  Josef Mengele, um homem que realizou crueldades horríveis em campos de concentração, viveu no Brasil por anos.

Mengele morreu afogado em Bertioga. Ninguém preciso afogá-lo. O cara era velho, estava curtindo um momento lazer e acabou morrendo. Uma terrível injustiça! ele deveria ter sido julgado e preso.

Outros criminosos nazistas buscaram refúgio em outros países sulamericanos. Uma terrível vergonha. Há alguns anos, li informações de criminosos nazistas que viveram também em países como Paraguai e Argentina.

Outro dia (e isso faz apenas alguns meses!) eu estava caminhando pela Feira de Antiguidades do MASP. Quem é de São Paulo conhece a feira que acontece todos os domingos no vão livre do MASP. Foi quando vi, em uma das barraquinhas, um quadro com retratos de itens de memorabilia nazista. O quadro (ou anúncio) dizia que se alguém quisesse mais informações sobre aqueles itens, poderia falar com o dono da barraca. Fiquei horrorizada e muito enojada. Eu não sabia como agir. Acho que eu deveria ter comunicado à polícia. De onde teriam vindo aqueles itens? Que tipo de pessoa horrível e criminosa compraria aquelas porcarias? Esse tipo de coisa precisaria ter sido apurada.

Enquanto assisti o filme, não poderia deixar de pensar em Simon Wiesenthal. Wiesenthal era um arquiteto judeu muito famoso no leste europeu. Ficou por anos em campos de concentraçãos. Saiu de lá decidido a buscar justiça! Ele queria que aqueles torturadores fossem julgados e presos.

Wiesenthal acabou sendo responsável pela prisão de diversos criminosos de guerra, fugitivos que estavam escondidos em diversos países (incluindo nos Estados Unidos). Ele dedicou sua vida a buscar justiça. Ouvia depoimentos de outros judeus, juntava pistas e fazia um enorme esforço investigativo para prender essas pessoas.

O documentário “Eu nunca te esqueci” fala da história de Wiesenthal e de todos os seus esforços por justiça:

Além do documentário, recomendo o livro Assassinos entre nós, de autoria do próprio Simon Wiesenthal. Tem um outro livro que quero muito ler mas ainda não procurei em livrarias brasileiras. Chama-se Mission Eichmann, de Manus Diamant. Diamant atuou como um “agente secreto”, usando disfarces e outras técnicas de investigação para reunir provas contra Adolf Eichmann, um dos grandes responsáveis pela logística do extermínio de milhões de pessoas durante o Holocausto.

Os genocídios são capítulos horríveis na história da humanidade. Não podemos esquece-los em memória às vítimas dessas atrocidades. E não podemos esquecê-los para não permitir que aconteçam novamente.

Ano passado fiz a resenha do livro Sobrevivi para Contar, de Immaculee Ilibagiza, que narra os horrores do Genocídio em Ruanda sob o ponto de vista da própria Immaculee, que junto com outras mulheres buscou refúgio num cômodo oculto da casa de um pastor protestante.

Depois de dispersar tanto sobre o assunto, lembro a quem assina Netflix que O Aprendiz está disponível até 01 de setembro. E também tenho que lembrar da questão da classificação indicativa. É um filme com temática bem violenta, é sempre bom verificar a classificação pois evidentemente não é recomendado para todos.