O carro é apenas um meio de transporte (e divagações)!



Quando eu tinha lá pelos meus 8-11 anos, as professoras pediam trabalhos escolares em que você tinha que montar um painel.

E como a gente motava um painel no início da década de 90? Com cartolina, letreiro (forma para escrever as letras de maneira mais profissional), canetinhas e recortes de jornais e revistas. Algumas enciclopédias disponibilizavam um encarte apenas para recortes (oi Novo Conhecer, oi Pesquisar e Saber). Assim você não precisaria mutilar seus livros de pesquisa.

Prazer, letreiro
Prazer, letreiro

Gente, letreiro era uma régua de plástico! Só que poucas pessoas tinham! As pessoas eram extremamente duras na década de 90 e algumas famílias não tinham grana para comprar isso. Além disso, eu cresci na periferia, onde as pessoas já são duras mesmo. Eu tinha um conjunto de letreiros (tamanho P, M e G) e quando eu emprestava, eu morria de medo de não me devolverem.

Assinaturas de revistas eram coisas meio caras. Alguns amigos mais abastados de meu pai acabavam lendo revistas e disponibilizando-as para que a gente usasse nos trabalhos. Mas isso foi antes da compra semanal de jornal de domingo, quando colecionávamos os encartes do Atlas Mundial da Folha. Era tanto jornal, que acho que se eu procurar, devo encontrar jornais de 1995 no porão da casa de meus pais.

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Atlas Mundial da Folha, minha primeira fonte de conhecimento sobre o mundo. Posso dizer que é minha primeira Internet. Mentira, a primeira fonte de conhecimento sobre o mundo foi a Bíblia, risos.

Lembro que em duas ocasiões precisei fazer dois painéis: meios de transporte e meios de comunicação. Na era pré-internet popular, a gente nem pensava que o computador poderia ser um comunicação. Para dizer a verdade, eu achava que computador era uma coisa muito distante, restrita a empresas. Até 1994, eu só tinha visto computadores no local onde meu pai trabalhava e era algo extremamente restrito. Quero dizer, não existia um computador para cada funcionário. Havia uma sala, com uns 3 computadores, onde os funcionários os usavam para tarefas bastante específicas.

Em 1995, vi um computador na casa de uma tia. E em 1996, meu pai adquiriu nosso primeiro computador. Começamos a comprar revistas sobre computadores, ocasionalmente. Então aprendi que existia uma coisa chamada internet só que era algo caro e inatingível. Só fomos ter internet em casa em 1998 ou 1999, se não estou enganada. O primeiro site que acessei foi o do Museu do Louvre, pois era uma das indicações da Revista do CD-Rom (era da Editora Europa). Depois aprendi que existia o tal Bate Papo do UOL, mas infelizmente nunca conheci ninguém interessante por lá (uma amiga minha arrumou até namorado nesse bate papo rs). Comecei a usar o mIRC e o ICQ e também comecei a estudar inglês. Aprendi mais coisas, ampliei um pouco meus interesses e então comecei a conhecer pessoas pela internet ;).

Bom, pareço uma velha com minhas divagações.

Basicamente, nos painéis sobre meios de comunicação eu colocava um recorte que lembrasse uma carta ou um telegrama, um telefone, um rádio, um jornal/revista e uma  TV. Naquele tempo, eu nem imaginava que um dia a gente poderia carregar um telefone conosco. Nem as brincadeiras de telefone sem fio funcionavam direito. Talvez porque eu tenha tentado fazer com pote de Danone e não com latas de ervilha.

Com relação aos meios de transporte, basicamente a gente colocava as mesmas coisas que há hoje. Não houve uma significativa mudança nos meios de transporte, quero dizer, eles até se modernizaram, mas nem compara-se com a velocidade da evolução nos meios de  comunicação.

Uma figura como essa, certamente enriqueceria meus painéis sobre Meios de Transporte. Obrigada por chegar atrasada, Internet :(
Uma figura como essa, certamente enriqueceria meus painéis sobre Meios de Transporte. Obrigada por chegar atrasada, Internet 🙁

Onde eu quero chegar? Naquele tempo, no meu painel de meios de transporte, eu colocava um carro. E eu tenho a mesma definição para este objeto: carro é um meio de transporte. Apenas isso.

Percebo que no Brasil, carros viraram símbolo de luxo e status. Ok, eu cometi uma enorme generalização. Talvez você também considere um carro como um mero meio de locomoção também. Mas eu sei que você vai entender onde quero chegar.

Eu não tenho carro. E sinceramente, um carro não é necessário no estilo de vida que levo atualmente. Eu uso meios de transporte coletivos (que precisam melhorar MUITO aqui em São Paulo). Consigo chegar na hora e sem muito stress em meu local de trabalho. Quando viajo longas distâncias, estou com meus pais (e uso carro) ou uso ônibus ou avião. Eu consigo me virar muito bem sem meu carro, dentro de minha atual realidade, claro.

Os meios de transporte servem para facilitar nossa vida. Se onde você mora não tem meios de transporte coletivo, se você tem filhos muito pequenos, se você tem pais idosos ou pessoas convalescentes em casa, se você precisa carregar muito peso, se você trabalha de madrugada, se você simplesmente se acostumou, etc, é óbvio que o carro vai facilitar sua vida. Eu não estou aqui para julgar quem usa ou não usa carro. Cada pessoa sabe de sua realidade e suas necessidades. Por isso vamos continuar analisando meu caso.

Faço boa parte dos meus percursos diários a pé. Por isso, não vou trabalhar de salto. Além disso, onde trabalho o piso não é apropriado para o uso de sapatos requintados. Normalmente uso sapatilhas ou tênis. E a gente sabe que o salto alto deixa as pessoas mais elegantes (é o que querem que a gente acredite, pelo menos). Como ando a pé, estou sujeita a intempéries. Se o tempo está úmido, meu cabelo fica ligeiramente desgrenhado (mesmo prendendo). Se está muito calor, eu transpiro e fico com uma aparência cansada.

Concluindo: é evidente que para a sociedade, eu tenho uma aparência bem mais “desleixada” do que a de uma moça que faz escova, maquiagem, usa roupa social e sapato alto e chega no trabalho de carro. Seja sincero: vamos supor que você vê uma moça de escova, salto alto, maquiagem e roupa social chegando de carro no trabalho. Depois vê uma moça de cabelo arrepiado, mochila, tênis, calça jeans e baby look de promoção do supermercado (as roupas estão limpas e passadas, ok? rs), ouvindo música num Samsung Galaxy Y (a outra moça tem um iPhone X). Como você hierarquizaria essas moças? Qual tem melhor posição social (detesto esse termo)?

Entendem onde quero chegar? O carro deixou de ser um meio de transporte para algumas pessoas. Passou a ser parte de um conjunto, que permite dizer em qual degrau da escada você se encontra. Para mim, isso é assustador. E eu não quero fazer parte desse jogo. É até engraçado, porque algumas pessoas já acharam que eu sou uma estagiária. Eu não me incomodo com isso, acho engraçado. Aprendi a apreciar a cara de surpresa das pessoas. Já passei por situações que foram extremamente constrangedoras para o outro. Por exemplo, conversam comigo com certo desdém, imaginando que não tenho conhecimento nenhum em minha área. Depois que conversam comigo e veem que não sou tão crua assim, ficam surpresos e mudam completamente o tratamento. Alguns admitem que acreditavam que eu fosse uma “simples estagiária”. E eu já fui estagiária e sei bem como é: algumas pessoas podem realmente te humilhar.

É óbvio que não sou sumidade em nada e nem sou nenhuma criatura especial. Só que talvez se eu me vestisse como “uma mulher adulta” (convenções, convenções), me julgariam como tal e talvez achassem que eu fosse ‘alguém importante’. A superficialidade das pessoas nunca deixa de me assustar.

Eu não gosto de Camaro
To falando a real
Nosso bonde é pesadão
De foguete espacial

Mega Funk Ostentação