Protestante e não-criacionista? Pode, Arnaldo?

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Pode.

Esse assunto é bem espinhoso e muito pessoal. O que narrarei aqui é parte de minha experiência particular. Ou seja: vou falar de mim. Quem quiser me julgar, fique a vontade. Muito provavelmente não vou me importar.

Concluí que é impossível fazer parte de um coletivo. Uma coisa Borg em que todos pensam igual. Para mim, isso não funciona. Só que eu fui criada dentro de uma realidade cultural e não há como negar isso. Minha família é protestante, frequentei escolas dominicais em boa parte de minha infância, já fui fundamentalista na adolescência e atualmente tenho uma visão bem particular sobre religiosidade, que foi influenciada pelas minhas raízes.

Eu acredito em confio em Deus. Outros nerds e divulgadores de ciência possivelmente vão reduzir meu crédito exponencialmente após esse post, mas tudo bem. Não tenho interesse na simpatia ou na amizade deles. Apenas me deixem acreditar em Deus. Eu me sinto consolada e feliz. Se quiser chamar isso de muleta psicológica, pode chamar.

E minha forma de se relacionar com Deus é influenciada pelo Protestantismo. Não acredito em imagens. Não acredito no ‘falar em línguas’ dos pentecostais. Gosto de alguns hinos tradicionais. Não acredito, mas respeito e inclusive tenho interesse em conhecer outras culturas e filosofias. Não acho que eu minha religião está certa e a do outro está errada, porque estabelecer essa classificação quando o assunto é religião é ridículo.

Gosto de alguns pontos da doutrina Protestante.

Alguns. Eita palavrinha danada. Acho que ela já deixa bem claro que eu não concordo com tudo. Não consigo concordar 100% com quase nada, quando o assunto é filosofia, ideologia ou religião! Eu sou assim, paciência. Acho que é por isso que gosto de ciências. Porque você lida com evidências. É diferente.

O que significa que eu não sou criacionista (porque gente, não quero ser uma anedota rs). Também não sou fanática religiosa. Também não acho que as pessoas das outras religiões vão pro inferno. Também não acredito em cura gay, acho que a pessoa nasce gay e ponto final. Tenho horror ao preconceito de orientação sexual, prática comum nas igrejas de hoje que transformaram os gays em bodes expiatórios.

Pessoas de orientações sexuais que não sejam a heterossexual merecem respeito. Praticantes de religiões afro-brasileiras também merecem respeito. Praticantes de qualquer crença, filosofia ou religião (desde que essas não realizem abusos, desrespeitos ao próximo, maldades e outras coisas vis) também merecem respeito. Todos merecem respeito. Feliciano merece respeito? Na minha opinião, não. Mas a gente tem que oferecer porque é cristão oferecer uma coisa boa,  mesmo que a outra pessoa não dê (no pun intended).

Também não sou machista. As mulheres são donas de seus próprios corpos e de sua própria vida. São senhoras de si, podem decidir sobre a sua vida. Podem fazer aquilo que elas querem, não aquilo que esperam delas (casar, ter filhos e fazer lasanha no almoço de domingo).  Mulher não é submissa. Fico horrorizada quando ouço esse tipo de coisa, principalmente em cerimônias de casamentos.

Tenho meus preconceitos. Muitos são bem idiotas, bem bobinhos. Outros são mais profundos. Procuro tentar refletir sobre eles. Nesse ponto sobre melhoria e evolução pessoal, concordo com algumas coisas já ditas e escritas por amigos e colegas espíritas.

Eu discordo com centenas de coisas que os pastores falam. Por incrível que pareça, fui a igreja nos últimos dois domingos. Eu gosto. Gosto da oração, do contato com Deus. Gosto de algumas músicas. Gosto do acolhimento. A parte mais tensa para mim é o momento da doutrinação. Invariavelmente vou querer sair correndo da igreja ou vou sentir vontade de me esconder debaixo do banco, tamanho é  meu constrangimento.  No final da reunião do último domingo, disse para minha mãe que não concordava com mais da metade das coisas que o presbítero e o pastor disseram. Basicamente ambos cometeram imprecisões históricas (ok, talvez para facilitar a compreensão dos trechos), fizeram comentários preconceituosos sem sequer notar (a merda do preconceito tá impregnada nas nossas mentes mesmo), divergiram muito do tema proposto (olha só quem está falando, rs), fizeram interpretações duvidosas de trechos bíblicos, etc. E olha que estamos falando de uma igreja histórica, que  preza pelas Escrituras. Na minha opinião, prezar pelas escrituras, não significa interpretá-la literalmente. Estamos falando de textos muito antigos, alguns com mais de 2500 anos. É ridículo dizer que passagens que claramente tratam-se de mitologia da Antiguidade realmente aconteceram. É o mesmo que dizer que uma mulher indígena realmente perdeu seu filho lindo, realmente plantou os olhos desse filho lindo e realmente os olhos dele deram origem ao guaraná.  Se chamamos isso de lenda, porque não posso chamar de lenda a narração da criação bíblica, por exemplo?

Prezar pelas escrituras significa tentar entendê-las, respeitando o contexto histórico. Sem desonestidade intelectual. Mas essa sou eu, Samantha. Samantha contra os irmãos.

Bebo minha cervejinha quando posso e quando quero. Ouço Rock’n’Roll. Assisto filmes de terror. Eu não quero nem saber. Sim, eu posso ir para a igreja e fazer todas essas coisas. Porque eu sou livre. Acredito que se uma pessoa faz qualquer coisa X e essa qualquer coisa X não é algo que prejudique outras pessoas, o problema é inteiramente dela.

Podem me chamar de hipócrita. Acho que valeria procurar essa palavra no dicionário. Sou adulta e não escondo quem sou. Podem dizer que “um dia vou encontrar Deus de verdade”. Podem falar o que quiser. Eu vou continuar achando que quem está errado é exatamente quem rotula e classifica as pessoas.

Certa vez conheci um cara em um curso. Ele era tunisiano. Saímos em um grupo para comer uns petiscos e beber umas cervejas. Um dos petiscos era presunto. Ele não comeu. No entanto, ele bebeu cerveja. Depois de algumas cervejas, perguntei a ele se ele era muçulmano. Ele disse que sua família era e ele acreditava em Deus como um muçulmano. Emendou dizendo que ele não concordava com várias coisas da religião. E ele não comia presunto porque não tinha costume.  Ou seja: ele deixou de acreditar que o porco é uma carne impura. Ele só não comia porque não tinha o hábito de comer. Eu entendi perfeitamente o que ele quis dizer: me identifiquei em seu discurso.

Algumas pessoas não conseguem digerir aquilo que é diferente dos estereótipos que elas já criaram. Por não ser aquilo que os outros esperavam, acabo gerando desconfiança e acabo sofrendo acusações. É óbvio que isso não ocorre o tempo todo. De qualquer maneira, eu realmente não me importo com essas acusações, rs. E o problema não é só a religião. Perguntam porque não tenho filhos. Perguntam porque não tenho carro. Perguntam porque não uso salto alto. Questionam minha massa corporal (ninguém pode questionar meu peso, uma vez que vivo cá, na Terra rs). Enfim, aparentemente algumas pessoas ficam muito perturbadas com o fato de eu não corresponder aquilo que elas esperavam. Eu só posso lamentar.

Mentira. Não lamento coisa alguma.

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