Furacão é uma coisa ‘nova’? Não!

Um interessante fenômeno acontece nos dias de hoje. É comum ouvirmos pessoas mais velhas dizendo que “antigamente não tinha _______, o mundo está perdido, é o apocalipse”. Preencha a lacuna com qualquer coisa (fenômeno natural, comportamento humano, crimes…).

É claro que a sociedade está em constante mudança e talvez algumas coisas que vemos hoje não eram comuns no passado. Mas será que é por aí? Hum, tenho uma teoria: atualmente, a informação é mais amplamente divulgada. As equipes de TV praticamente já estão nos locais antes da notícia acontecer. A internet faz tudo disseminar muito rapidamente. Todo mundo tem celular com câmera e grava flagrantes que logo são espalhados por aí. Há 20 anos, “pedro dá meu chip” não seria possível

Há coisas que sempre aconteceram. Já ouviu sua vó falar que os jovens de hoje não respeitam os mais velhos? Bem, olhem esses trechos que a Tanniah Rodrigues compartilhou no Facebook recentemente:

SÓCRATES (470-399 A.C.)
“Os jovens de hoje gostam do luxo. São mal comportados, desprezam a autoridade. Não têm respeito pelos mais velhos, se passam o tempo a falar em vez de trabalhar. Não se levantam quando um adulto chega. Contradizem os pais, apresentam-se em sociedade com enfeitos estranhos. Apressam-se a ir para a mesa e comem os acepipes, cruzam as pernas e tiranizam os seus mestres.
Aliás, vejam outros pensamentos “atuais” a respeito dos jovens:
“O nosso mundo atingiu um estado crítico. As crianças já não dão ouvidos aos seus pais. O fim do mundo não pode estar muito longe.”

HESÍODO(ca. 720 a.C.)
“Esta juventude está podre no fundo do coração. Os jovens são maus e preguiçosos. Nunca serão como a juventude de outros tempos. Os de hoje não serão capazes de manter a nossa cultura.”
(Inscrição em cerâmica encontrada nas ruínas de Babilónia, ca. 2000 a.C.)

“Não tenho nenhuma esperança quanto ao futuro do nosso país, se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque esta juventude é insuportável, sem comedimento, simplesmente terrível.”


(PLATÃO; 428-348 a.C.; A República, livro VIII)
“O pai teme os seus filhos. O filho acha-se igual ao seu pai e não tem nem respeito nem consideração aos seus pais. O que ele quer é ser livre. O professor tem medo dos seus alunos. Os alunos cobrem o professor de insultos. Os mais novos querem tomar já o lugar dos mais velhos. Os mais velhos, para não parecerem antiquados ou despóticos, consentem nesta demissão. E, para coroar tudo, em nome da liberdade e da igualdade: a libertação dos sexos !”

Já aviso que esta semana e a próxima será fraca em posts. Tenho prova de francês, vou fazer algo muito legal (que ainda é surpresa mas tem a ver com o blog) e vou participar de um evento que vai consumir bastante do meu tempo.

Grandes pensadores da Antiguidade já tinham dado a letra: jovens não respeitam os mais velhos. Claro que não deve ser seu caso, querido leitor. Mas você já deve ter visto manifestações de desrespeito em diversas situações e saiba que isso não é contemporâneo.

Bom, a mesma percepção parcialmente equivocada ocorre quando o assunto são fenômenos naturais. Vocês devem se lembrar do tsunami  que devastou parte do Japão há alguns anos. O tsunami que foi ameaçou uma enorme catástrofe nuclear na Usina de Fukushima. Eu lembro que equipes de TV acompanharam tudo de perto: foram nas áreas devastadas, falaram com moradores, mostraram o avanço da onda, etc. Isso seria impossível  há 20 anos atrás. E tsunamis sempre aconteceram. A TV talvez tenha dado a impressão de que tsunamis são fenômenos recentes.

Saindo do campo da geologia, vamos falar daquilo que conheço um pouco mais: meteorologia. O mesmo acontece com os furacões. Embora existam indícios de que com o aquecimento global mais fenômenos extremos possam acontecer (furacões, grandes tempestades, etc) e de fato, a ocorrência de furacões aumentou nas últimas décadas, esses fenômenos não são recentes. Essa semana circulou um e-mail em meu trabalho (divulgado pelo Prof. Dr. Carlos Morales, acho), com um link para uma capa da Folha de São Paulo de Outubro de 1963. A capa era essa:

 

Capa da edição do jornal Folha de São Paulo de 13 de outubro de 1963

Capa da edição do jornal Folha de São Paulo de 13 de outubro de 1963

O furacão chamava-se Dona. O interessante é que a imagem de satélite que estampa a capa é de 10 de setembro de 1960, enquanto o jornal é de 13 de outubro de 1963! Ou seja: a análise demorou mais de 2 anos para ser divulgada pelo jornal. Comparando com o que temos nos dias de hoje, parece inacreditável! No entanto, o objetivo da reportagem (que pode ser lida na íntegra no Caderno 3 da mesma edição) era explicar como se formam os furacões. Uma matéria de divulgação, em outras palavras. Então a imagem do furacão na capa do jornal era apenas ilustrativa.

Quem colaborou com a reportagem foi Rubens Villela, que também foi professor da Universidade de São Paulo. Durante a década de 60/70, ele foi consultor em muitas matérias de previsão do tempo e divulgação da meteorologia em diversos meios de comunicação.

E olha só que curiosidade interessante: a matéria conta com uma explicação sobre o nome dos furacões. A explicação mostra os padrões vigentes na época: os furacões do atlântico sempre tinham nomes de mulheres até aquele ano. As coisas mudaram já faz uns 30 anos, mas muita gente até hoje acredita que furacão ‘só tem nome de mulher’.

Nesse post também mencionei que atualmente a nomenclatura dos furacões segue um padrão estabelecido por 6 listas que se reciclam de 6 em 6 anos. Essas listas são em ordem alfabética e alternam entre nome feminino e masculino. Se um furacão é muito devastador, o nome é então aposentado, retirado definitivamente da lista.

Fonte: Folha de São Paulo, 13 de outubro de 1963

Fonte: Folha de São Paulo, 13 de outubro de 1963

 

Outro ponto interessante da reportagem foram as explicações sobre a diferença entre tornado, furacão e ciclone frontal (atualmente chamamos mais de ciclone extratropical, que acompanha as frentes frias). O Prof. Villela fez um ótimo trabalho de divulgação. Ficou implícito que ele foi o autor dessa reportagem, o que achei muito interessante:

Folha de São Paulo, 13 de outubro de 1963.

Folha de São Paulo, 13 de outubro de 1963.

 

Bem que podia ser assim, não? Atualmente, os jornalistas entram em contato conosco, nos fazem perguntas e então escrevem a matéria. Como não é todo jornalista que possui uma boa base científica, invariavelmente as reportagens sobre meteorologia possuem erros terríveis!

Esses erros certamente são resultado de uma falha de comunicação entre o meteorologista  e o jornalista. Não é todo mundo que tem interesse em ciência, infelizmente. Fico imaginando um jornalista recém-formado, que tem interesse em Celebridades e que para pagar suas contas é colocado em uma área que não tem interesse ou afinidade.  Na minha imaginação, é mais ou menos isso que acontece.

Se você não conseguir ler o que está escrito na imagem acima, pode consultar diretamente na fonte. Chamo a atenção também para o tópico “como se formam”. Nesse tópico, é mencionado que são feitos voos nas regiões onde os furacões estão acontecendo para então estudá-los. Esses meteorologistas do passado era muito badasses, não? Imagine sobrevoar com uma aeronave em uma região de intensa convecção e com ventos que facilmente ultrapassam os 100km/h. Vamos agradecer todos os dias pelos satélites meteorológicos.

Ah sim, a imagem da capa é proveniente do satélite TIROS IV (segundo diz a Folha). O Projeto TIROS foi responsável pelo lançamento de diversos satélites meteorológicos e até hoje o projeto continua, sob supervisão da NOAA (o último satélite foi o NOAA-19, lançado em 2009, que seguiu a linha de desenvolvimento dos primeiros TIROS). Eu questiono a afirmação da folha (de que a imagem foi do TIROS IV). TIROS IV foi lançado em fevereiro de 1962 e morreu em junho de 1962 (parece que as câmeras falharam). Para dizer a verdade, parece que os primeiros TIROS tinham um tempo de vida curtíssimo: eles quebravam, davam problemas, etc. De qualquer maneira, se a imagem é de 1961 (mas o furacão discutido não é de 1960? será que são duas imagens de furacões diferentes?), é impossível que ela seja do TIROS-IV. Talvez tenha sido do TIROS-I ou do TIROS-II.

O nome do furacão também está errado. O correto é Furacão Donna. Donna é um nome feminino muito comum nos EUA. Um verbete da Wikipedia (muito completo) descreve a trajetória desse furacão. Donna foi considerado um furacão destrutivo e normalmente é mencionado na lista dos furacões que causaram mais destruição e mortes: 364 pessoas morreram durante a passagem do Donna e os prejuízos foram estimados e 900 milhões de dólares (lembrando que este valor é referente a 900 milhões de dólares de 1960 e hoje seria muito mais).

This is a radar image of Hurricane Donna over Florida. While it came from a generally copyrighted website, the terms of use page states that use for non-commercial purposes is allowed. It was obtained by that website from NOAA under its free licence policy. Copyright policy. This is the link proves that it is a work of NOAA Fonte: Wikimedia Commons/NOAA

Essa é uma imagem de radar do Furacão Donna, sobre a Flórida. Permitido uso não-comercial. Fonte: Wikimedia Commons/NOAA

Ainda no verbete da Wikipedia, há uma foto ilustrando as enchentes provocadas pela passagem do Donna. Na foto abaixo, temos o Biscayne Blvd. em Miami, na Flórida. A via foi tomada pelas águas:

Enchente causada prlo furacão Donna, setembro/1960. Fonte: Miami National Weather Service Office

Enchente causada prlo furacão Donna, setembro/1960. Fonte: Miami National Weather Service Office

 

Outro destaque dessa edição da Folha de outubro de 1963  é a seca em São Paulo que reduziu o volume d’água na Represa Billings e levou a um racionamento de energia. Esse é outro problema que de tempos em tempos ainda é motivo de preocupação das concessionárias de energia elétrica.

Como vocês podem ver, alguns problemas que temos atualmente também eram preocupação no passado. Hoje em dia a divulgação é mais rápida: a cobertura, em alguns casos, é tão grande que parece que o leitor/telespectador está no local da tragédia, da notícia. As mudanças climáticas podem aumentar a frequência de alguns fenômenos meteorológicos extremos, mas isso não significa que eles não aconteciam no passado.

P.S.: Sabiam que estou infringindo a lei, colocando esses prints de reportagens da Folha no meu blog? Sim! Eu pedi autorização por e-mail:

Samantha Martins <samanthansm@gmail.com>
para pesquisa

Bom dia

Gostaria de solicitar o uso da imagem capa: http://acervo.folha.com.br/fsp/1963/10/13/2/ para um texto de meu blog: http://meteoropole.com.br/
Att
Samantha Martins
E olha a resposta que recebi:
Pesquisa Folhapress
para mim
 Bom dia Samantha

 

Obrigado por seu interesse no Grupo Folha.

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Att.,

Equipe Folhapress

 

Como hoje estou com vontade de infringir a lei (risos), decidi manter os prints. Decidi manter porque acho um ABSURDO. Eu estou colocando as referências (estou dando views para o portal) e ainda assim recebi um e-mail com evidente má vontade. Eu fico indignada com a forma que o jornalismo é feito nesse país. Os portais se acham donos da informação. A Folha já ganhou muito dinheiro com essas edições antigas, através da venda dos jornais e dos espaços para a publicidade. Eu não estou copiando os textos na íntegra e dizendo que são de minha autoria. Estou apenas utilizando o material para criar um post e para multiplicar conteúdo. Só apagarei essas imagens se eles se manifestarem e deixarei vocês atualizados!