Pro dia nascer feliz – documentário mostra que a meritocracia é uma lenda

Meu amigo Fernando Benatti me indicou um documentário muito bom chamado “Pro dia nascer feliz”.

O documentário está disponível integralmente no Youtube:

A descrição do vídeo diz:

O documentário que retrata a diferente realidade entre escolas públicas de regiões periféricas brasileiras e uma escola particular de SP.

É uma descrição bastante geral sobre o documentário. Só que o documentário destrincha essas diferentes realidades e mostra dados assustadores. No interior de Pernambuco, o documentarista visita uma cidade muito pequena, chamada Manari. Lá, só existe escola de Ensino Fundamental. A escola está totalmente deteriorada. Um funcionário fala da reduzida verba que eles recebem do Governo do Estado. Os banheiros da escola estão em péssimas condições, além de outros problemas estruturais dentro da sala de aula. O professor não tem a mínima condição de trabalho.

Sem escola de Ensino Médio, os alunos mais velhos precisam viajar 30km diariamente para ir a escola. Como o ônibus é totalmente precário, nas 2 semanas que o documentarista ficou nessa cidade,  os adolescentes foram para a escola apenas 3 dias. Já não bastasse ser ABSURDO para um jovem ter que viajar SESSENTA QUILÔMETROS DIARIAMENTE, o ônibus ainda é superlotado e apresenta péssimas condições.

Alguns adolescentes são entrevistados e falam da falta de professores. Falam de matérias que não são dadas, mas misteriosamente todos recebem conceito por aquela disciplina, seja um aluno bom ou um aluno desistente. Esse quadro desmotiva quem quer aprender. O documentarista acompanha algumas jovens, dentre elas, Valéria. Ela gosta muito de ler, é bem articulada e adora poesia. Ela é uma das estudantes que precisa pegar esse ônibus. Logo no começo do documentário, ela diz algo que me entristece muito: “Aqui, a gente não pode nem sonhar”. É triste demais, mas é muito real.  Como  Valéria (que sonha em fazer Relações Internacionais ou outros cursos relacionados) poderia competir por uma vaga em uma universidade pública com jovens que estudaram em colégios particulares? Os próprios professores são desmotivados e duvidam da capacidade dos alunos. Numa cena, Valéria diz que gosta de escrever. Lê um de seus textos, que por sinal é muito bonito. Ela diz que os professores duvidam que ela foi a autora daquele texto.

O sistema educacional brasileiro é um destruidor de sonhos. Se é ruim nas escolas públicas das grandes capitais, o quadro ainda consegue ser pior.

A propósito, recentemente essa reportagem denunciou as condições precárias do município. Essas condições estendem-se ao sistema de saúde também.

O documentarista também vai até Duque de Caxias, no RJ. Mostra uma escola em que faltam professores. Chamou muito minha atenção a construção dessa escola, pois lembrou a escola pública que estudei em Itaquera. Um ambiente com pouca iluminação, cheio de paredes de concreto e  tinta descascando. Sabe a típica (e horrível) arquitetura do período da ditadura brasileira? Então. Os alunos são dispensados mais cedo com certa frequência, pois faltam professores.

Nos dois casos (Duque de Caxias e Manari) também é abordado algo terrível: o desinteresse dos alunos. Sinceramente, acho que a precariedade do sistema contribui para isso. Se os alunos tivessem uma escola boa e fossem tratados com disciplina e respeito, tenho certeza que mais talentos desabrochariam. Eles poderiam sonhar e não encarariam a escola como um mero passatempo. Em Duque de Caxias, por exemplo, numa aula de história os alunos faziam palhaçada e não compreendiam a importância do estudo do tema. A professora tinha que se esgoelar. Isso certamente prejudica sua voz e a deixa enormemente frustrada.

Um grande problema que eu percebi que foi abordado no documentário também é a falta de educação (educação familiar, não cultura) por parte dos alunos. Percebo isso no dia a dia também, quando converso com amigas professoras ou quando atendo uma turma de alunos em meu trabalho. É extremamente triste, mas isso é um reflexo dos próprios pais. Tenho percebido que a falta de gentileza e cortesia são constantes dentre os adultos também.

Nessa escola de Duque de Caxias, mostram uma reunião de Conselho de Classe. Nessas reuniões, as professoras discutem se os alunos ‘problema’ serão ou não aprovados, apesar de suas notas ruins. Muitos acabam sendo aprovados, mesmo não sabendo nada do conteúdo apresentado.  Os alunos dessa escola participam de uma interessante iniciativa em que os alunos tem aula de teatro, música e dança. Essas iniciativas culturais sempre são importantes em comunidades vulneráveis. Um dos alunos-problema da escola está nesse grupo cultural e segundo a coordenadora, está se saindo muito bem. Quando perguntam para o rapaz o que ele quer da vida, ele mal sabe. Infelizmente, é algo que acontece desde quando eu era aluna do Ensino Fundamental: a maioria dos alunos não sabe para quê serve a escola. Quando sabe, sentem-se desmotivados. Imagine o que é estudar em uma escola com todos os problemas que já sabemos. O aluno já sabe que não vai aprender nada, que o esforço vai ser inútil e que não vai conseguir realizar seus sonhos.

O documentarista vai até Itaquaquecetuba, município da RMSP. Nesse momento, o telespectador se enche de esperança. A equipe visita uma escola pública com boa infraestrutura e muitos alunos motivados. A escola virou referência no bairro. Os moradores vão visitar a escola, que tem áreas muito bonitas (fonte, laguinho com peixes, área de leitura). Ou seja, aparentemente, há uma ótima integração com a comunidade. A escola foi super bem no ENEM, de modo geral, com diversos ex-alunos estudando bom bolsas do ProUni. Apesar dessas aparentes melhorias, Ronaldo, um aluno de 16 anos, tem uma visão bem crítica. Segundo ele, se o ensino realmente estivesse melhorando, programas de cotas e o próprio ProUni seriam desnecessários. Outros alunos, acabam apontando outros problemas muito recorrentes: professores que faltam e alunos que vão embora mais cedo. Olha, isso aconteceu muito ao longo do meu Ensino Médio e olha que eu estudava em uma escola pública ‘melhor’, tinha até vestibulinho para estudar nela.

Uma professora dessa escola de Itaquaquecetuba também é entrevistada e ela fala com muita sinceridade sobre a situação do professor.  Ela fala que falta muitas vezes porque se sente cansada, pois o trabalho a desgasta mentalmente. Ela desabafa, diz que precisa fazer terapia mensalmente para conseguir trabalhar. Ela também menciona a desvalorização do professor e olha, ela nem fala especificamente sobre os baixos salários. Ela fala do desrespeito com o profissional. Essa mesma professora organiza um fanzine, que tem servido para curar as feridas, gerar boas discussões e despertar talentos em diversos alunos. Uma dessas alunas sofre de depressão e adora o fanzine. Ela se forma e acaba indo trabalhar em uma fábrica. Quando o documentarista volta a entrevistá-la, ela diz que sente falta da escola.

Apesar dos problemas, essa escola de Itaquaquecetuba parece ser um ambiente bastante acolhedor.

A equipe visita também o bairro Alto de Pinheiros, um bairro de classe média alta aqui em São Paulo. É uma escola bastante exigente, com grandes destaques nos principais vestibulares. Uma cena chamou muito minha atenção: a equipe filmou o corredor das salas de aula, pouco antes do início das aulas. O corredor estava cheio de alunos. Todos brancos. Já na escola de Duque de Caxias ou de Itaquaquecetuba, era possível ver muitos morenos e negros. Quem ainda acha que a desigualdade social no Brasil não tem cor, deveria começar a observar certas coisas. Em uma das alunas nesse colégio, estão discutindo o livro O Cortiço. Todos tem o livro, já que comprar um livro didático não é grande dificuldade para uma família que pode pagar a mensalidade de uma escola como aquela.

Os alunos dessa escola particular admitem estarem presos em uma bolha. Uma bolha de conforto que permite ver as desigualdades sociais, mas é uma bolha com a qual eles estão acostumados e não desejam sair dela. Os alunos desse colégio também reclamam da pressão, das provas difíceis, das cobranças e das típicas dúvidas existenciais que passam a ser mais fortes durante a adolescência. Uma garota entrevistada, por exemplo, tem diversas dúvidas existenciais relacionadas ao pós-vida e a religiosidade. Ela está realmente confusa. Talvez seja uma fuga, uma busca por esperança, diante da suposta cobrança que sofre diariamente.

Outra menina, estuda demais e acha que está negligenciando sua vida pessoal. Ela chega a chorar e suas amigas a apoiam. Apesar de ficar triste pela menina, não consigo deixar de pensar que tantos alunos de péssimas escolas públicas brasileiras gostariam de ter as mesmas oportunidades que ela. Uma das meninas que sentem-se cobradas por notas melhores (e corre o risco de não passar de ano), é aprovada e fica muito feliz. Ela tem acesso a aulas particulares de reforço. Imaginem, qual aluno de escola pública brasileira tem acesso a esse tipo de apoio extra-curricular? Além disso, esses alunos tem todo o conforto e ambiente propício para estudar. Não precisam trabalhar fora, por exemplo. Certamente eles tem empregada doméstica em casa. Não precisam nem lavar a louça que sujam. Como diz meu pai: Quem só estuda, tem mais do que a obrigação de ir bem.  Sou obrigada a concordar com ele, apesar de ser óbvio que as pessoas tem dificuldades em algumas matérias.

Essa questão das dúvidas existenciais e da depressão são comuns a jovens de todas as classes sociais. Acho que nesse momento, são todos realmente iguais. É nesse momento que elas estão fora da bolha e talvez nem percebam.

Depois, os alunos falam sobre a relação com os pais. Há diversos casos de pais omissos. O tema da violência entre alunos também é mencionado. Segundo uma professora entrevistada, a vida  dos alunos de escola pública é marcada pela agressividade, pela violência. Uma aluna entrevistada fala de um crime que cometeu: ela assassinou uma colega, após uma briga por motivo extremamente fútil.  Por ter menos de 18 anos, a menina sabe da certeza da impunidade. E ela não demonstra nenhum tipo de remorso. O ambiente violento cria psicopatas. Alguns meninos, que já cometem roubos, parece que sabem que sua expectativa de vida é curta. Alguns começam a roubar porque “não tem o que fazer”. E logo vira um hábito. Um diz divertir-se com a cara da vítima. Reflexo do ambiente violento, a falta de boas referências familiares, a ausência de bons serviços do Estado. Alguns garotos falam que até os políticos roubam.  Os rapazes estão tentando encontrar um culpado para seus roubos e claro que isso é absurdo. Falta referência familiar, falta pulso firme. Faltam pais presentes. No entanto, eles não estão mentindo: os políticos roubam. E não vão presos. E fazem com que seus processos criminais se estendam por anos.

Eu gostei tanto do documentário que acabei fazendo bem mais que uma resenha. Acabei fazendo um resumo sobre ele. Todos deveriam vê-lo, para entender o real quadro da educação brasileira. Esse documentário nos mostra que no Brasil não há meritocracia. Enquanto jovens de classe média alta tem acesso a ótimas escolas, jovens das periferias não tem sequer esperança de um futuro pessoal melhor. Os defensores da meritocracia gostam de citar exceções, como o Ministro Joaquim Barbosa. Para cada Joaquim Barbosa, existem milhares de pessoas que são praticamente analfabetos funcionais. Exceções fogem da regra geral, não podem ser exemplos de meritocracia.

Pessoas que apesar das imensas dificuldades sociais conseguiram estudar e serem bem sucedidas merecem toda nossa admiração e são fontes de inspiração, mas não podem ser usadas como regra. Valéria, a moça lá do interior de Pernambuco que sonha em fazer Relações Internacionais. Quais as probabilidades de ela conseguir? Ela teria que lutar contra tantas dificuldades para conseguir. É como se uma enorme muralha separasse Valéria e tantos jovens pobres de seus sonhos.