Crianças, tão curiosas :)



O Humberto, um simpático comentarista que sempre escreve aqui no Meteorópole, fez um comentário nesse post em que falo de cinco fatos que podemos contar para as crianças e fazer com que elas se interessem por ciência.  Ao ler o post, ele lembrou dos seus alunos. E eu lembrei de algo que aconteceu semana passada.

Fonte: Free Digital Photos
Fonte: Free Digital Photos

Eu ando bastante ocupada recentemente. Na verdade, é um misto de muitas tarefas + desorganização. Estou estudando francês, estou me dedicando a um novo hobby (quando eu terminar meu primeiro trabalho, conto para vocês), tenho que arrumar minha casa, preciso fazer muita coisa do meu trabalho, etc. Quando tenho uma folguinha, acabo lendo o capítulo de algum livro ou assistindo alguma série (no momento, meu vício é Breaking Bad rs). Por isso tenho postado bem menos.

Voltando ao “causo”. No meu trabalho, recebemos visitantes. Esses visitantes são bem diversos, mas normalmente são provenientes de escolas do Ensino Fundamental e Médio.  Para quem não é do Brasil: trata-se do ensino básico, dos 7 até os 17 anos.

Normalmente, preferimos atender adolescentes. Crianças muito pequenas não tem paciência para assistir uma palestra por cerca de 1h. Além disso, normalmente elas ainda não conhecem muito bem alguns conceitos físicos (mudança de fase, eletricidade, leis de Newton, etc), que ajudam a compreender a palestra sobre Meteorologia. Só que semana passada, por um problema no agendamento, tive que atender crianças de 9 anos.

Os estagiários organizaram o auditório. Eu entrei para copiar o conjunto de slides. Fiquei extremamente surpresa quando vi o auditório se encher de crianças. Rapidamente, decidi mostrar apenas parte da palestra. A parte em que falamos dos instrumentos meteorológicos simples (termômetro, biruta, barômetro, pluviômetro…). Procurei evitar os nomes difíceis e focar naquilo que eles mediam. Para explicar sobre pressão, por exemplo, falo sobre o “peso do ar sobre as nossas cabeças” e normalmente uso o exemplo dos jogadores de futebol, que sente diferença no rendimento quando vão jogar em uma cidade andina, por exemplo.

Antes de começar essa mini apresentação, disse que falaríamos algumas coisas no auditório e que depois conheceríamos a Estação Meteorológica e o Museu de Meteorologia. Eles ficaram muito satisfeitos e curiosos com as atrações futuras, principalmente com a ideia de conhecer o museu.

Portanto, a palestra que normalmente tem cerca de 60 slides, ficou reduzida a um trecho com 6 slides. E então entra a parte interessante: eu devo ter demorado cerca de meia hora para passar apenas 6 slides. Isso mesmo. Como isso aconteceu?

A molecada ficava toda hora me interrompendo. Não, eles não faziam bagunça. Eles faziam mil perguntas. Perguntavam o que era meteoro/furacão/terremoto/asteróide/etc. Perguntavam se o fim do mundo era real. Diziam que viram um determinado filme em que o mundo acabava (e perguntavam se isso ia realmente acontecer). Perguntaram se podia olhar no espelho durante uma tempestade com raios. Perguntaram mil coisas, algumas relacionadas com meteorologia, outras não.

Como eu já prevejo esse tipo de situação (já dei várias palestras para crianças e esse tipo de comportamento é muito comum), leio bastante a respeito de Geologia e Astronomia para poder responder as dúvidas dessas áreas também. Inclusive, já sei o tipo de pergunta que vão fazer. Acho que meus leitores que são professores sabem muito bem do que estou falando: depois de apresentar um mesmo conteúdo várias vezes, a gente consegue antecipar o tipo de dúvida que vai surgir.

Uma coisa interessante que acontece com as crianças é que algumas ainda misturam realidade e ficção. E então entra a questão dos filmes. Um dos pequenos tinha assistido Impacto Profundo (pela descrição que me deu, parecia ser esse filme) e ficou apreensivo. Ele tinha entendido que o filme apresentava fatos reais que tinham acontecido em algum local distante do Brasil. Expliquei que era um filme e embora existam vários asteroides vagando por aí, nenhum ameaça a integridade da Terra. Depois, em casa, eu ri sozinha da preocupação da criança. Eles são surpreendentes 🙂

Em um de meus 6 slides, havia uma imagem de satélite. Essa imagem era uma composição, pegando todo continente americano. As crianças começaram a me perguntar onde ficava a Espanha (o Barcelona fez a cabeça da meninada rs), a África, os Estados Unidos, etc. Deduzi que muitos nunca tinham visto um mapa ou se tinham visto, talvez não tinha sido apresentado de maneira interessante.

Fiquei encantada por aquelas crianças. Na adolescência, muitos vão abandonar essa curiosidade. Infelizmente, ser nerd é algo que não é bem visto. O adolescente que gosta de estudar muitas vezes sofre bullying. Eu fui vítima de bullying por essa razão. Colocavam cadeira quebrada para eu sentar, diziam que eu queria me aparecer (pois eu gostava de estudar), etc. Acabei me isolando e tendo poucos amigos nessa fase.

O adolescente, na maioria dos casos, quer agradar o grupo. Para não “passar vergonha”, o adolescente acaba deixando de lado algumas coisas que gosta. Inclusive, quando recebo turmas de adolescentes, percebo que eles não fazem perguntas. Talvez por vergonha, medo de ser hostilizado pelo restante da turma. Medo de ser hostilizado pelos chatos que sentam no fundão e fazem piadinhas durante a apresentação (a quantidade de menino com a síndrome Bastos-Gentilli não está nos anais da medicina).

Hoje em dia, a tal “moda nerd” está em alta, com muita gente usando a camiseta Bazinga. Só que é apenas aparência: pergunte se algum deles quer ser físico teórico ou quer aprender chinês para lutar por seu frango com tangerina…rs.

No final da apresentação, quando eu encaminhava a turma para a Estação Meteorológica e para o Museu, uma menina muito simpática parou do meu lado e disse:

– Quando eu crescer, quero ser meteorologista como você.

E eu me senti como a Gisele Bündchen. Ela deve ouvir o tempo todo: “quando eu crescer, quero ser modelo igual você”.

Eu fiquei tão feliz. A garotinha vai crescer e talvez escolha outra profissão. Seja qual for a profissão, torço para que ela se saia bem. O que me deixou feliz foi ver que deixei uma menina tão encantada com ciência a ponto de ela considerar escolher minha profissão. Isso é gratificante, não tem preço.