Resenha de “O vento pela fechadura”



Lembram quando comentei que estava lendo The Wind Through the Keyhole?

O marca-páginas fofinho feito pela minha mãe continua me acompanhando.
O marca-páginas fofinho feito pela minha mãe 🙂

Então, eu acabei \o/.

The only stupid question, my cullies, is the one you don’t ask. [Widow Smack] 

“A única pergunta estúpida, meus tolinhos, é aquele que vocês não perguntam*.”

Time is a keyhole (…). Yes, I think so. We sometimes bend and peer through it. And the wind we feel on our cheeks when we do – the wind that blows through the keyhole – is the breath of all the living universe.

“O tempo é uma fechadura. É o que acho. Às vezes nós nos abaixamos e olhamos através dela. E o vento que sentimos em nossas bochechas quando fazemos isso – o vento que sai pelo buraco da fechadura – é a respiração de todo universo vivo.*”

 

E vejam só: o livro que comprei é uma edição totalmente diferente da dos volumes que eu já tinha (dos outros sete livros d’A Torre Negra). Fiquei tão DESESPERADA para ler logo o livro que comprei a versão em inglês. Acabei de ler essa semana. Agora estou com uma certa frescura, porque a lombada e o tamanho desse livro não combinam com a do restante da série que eu já tinha:

A heptologia original d'A Torre Negra
A heptologia original d’A Torre Negra

Frescura extrema!

Quem já terminou de ler a série “A Torre Negra” deve ter provavelmente experimentando um estranho vazio após a leitura da última página do último livro. Roland Deschain e seu ka-tet me deixaram com saudade. Fiquei tão encantada pelos personagens, que me emocionei em diversos momentos da série.

A Torre Negra é uma série do escritor Stephen King narrada em 7 livros. Tomado por um espírito um pouco megalomaníaco, King decidiu escrever uma saga como Senhor dos Anéis, porém ambientada em um mundo que lembra muito aquele narrado nos filmes clássicos de faroeste. Os filmes de Sergio Leone, por exemplo, foram grande inspiração para King. O personagem do Pistoleiro Sem Nome, interpretado por Clint Eastwood foi a base para criar o pistoleiro Roland Deschain. Eu já assisti Por um punhado de dólares e O Estranho sem nome**. Nos filmes, a gente fica sabendo muito pouco sobre o personagem de Eastwood (não sabemos nem seu nome, muito menos seu passado, suas relações, etc). Sabemos apenas que ele faz dinheiro matando pessoas, normalmente criminosos.

Na série A Torre Negra, Roland também é um mistério: “O homem de preto fugia pelo deserto, e o pistoleiro ia atrás“. É assim que o primeiro livro começa. O mistério Roland vai sendo desvendado nos livros seguintes, quando ele encontra seu ka-tet. O ka-tet é um bando, um grupo de pistoleiros que compartilha tudo. O termo é uma das muitas criações de King para ambientar o Mundo Medio, uma versão detonada e distópica dos Estados Unidos. Um universo paralelo bem diferente, em que o povo vive com os restos de tecnologia deixados pelo povo antigo. Um universo em que o mundo seguiu adiante.

Para agradar aqueles que ficaram órfãos com o fim da série (o sétimo livro foi escrito em 2004), King escreveu “O vento pela fechadura”. Na história, ele entra como um livro 4.5. Seria um livro avulso, mas que encaixa-se entre os livros 4 e 5 da heptologia original. Quem não leu a série pode ler “O vento pela fechadura”? Sim, pode e é perfeitamente possível. King, como todo escritor de best sellers, sabe prender a atenção do leitor e sabe escrever de modo a ganhar mais leitores. Tenho certeza que muitos que  lerem “O vento pela  fechadura” ficarão interessados pelos 7 livros da série original.

“O vento pela fechadura” usa aquele artifício de As Mil e Uma Noites, em que Sherazade conta uma história dentro da história.

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Não me refiro as histórias dessa Sheherezade, pelo amor do meu pai… essa poderia deixar a TV e parar de contar suas historinhas, thank-sai.
Ilustração do século XIX (1870, mais ou menos), feita por Sophie Anderson. Essa pintora costumava fazer retratos de mulheres e crianças e na opinião dela, Sherazade (que também se escreve Sheherazade) de As Mil e Uma Noites era assim. Confira o trabalho dessa artista que não é muito conhecida e que trabalhou em uma época em que os homens dominavam esse tipo de arte. Veja mais aqui.
Ilustração do século XIX (1870, mais ou menos), feita por Sophie Anderson. Essa pintora costumava fazer retratos de mulheres e crianças e na opinião de Sophie, Sherazade (que também se escreve Sheherazade) de As Mil e Uma Noites era assim. Confira o trabalho dessa artista que não é muito conhecida e que trabalhou em uma época em que os homens dominavam esse tipo de arte. Veja mais aqui.

O pistoleiro e seu ka-tet se abrigam de uma tempestade. Enquanto estão abrigados, Roland narra uma história de sua juventude. A história é sobre quando ele ainda era muito jovem, depois de ter conhecido sua amada Susan Delgado (e depois de todos aqueles acontecimentos de Mejis e depois daqueles acontecimentos envolvendo sua mãe), e é designado para investigar uma série de crimes que estão ocorrendo na localidade de Derbaria. Lá, ele conhece o jovem Bill, criança que acaba de passar por uma situação muito dramática e Roland acaba se afeiçoando a ele, sendo uma espécie de irmão mais velho. Assim como eu contava histórias ao meu irmão mais novo, Roland conta então uma história ao pequeno Bill. O título dessa história é “O vento pela  fechadura”. É uma história muito linda,  com muita aventura e fantasia, que  possui evidente influência do universo de  C.S. Lewis (de Crônicas de Narnia).

Para entender a história d’O vento pela fechadura, não é estritamente necessário ter lido os outros livros. Não fica claro se a história é real dentro do universo de “A Torre Negra” ou se é apenas uma história com alguns elementos reais para transmitir valores para crianças. Vou explicar: normalmente, quando contam a história de Pedrinho e o Lobo, queremos transmitir para as crianças que a mentira pode ser algo perigoso e que você pode perder seu crédito se for um mentiroso. Não significa que necessariamente houve alguém chamado Pedro e que mentiu sobre um lobo. No entanto, a situação é perfeitamente possível: um lobo ameaçando galinheiros e uma criança mentirosa.

Dentro do universo d’A Torre Negra, a história d’O vento pela  fechadura parece ter a mesma função. Mas eu prefiro acreditar que Tim Ross, personagem principal da história, realmente tenha existido dentro do universo do Mundo Médio. A história começa com “Once upon a bye” no lugar do tradicional “Once upon a time”.  Once upon a time é o nosso “era uma vez”. talvez usando o Once upon a bye o contador de história quer indicar que a história não é um conto da carrochinha, foi real. Ou é apenas mais um maneirismo do Mundo Médio.

Mais uma vez, King coloca crianças no papel de protagonistas com ação real, com personalidade própria e que tomam decisões importantes para a trama. Aí entra muito a semelhança de C.S. Lewis com King e a inspiração é muito clara nesse livro.

Se Stephen King quiser escrever outros livros da série “A Torre Negra”, intermediários à heptologia já existente e com a mesma qualidade e graça d’O vento pela fechadura, eu vou ficar bastante satisfeita 🙂

*Traduções livres. Na versão em português, pode estar escrito de outra maneira.

**Embora O Estranho sem nome não seja um filme de Leone, a ideia do pistoleiro chegando para trazer justiça a um vilarejo é a mesma. Até o figurino do personagem desse filme (que além de estrelado, é dirigido por Eastwood) é muito parecido com os dos filmes de Leone.

—Parte dessa resenha foi também publicada em meu perfil do Skoob. Se tivermos gostos parecidos, me adicione 🙂

 

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