Dia da consciência negra



Hoje é dia da Consciência Negra.

Em muitas cidades brasileiras, é feriado. Não basta apenas ser mais um feriado: é necessário compreender a importância do dia de hoje. Para saber um pouco mais, leia esse ótimo texto do Douglas Belchior, que ajuda a compreender a importância dessa data. Os assuntos abordados no texto como cotas, violência e cultura africana deveriam ser discutidos em todas as escolas brasileiras. Deveriam ser discutidos também dentro de casa. Só que infelizmente o que vejo por aí é um cenário bem diferente.

Eu sou branca e de classe média. Não tenho privilégio de gênero (sou mulher e nossa sociedade é sexista), mas tenho privilégios de cor de pele (nossa sociedade é eurocêntrica). Reconhecer esses privilégios é, na minha opinião, o primeiro passo para compreender que o racismo existe na sociedade brasileira e que certas políticas, como redistribuição de renda e cotas, são extremamente necessárias.

Qual o cenário diferente que vejo por aí? Bom, são pessoas com os mesmos privilégios que eu que simplesmente são contra as cotas e tecem longas e entediantes histórias dizendo que os avós vieram do país X, sem nada no bolso e conseguiram “vencer na vida”. São pessoas que nunca leram nenhum material publicado ou divulgado pelos movimentos de consciência negra e tomadas pela ignorância, dizem que o Dia da Consciência Negra é “racismo ao contrário”. E por falar no bizarro termo “racismo ao contrário”, convido todos a assistirem o vídeo do Bill Maher (o vídeo é legendado, basta ativar as legendas no botãozinho correspondente):

Bill Maher fala da realidade norte-americana, mas muitas coisas aplicam-se muito bem a realidade brasileira. Postei o vídeo acima para alguns colegas/amigos que não conseguem reconhecer seus privilégios e teve gente que ficou ofendida! Opa, chamar de racista não pode, é ofensa. Mas tapar os olhos e acreditar na meritocracia, acreditar que todos somos iguais e temos as mesmas oportunidades (negro ou branco), acreditar que qualquer ofensa vale em nome do humor…. bom, isso não é ofensa, né?

[E pra dizer a verdade: tenho certeza que alguns de meus colegas/amigos nem viram o vídeo. Acho que viram o título/descrição e ficaram ‘ofendidos’. Francamente].

Ser ignorante não é um problema. O problema é não ficar constrangido com sua ignorância, a ponto de não se importar em saná-la. Algumas pessoas preferem reproduzir idéias equivocadas ao invés de buscar novas informações e procurar entender porque o Movimento Negro existe e é necessário. Como exemplo de ignorância, vou copiar um comentário feito por um leitor do texto do Douglas Belchior (em itálico, minhas observações):

Caro jornalista:
Venho de uma militância que teve início ao 14 anos. Hoje digo:
1) O Brasil não é oficialmente racista.
A CF, C.estaduais e Leis Orgânicas confirmam.

Diga algo que a gente não saiba! Também não é oficialmente sexista. Muitas drogas também não são legalizadas, no entanto existem e são consumidas.

2) Ainda não foi definido cientificamente a questão de raça ou foi desconstruído o conceito de raça.

No Brasil é negro quem quer e de tal forma branco. Se a SBPC, CNPQ e etc não se pronunciaram criando uma metodologia de classificação eu, pobre mortal não o farei. O Brasil é atípico, pois somos muitos povos em um só.Assim é o mundo globalizado, pensando melhor.

Essa desculpa é safada. O conceito de raça é de fato controverso, inclusive essa pesquisa menciona alguns casos muito interessantes. No entanto, ninguém precisa andar na rua com o resultado de um teste de DNA mitocondrial na bolsa. Todo mundo sabe quem é negro ou não, estamos falando de cor de pele, histórico familiar e marginalização.

3)Até 1930 no Brasil não havia concurso público para ingresso no estado(nas 3 esferas de estado e poder).Após começa uma intenção de mudança.

O que isso tem a ver com o texto?

4) Parece-me que ainda não temos um sentimento de “donos do Brasil”; é muito subjetivo, deve ser melhor trabalhado esse conceito.

Qual a necessidade dessa opinião igualmente subjetiva? O que ela tem a ver com o tema?

5)Ou matamos a atual forma de poder de mídia ou ela nos mata.(a todos os brasileiros).

Sim! A mídia é parcial, serve interesses de uma minoria com muito dinheiro e é eurocêntrica.

6) Não luto mais pelo Movimento Negro, mas por algo maior, a minha CONDIÇÃO HUMANA. Dentro desta está a minha luta como Negro( se é que sou).

Ok, se  todos fossem tratados de maneira igual e tivessem as mesmas oportunidades. Coisas que não acontecem.

7) Se não há racismo oficial o que são então esse números de estatísticas? É o lado complexo da questão.

Correlação, já ouviu falar? Negros são marginalizados pela violência e pela pobreza. Não, não mencione aquele seu colega de trabalho que é negro e rico. Ele é uma exceção. A distribuição normal tem dessas coisas.

8) Somos um povo amoroso.É o lado simples da questão.

Oi? Subjetividade? Generalização?

9) Combater racistas. É o lado cômico da questão.

 Por que cômico? Além de combater o racismo “direto” (como nesse caso), devemos também combater todas as causas da marginalização.

Fico com a triste impressão de que as pessoas não querem mudar os seus conceitos antigos. É ainda mais lamentável quando pessoas que puderam estudar e tiveram oportunidades na vida não reconheçam seus privilégios e não entendam que o Movimento Negro, o Movimento Gay e o Movimento Feminista, por exemplo, são necessários para alcançar uma sociedade igualitária.

Além do texto de Douglas Belchior, recomendo todos os textos do blog Blogueiras Negras. As escritoras desse blog falam de sexismo e racismo. É um blog muito bom para se compreender essas duas questões. Há diversos textos pela internet. Mencionei esses dois blogs que conheço, mas ainda hoje sei que muitos ainda vão falar da importância do Dia da Consciência Negra.