Nuvens mesosféricas polares

Foto de A. C. Tough de Elgin, Scotland, às 02:10 UT em 05 de Agosto de 2013. Vi aqui.

Foto de A. C. Tough de Elgin, Scotland, às 02:10 UT em 05 de Agosto de 2013. Vi aqui.

Você sabe o que são nuvens mesosféricas polares? Usando esse horroroso nome em português, talvez muitos não conheçam. Os termos mais empregados são nuvens da noite ou nuvens noctilucentes. A palavra noctilucente significa “com brilho noturno”. Elas se formam na mesosfera, camada muito alta da atmosfera. Por estarem muito altas, mesmo após o pôr-do-Sol (ou antes do nascer do Sol), elas ainda recebem um pouco de luz solar. Essas majestosas nuvens refletem a luz solar durante a noite e por isso ganham o nome de noctilucentes.

Na literatura, além do termo nuvens mesosféricas polares, é comum encontrar muito material sobre o tema em inglês, com o termo Polar Mesospheric Clouds ou apenas pela sigla PMC.

Adaptado para o português de AHRENS, C.D.: Meteorology Today 9th Edition

Camadas da atmosfera. A troposfera é a camada mais baixa, onde ocorrem os fenômenos meteorológicos que conhecemos e presenciamos no dia a dia. A mesosfera está localizada aproximadamente entre 50km e 85km. Adaptado de AHRENS, C.D.: Meteorology Today 9th Edition

Observando a figura acima, que indica a posição das camadas da atmosfera, notamos que as nuvens noctilucentes formam-se em torno de de 80km de altura.  São as nuvens mais altas da atmosfera. Elas são muito tênues. Durante o dia, é muito difícil vê-las. Só podemos observa-las quando o Sol já se pôs e elas ainda recebem um pouquinho do brilho do Sol que ainda está no horizonte.

Sabe o que me fez escrever um post sobre essas nuvens? Recentemente eu estava lendo um material e descobri que a primeira vez que notaram a presença dessa nuvem foi em 1885. Bom, pode até ser que alguém as observou antes, mas a primeira informação documentada sobre sua observação data de 1885, quando o britânico Thomas William Backhouse notou a presença dessas nuvens no céu. Muitos cientistas acreditaram que as nuvens observadas por Backhouse estavam relacionada com a erupção do Krakatoa. Só que o tempo passou, as cinzas vulcânicas se dispersaram e se depositaram no solo, e mais nuvens noctilucentes continuaram sendo observadas.

As primeiras observações desse tipo de nuvem ocorreram em altas latitudes, em locais como Inglaterra, Russia ou Noruega. Só que essas nuvens já foram observadas em latitudes um pouco maiores, como no estado americano do Colorado (aproximadamente 40°N). Atualmente, sabe-se que os principais ingredientes para a formação de uma nuvem noctilucente são:

– temperaturas extremamente baixas (menores que -120°C), condições encontradas na mesosfera;

– vapor d’água;

– partículas de poeira (que servem como núcleos de deposição, para que o vapor d’água sublime-se sobre eles e forme os cristais de gelo)

Desde 1980, diversas missões científicas observam a formação de nuvens noctilucente. Estima-se que a quantidade desse tipo de nuvem tem aumentado em 28% por década. Os cristais de gelo que formam esse tipo de nuvem são grandes, e com isso refletem a luz solar.

James M. Russell III, pesquisador  do Center for Atmospheric Sciences at Hampton University in Virginia e um dos responsáveis de um projeto em parceria com a NASA com o objetivo de estudar esse tipo de nuvem, apresentou uma teoria para explicar o aumento na quantidade de nuvens noctilucentes. De acordo com o pesquisador, o aumento das emissões de CO2 fez com que a temperatura nas proximidades da superfície da Terra aumentasse (causando o aquecimento global) e então a temperatura no topo da atmosfera dimiuiu, o que poderia favorecer a formação de mais nuvens noctilucent. Se a teoria de Russell for comprovada, significa que o ser humano modificou toda a atmosfera da Terra, uma vez que nuvens noctilucentes são vistas em locais tão remotos.

O projeto em que Russell trabalhou para estudar a Mesosfera não é recente. O pequeno satélite chamado AIM (Aeronomy of Ice in the Mesosphere) foi lançado em 2007, com o objetivo de estudar a composição da mesosfera e explicar a formação dessas nuvens. O projeto teria duração de 2 anos e 2 meses, mas o satélite continua em operação até hoje. O lema do projeto é “Explorando Nuvens na Fronteira do Espaço”, o que descreve perfeitamente a localização dessas nuvens. Em um recente vídeo (julho de 2013) com imagens obtidas pelo AIM, os pesquisadores demonstram-se surpresos, pois as nuvens noctilucente apareceram antes do esperado. As observações indicam que essas nuvens costumam surgir no Hemisfério Norte entre Maio e Agosto e no Hemisfério Sul entre Novembro e Fevereiro, ou seja, o verão de cada um dos hemisférios.

[ Parênteses: nos comentários desse vídeo, diretamente no link do Youtube, mostram que algumas pessoas acreditam que o HAARP é o responsável por tais nuvens. É 2013 e ainda tem gente que acredita que o HAARP é uma arma. No lugar de admitirem que as emissões antropogênicas de gases de efeito estufa aumentaram a temperatura média da atmosfera e podem estar fazendo com que fenômenos extremos – como secas, chuvas intensas, tornados e furacões – sejam mais frequentes ou incidam sobre áreas em que  antes não eram mais comuns, essas pessoas preferem acreditar em uma teoria da conspiração. Fecha Parênteses. ]

Outra maneira de estudar as nuvens noctilucentes é através de observações feitas na ISS (Estação Espacial Internacional). Os astronautas costumam tirar muitas fotos e anotar diversas observações em seus computadores de bordo. Essas observações são tão válidas quanto àquelas feitas em Estações Meteorológicas Convencionais, como a EM-IAG-USP.

Fonte: ISS

A imagem acima, foi obtida na ISS em 22 de julho de 2008. O dia estava quase amanhecendo quando a ISS passava sobre a Ásia Central. Fonte: NASA

Pela internet, existem diversos vídeos com o fenômeno. No vídeo abaixo, podemos ver na mesma noite, a ocorrência de Aurora Boreal e Nuvens Noctilucente:

Outro satélite também utilizado para estudar a Mesosfera é o Odin, lançado pela Swedish Space Corporation. Esse satélite sueco ainda realiza observações astrofísicas, no campo da formação estelar.

 

Fontes:

Windows2universe

NY Times

BBC 

AIM, Wikipedia

AIM, página oficial