Guestpost: Mergulho (por Vlamir Silva Jr)



Fazia um tempinho que eu não publicava guestposts por aqui, não?  Eu fico sem graça de pedir coisas para meus amigos e colegas, rs.

O guestpost de hoje é do Vlamir. Ele já escreveu aqui antes, falando sobre astronomia amadora, especificamente observação do Sol. Acontece que meu amigo tem vários outros hobbies igualmente interessantes. Hoje ele vai falar sobre mergulho. As dicas e informações que ele escreveu podem interessar muito quem tem interesse em iniciar esse hobby. Leia a seguir o relato do Vlamir. 

A coisa mais importante que já fiz na vida foi um curso de mergulho, lamento não ter tido condições financeiras e conhecimento para ter feito isto quando mais jovem, quem sabe até quando ainda menor de idade.

Engana-se quem pensa que mergulho é um esporte radical, longe disto: mergulho é um esporte de aventura, digamos que muito mais contemplativo.

Noventa por cento do mergulho é calma e os outros 10% devem ser concentração, segundo um amigo mergulhador e pescador uma vez me explicou. Uma das coisas que você aprende no mergulho, é lidar com a flutuabilidade. Um peixe tem um órgão interno chamado bexiga natatória, que eles enchem ou esvaziam de ar para controlar a profundidade que eles querem ou precisam ficar. No mergulho não é diferente. A combinação entre colete, cinto de lastro e a sua respiração é o que te mantém na profundidade desejada ou faz você subir ou descer conforme necessário. Isto é parte da Física do Mergulho.

Uma das principais preocupações do mergulhador é com o nitrogênio no sangue. Muitas pessoas falam erroneamente: – Você vai mergulhar com cilindro de oxigênio? Não. O cilindro, no geral, tem a mesma composição do ar que respiramos, portanto, em situação normal, 78% do ar é nitrogênio, 21% é oxigênio e 1% dos demais gases. Há variações e cursos específicos para usar outras composições de ar, mas isto é outra história. O que acontece é que, ao mergulharmos, quanto mais profundo, maior a pressão sobre nosso corpo. O nitrogênio não é utilizado em nenhum processo químico no nosso organismo, ele não entra no metabolismo. No entanto, ele fica preso na corrente sanguínea e nos tecidos. Quanto mais profundo (por conta da pressão) ou quanto maior o tempo de mergulho numa dada profundidade, maior a quantidade de nitrogênio acumulada nos tecidos e na corrente sanguínea. Se um mergulhador subir até a superfície, muito rápido, pode sofrer embolia e outras doenças hiperbáricas por causa disto, podendo levar ao óbito. Você fica como uma garrafa de refrigerante, se abrir rapidamente a tampa, vai borbulhar. Esta é a analogia que sempre faço. Para isto o mergulhador tem que seguir tabelas de profundidade e tempo de fundo e, ao voltar para a superfície, tem que subir com calma, dentro de uma velocidade adequada e respirando continuamente, de preferência ficando nos 5 metros de profundidade durante uns 3 minutos para ajudar a liberar o nitrogênio, como uma parada de segurança. O mergulhador recreativo não mergulha com teto, ou seja, ele não deixa estourar os limites das tabelas e assim evita a necessidade de fazer paradas descompressivas, coisas mais destinadas ao mergulho técnico.

Outro detalhe é que quanto maior a profundidade, maior o consumo de ar. É necessário fazer um planejamento do mergulho, levando isso em consideração. Há várias regras de segurança que são fáceis de seguir e, suficientes para tornar a atividade algo muito prazeroso.

O mergulho recreativo é uma atividade que envolve um conjunto de pessoas e você, como mergulhador, tem como companhia o seu dupla, pois ninguém mergulha sozinho. O ar do seu dupla é a sua “reserva” de ar para caso ocorra algum problema e vocês tenham que terminar o mergulho. A mesma coisa ocorre com você, o seu ar também é “reserva” para o seu dupla em situações de emergência. Desta maneira, os mergulhadores tem que estar juntos e próximos um do outro para qualquer eventualidade. Mesmo que por algum momento, devido à visibilidade ou qualquer outro fator, você perca seu dupla de vista, há procedimentos que ambos devem fazer quanto a segurança. Tudo isto é ensinado nos cursos de mergulho, desde o básico.

Há várias certificadoras de mergulho no Brasil, cada escola tem uma certificadora de sua preferência. As mais famosas são a NAUI e a PADI.

Muitas pessoas imaginam mergulhar e ir para lugares como Caribe, Fernando de Noronha, e vários outros destinos maravilhosos. Porém, há lugares mais perto para serem desfrutados também. Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro é considerado a nossa capital do mergulho por exemplo. Ilha Grande tem vários pontos de mergulho também. Já a Laje de Santos, conhecida entre os mergulhadores que moram no Estado de São Paulo, é tida como o segundo ou terceiro melhor local de mergulho no Brasil. Já peguei visibilidade horizontal de 25 metros na Laje de Santos, ‘é como se fosse o Caribe’ segundo outros mergulhadores comentaram no dia no barco. Para quem vive no Sudeste, mais especificamente em São Paulo e tem interesse em visitar naufrágios, Ilhabela é um lugar espetacular, cheio deles, o que te coloca dentro de uma rica história que há em nossas costas e que a maioria das pessoas desconhece.

Já que comentei sobre naufrágios, é interessante lembrar sobre alguns mitos. Não morre tanta gente em mergulhos como as pessoas pensam. Toda atividade tem seus riscos, o mergulho não é diferente. Seguindo as regras que aprendemos nos cursos e sendo conservadores, nada de ruim acontece. Ainda assim, vale lembrar que segundo as estatísticas, o que mais mata é mergulho em cavernas, atividade que não é para pessoas destreinadas. Há todo um treinamento e equipamentos específicos para este tipo de mergulho. Voltando aos naufrágios, a mesma coisa: muitas vezes podemos visitar um naufrágio, mas não podemos penetra-los, sendo necessário ou recomendável, cursos específicos para isto. É tudo uma questão de seguir rigorosamente o seu treinamento e seus limites.

Voltando a outro mito: a famosa questão dos tubarões. A mídia pinta o tubarão como sendo um vilão, o que é uma grande mentira. Conheço alguns mergulhadores que já mergulharam com tubarões e tiveram uma das melhores experiências de suas vidas. Eu mesmo nunca ouvi falar de ataque de tubarões à mergulhadores. Nós não fazemos parte da cadeia alimentar no qual os tubarões estão inseridos, nem carne humana eles gostam, basta lembrar que nos ataques a surfistas, além de todo um motivo específico que leva a isto, o tubarão solta a vítima logo em seguida. Eles são curiosos, aproximam-se, diferente da maioria dos outros peixes que são mais medrosos, mas não atacam. Além disto, vale ressaltar que, é raro o encontro com tubarões. No geral, mergulhadores que querem vê-los, mergulham em locais específicos para isto, para haver estes encontros. Eu mesmo, nunca vi tubarão algum.

Uma das coisas importantes do mergulho, é que ele é, assim como muitas atividades esportivas, uma ótima forma de conhecer pessoas. A quantidade de colegas e novos amigos que fiz com o mergulho é bem interessante. Alguns amigos inclusive viraram daqueles que você encontra para tomar uma cerveja e vai na casa um do outro. O mergulho também é um ótimo momento para se interar de atividades ecológicas. Uma das regras do mergulhador consciente é a de não tocar em nada lá embaixo, só levar as fotos.

Além de toda uma gama de cursos, que os mergulhadores recreativos podem fazer, há também cursos específicos de identificação de peixes ou mesmo de fotografia subaquática, você passa a se envolver com atividades específicas do mergulho se assim desejar. No curso de mergulho avançado, além do mergulhador ter a oportunidade de fazer mergulho noturno e também ser credenciado no mergulho profundo (máximo de 30 à 40 metros de profundidade), ele também aprende a se guiar por bússola e aprende a fazer busca e recuperação de objetos. Aprende a manusear instrumentos tais como lift-bags, sacos que ao serem enchidos de ar, passam a flutuar e são usados para reflutuar objetos pesados e que necessitam disto. Algumas pessoas passam a trabalhar com isto depois.

Não podemos confundir o mergulho recreativo autônomo, com o mergulho profissional feito por aqueles mergulhadores de plataforma. O mergulho autônomo é justamente este que foco neste texto, ele é de fato um esporte e, como o nome diz, autônomo, onde o ar vem de seu cilindro. O mergulhador de plataforma tem todo um treinamento específico e bem diferente que, com certeza eu também faria se fosse mais jovem e se eu ainda não tivesse minha carreira e emprego. Este pessoal faz manutenções, soldagem, limpeza de barco e outras atividades que eu nem imagino, tudo embaixo da água.

Como em muitas atividades humanas, a Meteorologia desempenha um papel fundamental e, por incrível que pareça, eu só escolho hobbies que dependem da Meteorologia, rsrsrs… O mergulho não é diferente. A maioria dos mergulhos são feitos em locais abrigados, geralmente em baías, onde o mergulhador fica, seja na costa ou numa ilha, mergulhando de ponta a ponta de um dado local, isto sem contar com os mergulhos de praia, falo dos mergulhos feitos embarcado. A chuva não atrapalha o mergulho, pode não ser legal para quem ficar no barco, como acontece com minha esposa que não mergulha, mas para quem está na água, não faz a menor diferença. O problema é quando o mar está agitado, especialmente para alguns destinos. No caso das ilhas Laje de Santos ou na Ilha Queimada Grande na costa de São Paulo, as saídas de mergulho são canceladas quando há previsão de vento forte de Sudoeste na costa de São Paulo e quando há agitação marítima com ondas acima de um determinado valor. Isto porque se torna perigoso até mesmo para chegar nestas ilhas. Já passei por 2 situações de cancelamento de mergulho. No entanto, nunca ocorreu de cancelarem mergulhos por causa de simplesmente trovoada, não passei por esta situação ainda e não sei como os organizadores se comportam neste caso.

Por fim, recomendo fortemente que quem queira fazer um curso de mergulho, faça, vale muito a pena. E mais um mito a ser quebrado: – Não precisa saber nadar, basta saber bater perna e isto se aprende fácil, apesar de não ser do mesmo jeito do que é feito na natação.

Para quem vive em São Paulo, há várias escolas de mergulho, mas deixarei aqui dois nomes bem conhecidos, um é a Hidrofobia Mergulhos, em Guarulhos. O outro é a Colonial Diver em Ilhabela. Já fiz curso nos dois locais e são ótimos.

Vlamir mergulhando
Vlamir mergulhando

O Vlamir tem fotos muito lindas de seus mergulhos, com vários registros da vida marinha. Vejam toda galeria aqui.

Agradeço ao Vlamir pela contribuição! E gostaria de destacar o trecho em que ele fala sobre os tubarões:

A mídia pinta o tubarão como sendo um vilão, o que é uma grande mentira. Conheço alguns mergulhadores que já mergulharam com tubarões e tiveram uma das melhores experiências de suas vidas. Eu mesmo nunca ouvi falar de ataque de tubarões à mergulhadores. Nós não fazemos parte da cadeia alimentar no qual os tubarões estão inseridos, nem carne humana eles gostam, basta lembrar que nos ataques a surfistas, além de todo um motivo específico que leva a isto, o tubarão solta a vítima logo em seguida. Eles são curiosos, aproximam-se, diferente da maioria dos outros peixes que são mais medrosos, mas não atacam. Além disto, vale ressaltar que, é raro o encontro com tubarões. No geral, mergulhadores que querem vê-los, mergulham em locais específicos para isto, para haver estes encontros. Eu mesmo, nunca vi tubarão algum.

Em julho/2013 uma estudante não obedeceu (ou não viu) as placas que estavam afixadas na Praia de Boa Viagem, no Recife. Essas placas falavam da proibição de banho, devido a presença de tubarões. A menina inclusive foi alertada antes de entrar na água, segundo algumas notícias . Infelizmente, ela acabou morrendo. E alguns comunicadores inconsequentes, motivados pela revolta diante da morte de uma moça tão jovem e motivados também pela ignorância, acabaram tratando os tubarões como os culpados pela tragédia. Que o relato do Vlamir, de outros mergulhadores, de biólogos e de oceanógrafos deixem claro que essa visão está equivocada.