Filme da semana: Flawless (saindo da zona de conforto)

Acabo de voltar de férias e a programação do blog (se é que um dia fiz alguma programação rs) vai voltar aos poucos. O marido de uma amiga me encheu um pendrive com filmes e certamente verei mais de um filme por semana!

No entanto, o filme que assisti ontem a noite não faz parte dessa nova videoteca. Trata-se de um filme que está disponível no catálogo do Netflix e chama-se Flawless. A adaptação do título aqui no Brasil não foi tão feliz, na minha opinião (Ninguém é Perfeito).

Flawless_movie

Mas, por quê saí de minha zona de conforto? A maioria dos filmes que recomendo ou resenho por aqui são filmes de ficção científica. Não escondo para ninguém que é meu gênero favorito, mas ontem eu decidi fazer algo diferente e escolhi um filme com atores muito bons (Robert De Niro e Philip Seymour Hoffman) e de um diretor super premiado (Joel Schumacher). Walt (interpretado por De Niro) é um solitário policial aposentado, que adora dançar tango e sair com mulheres. Ele é grosseiro e homofóbico e vive em conflito com sua vizinha Rusty (Philip Seymour Hoffman), uma drag queen (mas que sonha em fazer a cirurgia de redesignação sexual). Acontece que Rusty apresenta-se em casas noturnas e ensaia seus números musicais em seu apartamento, incomodando Walt, que retruca com ofensas extremamente grosseiras e homofóbicas.

Amber é uma prostituta que é protegida por Rusty. Ela mora no mesmo prédio de Rusty e Walt. Seu namorado rouba o dinheiro de um traficante e decide esconder uma enorme quantia em seu apartamento. Os capangas desse traficante aparecem no prédio, começam a dar tiros e Walt decide agir como o herói que foi no passado (quando estava na ativa, ele salvou muitas pessoas em uma ação policial). Ele sai com a arma e tem um AVC na escadaria do prédio.

A história da confusão com o traficante acaba sendo importante para o desfecho do filme, mas o que gostaria de focar  aqui é no AVC de Walt. Ele não tem família, vive sozinho e o orgulho faz com que ele afaste-se dos amigos após a hospitalização. O AVC deixou sequelas: Walt ficou com metade do corpo paralisado e com a fala comprometida.. Uma dedicada médica decide insistir em sua recuperação. Um fisioterapeuta é designado para trata-lo em casa e sugere que ele faça aulas de canto para reduzir as sequelas em sua voz. Walt acaba batendo na porta de Rusty e pede para que ela ensine canto para ele.

Walt é tão sem noção e orgulhoso que inicialmente vê a possibilidade de sentir-se superior a Rusty. Explico: para ele, como para todo homofóbico, homossexuais e transgêneros não valem nada. Como Walt está se sentindo um inútil após o AVC, ele encontra ali a possibilidade de perturbar alguém que ele considera pior do que ele. Isso é realmente o que ocorre no começo, mas depois começa a surgir uma espécie de amizade no relacionamento dos dois.

O bacana do trabalho de Schumacher são as histórias paralelas. Rusty e suas amigas de profissão no centro de referência LGBTS, arrumando confusões com as outras drags e fazendo algumas discussões ideológicas. Um concurso de beleza drag queen vai acontecer e uma das favoritas é uma simpática e doce amiga de Rusty (Cha-Cha dos Santos).  O concurso chama-se Miss Flawless. Um amigo policial muito irritante de Walt sempre vai visitá-lo durante suas sessões de fisioterapia e ele nunca aprende o nome do fisioterapeuta. O fisioterapeuta é negro e ali dá a entender que ele não dá importância à ele ou ao trabalho dele. A cena em que Walt, de bengala, escorrega na neve (aquela que tem que ver meteorologia em tudo rs). Uma vizinha deles que é uma senhora muito idosa, responsável pela fala mais engraçada do filme:

– Eles (transgêneros) não são mulheres. Também não são homens. Eles nasceram assim. Deve ser alguma coisa na garganta.

Deu a impressão que trata-se de uma senhora bem ignorante sobre o mundo transgênero, no entanto é uma pessoa boa e curiosa. Eu gosto muito de gente assim. Curiosidade e interesse (positivo!) sobre o outro é muito bom! Acho que é o primeiro passo para colocar-se no lugar do outro.

Uma outra cena interessante é sobre a definição de prostituição, segundo Walt. Antes do AVC, ele saia com uma moça que sempre pedia dinheiro para o aluguel. Para ele, aquilo não é prostituição. Mas, se uma moça realmente expõe o jogo e afirma cobrar para sair com outros caras, então é prostituta. A propósito, Walt tem um histórico de ser passado para trás, que acaba revelando a Rusty. Ele foi usado por seu melhor amigo, mas nunca contou nada a ninguém, pois é muito orgulhoso para admitir isso.

O filme tem muito material para ser discutido. Talvez em uma aula sobre homofobia pudesse ser um bom material de apoio. Há cenas de violência física e agressão, pois o prédio em que vive Rusty e Walt fica em uma região perigosa. Muitos de seus vizinhos são envolvidos com drogas.  A classificação indicativa deve ser 14 ou 16 anos, é preciso verificar. As atuações são excelentes. Além do ótimo trabalho de De Niro e Hoffman, gostei muito do trabalho dos atores que fizeram as amigas de Rusty, principalmente do ator que interpretou Cha-Cha dos Santos (Wilson Jermaine Heredia). Tem uma outra amiga de Rusty que chama-se Ivana Man (em inglês a pronúncia fica como I Wanna Man – eu quero homem) e eu morri de dar risada. O universo drag queen é muito colorido e divertido.

Definitivamente, recomendo! É ótimo sair da zona de conforto e conhecer novos gêneros de filmes. Eu não sei se isso vai acontecer para comédias românticas (ainda tenho os dois pés atrás com esse estilo), mas pretendo ver mais dramas, comédias e suspenses!