“Portugal não é um país pequeno”



O Pedro é um jornalista português que conheci pelo Twitter (sigam @PedroAGuerr). Nós já trocamos tweets algumas vezes e sei que ele lê meu blog de vez enquando :).Como já disse outras vezes: conheci tanta, mas tanta gente interessante no Twitter que os trolls que aparecem por lá vez ou outra são facilmente superados.

Um dia desses ele me mandou algo bastante interessante: trata-se de um material de propaganda do regime salazarista. Durante o regime, Angola, Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Timor, Macau e regiões da Índia eram colônias portuguesas. Essas colônias obtiveram independência em meados do século passado e esse processo de independência não foi nada tranquilo. Os angolanos, por exemplo, sofreram durante anos com guerras (Guerra da Independência e Guerra Civil). E o saldo negativo dessas guerras ainda é parte do cotidiano dos angolanos (oficialmente, a guerra civil acabou em 2002, ou seja, pouquíssimo tempo atrás).

Essa propaganda que o Pedro me mandou é da década de 1940. Portugal estava no ápice do Estado Novo (ou Salazarismo), regime político autoritário que começou na década de 30 e terminou na década de 70. em questão fala que Portugal não é um país pequeno. Quer dizer, Portugal coisa nenhuma: IMPÉRIO COLONIAL PORTUGUÊS, segundo Seu Salazar e toda sua galera:

Portugal não é um país pequeno

Na imagem, publicitários engenhosos (e criativos, eu diria) pegaram os mapas dos países africanos e asiáticos mencionados e colocaram sobre o território europeu, mostrando didaticamente que Portugal era um país grande sim senhor. Na legenda, as áreas de todos os territórios portugueses da época são somadas. A soma total é comparada com a soma das áreas da Alemanha, Inglaterra (opa, seu publicitário, o mapa tá errado rs),  Espanha, França e Itália. A soma portuguesa é tão engraçada que leva em conta inclusive a parte insular portuguesa (Açores e Madeira). Parece meu pai (descendente de portugueses), que não deixa uma moedinha de R$0,25 passar despercebida (confesso que sou assim também, não tenho vergonha e podem me julgar rs). Os publicitários do regime foram realmente rigorosos e justos, não deixaram de  mencioar 1m² de terra sequer.

Minha intenção aqui não é debochar de Portugal. Eu adoro aquele país. Quando visitei Lisboa em 2009 eu me senti em casa. É um país lindo, muito rico culturalmente e com paisagens fantásticas. Estive apenas em Lisboa e fiquei fascinada pelos monumentos históricos e museus. O mapa é uma propaganda política do Regime Salazarista, um período de ditadura. Na ditadura brasileira, eram veiculadas diversas mensagens nacionalistas (bem ufanistas, claro), exaltando as maravilhas do Brasil. Parece que essa é uma típica característica de regimes autoritários: muita propaganda, que é claro, não reflete a realidade. A ideia é convencer o povo de que o país é muito bom e os governantes zelam por seus habitantes (sei, sei..).

Sendo assim, estou fazendo uma crítica a esse período, ao autoritarismo. Tenho certeza que os marketeiros de Salazar ressentiram-se por não poderem mais colocar o Brasil nesse mapa. rs

Eu teria curtido isso tudo, bee
Eu teria curtido isso tudo, bee

O Pedro também tweetou uma “resposta” à propaganda portuguesa. Trata-se do poster “Angola is not a Small Coutry”, que é uma exposição idealizada por Paulo Moreira, que estudou as favelas de Luanda (no português angolano há uma outra palavra para favelas: musseques), focando na principal favela de Luanda, chamada Chicala.

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Não vi a exposição (eu adoraria), mas sem dúvida o poster tenta resgatar a identidade de um povo que foi dominado por um regime colonialista.

A propósito, o lema do regime salazarista era: “Portugal do Minho a Timor”. Eles realmente queriam vender a ideologia de um país rico, poderoso e dono de muitas terras. É evidente que os portugueses esclarecidos e conscientes, assim como os brasileiros esclarecidos e conscientes, sabem que regimes autoritários são horríveis e fazem sua parte para que esse tipo de horror não aconteça mais. Já conversei com idosos portugueses que mudaram para o Brasil durante esse período difícil da história e dizem que foi uma época terrível, de muitas dificuldades financeiras, fome e censura.

Eu gostaria de agradecer muito ao Pedro, por me mostrar essa pérola Salazarista…rs. Aprendi muito, graças a ela (e ainda pude escrever um post :)).

P.S.: O Pedro fez um ótimo comentário neste post. Vocês podem conferir abaixo, mas decidi destacar:

Uma nota curiosa sobre o autor do mapa propagandístico português, Henrique Galvão. Foi um administrador colonial, governador de uma província angolana e um fervoroso salazarista (participou no golpe militar que daria origem à ditadura). No entanto, e talvez pelo que viu em África, tornou-se um feroz opositor do regime nos anos 50 e protagonizou um dos mais audazes golpes contra Salazar! Em 1961, tomou de assalto um navio que fazia a ligação EUA – Portugal (antes da banalização das viagens aéreas) com um comando de revolucionários, fazendo centenas de reféns. O plano era levar o navio, o Santa Maria, até Angola, e daí lançar uma guerra para derrubar o regime nas colónias e em Portugal. No entanto, a marinha norte-americana (aliada de Portugal) encetou uma perseguição ao navio e este terminou a sua fuga no Recife! Galvão pediu asilo ao Brasil e viveu o resto da vida em São Paulo, a tua cidade :)

A ditadura portuguesa terminaria a 25 de Abril de 1974 com um golpe militar sem derramamento de sangue (well, sort of…), muito por causa da guerra nas colónias africanas. Os militares estavam cansados de lutar por uma causa em que não acreditavam.

Apesar do passado, Portugal tem hoje boas relações com Angola, Moçambique e as restantes ex-colónias. Cerca de 2 milhões de portugueses viveram em África naquele período, e hoje restam cerca de 200.000 só em Angola. E outros tantos africanos vivem em Portugal. As histórias cruzam-se: eu tive família em Angola, a minha namorada em Moçambique, temos amigos africanos cá e portugueses lá, e eu trabalho para uma empresa angolana. Nem tudo é perfeito, claro. As pessoas mais velhas guardam ressentimentos. Mas gosto de pensar que nós, os mais novos, não somos reféns do passado dos nossos avós.