Chuvas em diferentes lugares do universo



Eu vi a imagem acima no perfil @future_pix e adorei. No post de hoje, vamos falar sobre ela.

A palavra precipitação, em meteorologia, significa:  qualquer fenômeno relacionado a queda de água de nuvens do céu. Por isso neve, granizo, saraiva e chuva são os principais tipos de precipitação. De uma forma mais abrangente, o termo precipitação significa basicamente queda, algo que cai.

A precipitação na Terra a gente já sabe como funciona: é água. Pode ser água no estado líquido ou sólido (granizo ou neve). O ciclo d’água já é um fato bastante conhecido e apesar de apenas 0,001% da água do planeta estar na atmosfera, essa quantidade é respnsável pelas tempestades e nevascas que acontecem em todos os lugares . A água define o nosso planeta, define a vida como conhecemos. Como já diz Guilherme Arantes nessa linda música: Terra, Planeta Água.

A partir de agora, vou falar de chuvas esquisitas. Parece muito estranho quando eu escrevo o digo, mas “chover água” é quase que uma exclusividade da Terra. Recentemente, falamos sobre uma interessante descoberta: de que pode chover água em Saturno. Não é bem uma chuva, na verdade: os anéis de Saturno são compostos por fragmentos de rochas e água. Esses fragmentos podem entrar em atrito uns com os outros.A água presa nas rochas acaba precipitando naquele planeta. Existe água em diversos outros locais do Universo conhecido, não apenas na Terra. O grande ponto é que as temperaturas encontradas nos planetas já conhecidos (de nosso Sistema Solar ou nos exoplanetas) não são adequadas para que a água possa existir nos três estados (sólido, líquido e gasos). E claro, ainda não foi descoberto um planeta com uma atmosfera com composição semelhante a nossa, condição necessária para que haja vida como a conhecemos.

Vamos então falar dos locais onde não chove água.

Vênus

Em Vênus, chove Ácido Sulfúrico. Muito assustador, ainda bem que ningúem vive por lá. O ácido sulfúrico é produzido nas partes mais altas da atmosfera de Vênus, através de uma reação fotoquímica entre CO2(dióxido de carbono), SO2 (dióxido de enxofre) e vapor d’água. A luz ultra violeta do Sol dissocia o dióxido de carbono em monóxido de carbono e oxigênio atômico. O oxigênio atômico (o oxigênio “sozinho”, não na forma do gás oxigênio  O2) é alamente reativo. Ele reage com o dióxido de enxofre, resultando em trióxido de enxofre (SO3). Se o trióxido  de enxofre reagir com o vapor d’água (H2O), teremos então ácido sulfúrico:

CO2 → CO + O
SO2 + O → SO3
SO3 + H2O → H2SO4

Essa chuva de ácido sulfúrico nem chega ao solo venusiano. O ácido sulfúrico evapora no céu, possivelmente formando uma nuvem tipo virga. Nós temos essa nuvem no céu aqui da Terra, já que em alguns casos nossa chuva (que é água, felizmente, rs) pode evaporar antes de atingir a superfície.

Nimbostratus virga. "Virga" é o nome dado a esses penachos que saem da núvem em direção a superfície. Esses "penachos" são na verdade chuva que evapora antes de chegar na superfície.
Nimbostratus virga. “Virga” é o nome dado a esses penachos que saem da núvem em direção a superfície. Esses “penachos” são na verdade chuva que evapora antes de chegar na superfície. Fonte: Wikimedia Commons

Além da chuva de ácido sulfúrico, Vênus tem também uma neve feita  de metal. A sonda Magellan (ou sonda Magalhães, em homenagem ao navegador português Fernão de Magalhães), foi uma sonda da NASA lançada em Vênus no final da década de 80. Essa sonda foi projetada de modo a suportar o ácido sulfúrico (que é bem corrosivo) e possibilitou que os cientistas estudassem a superfície e a atmosfera do planeta. A sonda mostrou que as regiões venusianas com maior altitude são muito mais brilhantes do que as partes em que a altitude é menor (se é que a gente pode falar em altitude num local sem mar, mas acho que vocês entenderam rs). Esse brilho pode ser uma forma de neve. Como a temperatura na superfície do planeta é muito alta, muitos metais podem ser vaporizados pelo calor intenso. Forma-se então uma “névoa metálica”. Só que em altitudes mais elevadas, onde é um pouco mais frio, esse metal pode então condensar e precipitar,  formando uma fina camada no solo do planeta. Essa neve pode ser formada por um metal raro chamado telúrio ou até por pirita (chamada também de ‘ouro dos tolos’, o que seria muito legal rs).

Chuva de Canivete

Mentira, é chuva de vidro mesmo. Mas deve dar quase na mesma em termos de ferimentos. A diferença é que existe um lugar em que chove vidro.  No exoplaneta HD 189733b, localizado a 63 anos-luz da Terra, orbita a estrela HD 189733 A. É um “blue marble” gigante (tem aproximadamente o tamanho de Júpiter):

Impressão artística de HD 189733 b. O planeta foi descoberto em 2005. Em 2011, descobriu-se que ele era azul, usando um processo chamado polarimetria.
Impressão artística de HD 189733 b. O planeta foi descoberto em 2005. Em 2011, descobriu-se que ele era azul, usando um processo chamado polarimetria.

Apesar da amigável cor azul, esse planeta não é igual à Terra. Em julho desse ano, foi publicada uma pesquisa que mostra que a precipitação do planeta é vidro derretido. Para que o vidro derreta, a temperatura tem que ser muito alta. A temperatura média em HD 189733b é 1000°C e a velocidade do vento é de cerca de 7000km/h. Partículas de silicato, presentes nas nuvens desse planeta, derretem com o calor intenso, formando “gotas de vidro”. Um processo muito semelhante acontece na Terra, quando raios atingem regiões com areia. O calor intenso provocado pelo raio faz com que a areia derreta, formando os fulguritos.

Fulgurito. Fonte: Wikimedia Commons
Fulgurito. Fonte: Wikimedia Commons

H. Stern Shopping Netuno

O sonho de toda joalheria: em Netuno, chove diamantes. Pelo que entendi, não é exclusividade de Netuno. Chuva de diamantes pode ser encontrada também em Saturno, em Júpiter e em Urano. Aparentemente, o metano, gás encontrado na atmosfera desses  planetas, pode transformar-se em diamantes quando submetido a pressões e temperaturas elevadas, condições que são encontradas no interior desses planetas.

Os diamantes, portanto forma-se e precipitam como granizo em direção ao centro do planeta. Essa interessante descoberta foi feita em 1999/2000, por pesquisadores de Berkeley. Eles fizeram um experimento em que reproduziram em laboratório condições semelhantes àquelas encontradas nesses gigantes gasosos.

Os gigantes gasosos de nosso Sistema Solar estão bem distantes do Sol (alguns exoplanetas são gigantes gasosos bem próximos de sua estrela). Netuno, apesar de estar distante, apresenta um saldo de energia positivo. O calor irradiado por Netuno, de acordo com os cientistas, pode ser causado pela precipitação de diamantes. Ao se acomodarem no núcleo, ocorreria liberação de energia.

Planeta rico!
Planeta rico!

Iron Rain

Em um outro exoplaneta, chamado OGLE-TR-56b, chove pedaços de ferro.

OGLE-TR-56b está localizado a cerca de 4800 anos luz de nosso Sistema Solar. Ou seja, está muito, muito longe. É um planeta gasoso que tem mais ou menos o mesmo tamanho que Júpiter. Está localizado tão próximo de sua estrela ( OGLE-TR-56), que seu peródo de tranlação é de 29h terrestres. Ou seja, 1 ano dura apenas 29h. A temperatura é tão elevada que existe nuvens feitas de átomos de ferro. Essa descoberta é recente, foi publicada em agosto/2013, se não me engano.

Comparação entre os tamanhos de Júpiter e OGLE. Fonte: Wikimedia Commons
Comparação entre os tamanhos de Júpiter e OGLE-TR-56b. Fonte: Wikimedia Commons

 

Chuva de Metano em Titan

Titan é uma lua de Saturno. Acho que mencionei Titan nesse post.

Além da Terra, Titan é o único corpo celeste até agora descoberto que possui alguma forma líquida estável na superfície. Só que no caso de Titan, os oceanos são feitos de metano.

Cogita-se que Marte teve rios e até oceanos de água, mas se isso aconteceu, foi num passado muito remoto daquele planeta.  Na atualidade, a Terra é o único planeta que possui água em estado líquido na sua superfície. Titan, possui uma outra substância em estado líquido, que é o metano (e em quantidade aparentemente menor, também outro hidrocarboneto, o etano).

Se existem oceanos de metano por lá, uma mente com mais imaginação pode pensar em um ecossistema todo baseado nessa substância, com um ciclo dessa substância bem definida, como nosso ciclo d’água.  Podemos inclusive fazer uma analogia com o ciclo d’água, mas claro, o ciclo do metano ocorre em temperaturas bem menores (o ponto de derretimento do metano é -182°C). Titan possui rios, lagos, chuva, etc, tudo feito de metano.

Representação artística de uma paisagem de Titan. a coloração amarela é resultado da presença de compostos organonitrogenados (como a amônia - NH3) Credit & Copyright: Mark Garlick (Space-art.co.uk)
Representação artística de uma paisagem de Titan. a coloração amarela é resultado da presença de compostos organonitrogenados (como a amônia – NH3) Credit & Copyright: Mark Garlick (Space-art.co.uk)

Chuva de rosquinhas (:-P)

Em Casa da Árvore dos Horrores V (um dos episódios anuais do Halloween d’Os Simpsons) , Homer desliza entre realidades alternativas. Em uma dessas versões de Springfield, a família Simpson é milionária e chove rosquinhas :-P: